Neto de japoneses, o estilista Akihito Hira caminha para ser um nome internacional da moda

Famoso pela disciplina, ele traça seu futuro com a mesma elegância com que desenha roupas masculinas

Hira é considerado "o nerd da moda"
Hira é considerado "o nerd da moda" Foto: Divulgação

Pode ser que você ainda não tenha escutado o nome do estilista Akihito Hira, 32 anos. Mas isso é questão de tempo ?ele ainda vai ser grande. A moda de Brasília jamais lançou no mercado um designer com tantas chances de conquistar o mundo. Além dos desfiles que fez no Capital Fashion Week e no Rio Moda Hype, Akihito já recebeu convites para se apresentar nas próximas temporadas do Minas Trend Preview e do Dragão Fashion Brasil. Seu nome também constou na seleção do New York Fashion Week passado.

Akihito só desenha roupas masculinas. São blazeres, camisas, calças e bermudas. Peças bem cortadas e elegantes, com detalhes inesperados e tom moderno na medida certa. A ascendência japonesa é uma influência. Mas todos os seus desenhos têm características bem brasileiras, seja nos tecidos leves, seja na temática das coleções. Tudo é muito bem pensado ? do interior da roupa com acabamento de alta costura às peças simetricamente costuradas. Os que o conhecem dizem que sua costura traduz com perfeição a sua personalidade.

A primeira palavra que vem à mente para definir Akihito é gentleman. O rapaz é realmente muito educado. Jamais levanta a voz. Quando conversa com as pessoas, olha nos olhos, escuta e nunca interrompe o que os outros têm a dizer. É aquele tipo de pessoa que não demonstra impaciência ?mesmo que esteja impaciente. É um homem de poucos, mas bons amigos, e um tímido incorrigível. Por isso, lidar com os holofotes da moda é, para ele, um exercício diário.

Exercício ainda mais árduo considerando-se que Akihito não vive de moda. Se não está ocupado desenhando ou costurando, está de terno e gravata em um escritório, trabalhando como analista de sistemas. Em sua jornada dupla, o horário comercial é dedicado à ciência da computação. O corte e a costura avançam nas horas vagas. Mas, quando indagado sobre qual profissão vem primeiro, ele não hesita: “Sou estilista”. O ofício “nerd”, como ele mesmo define, não o desagrada, mas é, sobretudo, um meio para viabilizar sua vocação.

Talento em segredo

Trabalhar com moda não foi uma escolha fácil. Nascido em Oswaldo Cruz, no interior paulista, Akihito foi criado em Adamantina, cidade vizinha. O respeito às tradições nipônicas, zeladas pelos avós imigrantes, levaram-no a guardar o talento para si. A vontade de costurar surgiu ainda criança, mas tinha medo de ser incompreendico, mesmo sabendo que, em sua linhanhem, havia um bisavô alfaite.

Akihito foi ensinado pelos pais, donos de uma confeitaria, a ter uma profissão estável, que lhe proporcionasse uma vida tranquila. Por isso, quando chegou o momento de escolher um curso na universidade, optou por uma atividade que envolvesse matemática, matéria que dominava na escola. Passou no vestibular da Unesp e se mudou para Bauru. Quando se formou, um tio que morava em Brasília o indicou para uma vaga em uma empresa da cidade. Rapidamente, Akihito conquistou a sua estabilidade financeira. E foi aí que esconder a vocação tornou-se insustentável.

Ele bem que tentou esquecer o assunto. Mas quando viu a propaganda para o vestibular do primeiro curso de moda do DF inscreveu-se na hora. Contou aos pais a decisão e se surpreendeu com a reação positiva dos dois.

? preconceito com a profissão era algo que existia apenas dentro de mim. Tinha medo de cair nos estereótipos dos estilistas ?analisa.

Ele não chegou a concluir a graduação, mas foi um período essencial para sedimentar seus conhecimentos sobre moda.

Ainda na faculdade, o estilista ficou sabendo sobre um projeto pioneiro em Brasília: o Capital Fashion Week. A recém-nascida semana de moda candanga abriria um concurso de novos talentos. A promessa era oferecer aos selecionados uma passarela para desfilar as suas coleções, além do suporte logístico e da consultoria do festejado estilista Jum Nakao (sansei como Akihito). Resultado: o projeto de Akihito foi impecavelmente elaborado e criou um alto padrão de exigência para os demais concorrentes. Até hoje ele é usado como exemplo para quem deseja entrar no concurso.

Antes mesmo do début oficial, Akihito ficou famoso nos bastidores. Todo mundo queria saber quem era “o menino do projeto impecável”. Ninguém esperava, entretanto, um estilista tão arrumadinho. Akihito foge de todos os estereótipos da moda: está sempre elegante e discreto, com blazer e camisa de botão, peças de autoria própria. O lado geek fica patente para quem o visita, pois sua casa é repleta de gadgets tecnológicos. O estilista não abre mão do telefone com rádio, da internet móvel, do tocador de mp3. Seu objeto de desejo atualmente é um iPad.

Evolução constante
A sobriedade dos modos rendeu a Akihito uma vantagem insuspeitada no mundo dos negócios. Os investidores consideram-no sério, sensato. E ele de fato o é. Assim que percebeu a boa acolhida de seu trabalho, resolveu se profissionalizar. Arrumou um sócio, que o ajuda na parte administrativa e dá suporte na parte de criação. A dupla fez cursos no Sebrae, montou um plano de negócios e abriu um CNPJ. Assim, a empresa padronizou do cabide ao botão usados, passando à capa de proteção das roupas. Boa parte do aviamento é comprada em São Paulo. Os pais o ajudam na importação, enviando acabamentos únicos, que o estilista não encontra em Brasília.

Akihito luta agora para conquistar uma vaga na Associação Brasileira de Estilistas (Abest) e ingressar em uma nova fase. A boa acolhida no métié não lhe garantiu independência: o investimento na empresa ainda sai do próprio bolso. Por isso, apesar do convite, Akihito não conseguiu desfilar em setembro deste ano na Semana de Moda de Nova York. Os planos tiveram de ser adiados para a próxima temporada. Ele continua buscando recursos para os cinco desfiles agendados no ano que vem.

O crescimento vem aos poucos, mas com bases sólidas. Tudo conforme o plano desenhado no início da marca. O primeiro passo do estilista e do sócio foi abrir uma loja chamada Style Store na Asa Norte. Lá eles vendiam além das peças do estilista, roupas femininas para conquistar um público maior.

Com o dinheiro que juntaram, fecharam o ponto e abriram um novo local de venda. O Espaço Akihito Hira fica em uma tradicional casa da Vila Planalto. Eles dividem o endereço com as meninas da Preciosas Marias, loja especializada em bijuterias. O próximo passo?

? Levar a moda de Brasília para o mundo.

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