Nicole Kidman: elegante em papéis deselegantes

Nem sempre tendo a chance de interpretar a bela mocinha, atriz se destaca no cinema

Foto: Todd Heisler

Recentemente, Nicole Kidman, estrela de cinema, vencedora de um Oscar e habitué dos tapetes vermelhos, interpretou uma vaca. Nem todos os papéis, afinal, são glamourosos.

A atuação foi para uma encenação de João e o Pé de Feijão, que se desenrolou em sua casa, em Nashville, enquanto Kidman colocava a filha de quatro anos, Sunday, para dormir. Ela também interpretou o herói do conto de fadas, famoso por escalar um feijoeiro até as alturas, enquanto seu marido, o cantor de country Keith Urban, fazia o papel dos feijões mágicos.

– É que eu não conseguia mais ler o livro pela centésima vez, então resolvemos interpretar – lembra a atriz de 45 anos. (O casal também tem uma filha de 19 meses, Faith, e Kidman tem uma filha, Isabella, de 19 anos, e um filho, Connor, de 17, de seu casamento com Tom Cruise.) – Sunday ficou sentada na cama enquanto nos olhava. Estava realmente interessada no que a gente estava fazendo. Em seguida, começou a rir.

Depois de quase 30 anos fazendo filmes, ninguém pode dizer que Kidman não deve aceitar papéis que desafiem tanto a ela quanto aos espectadores que pensam que a conhecem. Tomando um cappuccino em um hotel de Nova York, ela fala sobre a sua carreira e seu último papel improvável: o de uma prostituta do Sul dos Estados Unidos no drama deliberadamente piegas The Paperboy, que estreou em outubro nos Estados Unidos. Dirigido pelo criador de Preciosa, Lee Daniels, o filme ganhou aplausos e vaias pela sua audácia quando foi exibido no Festival de Cinema de Cannes em maio.

Kidman, uma loira elegante, é extremamente alta (ela tem quase 1m80cm) e parece ainda mais alta vestindo um terninho preto chique. Diz com precisão, mas com um senso de humor acessível:

– Pode me perguntar praticamente tudo. Para algumas coisas, vou dizer: “Isso me parece um pouco pessoal demais”. Mas não tenho medo de responder sobre a maioria das coisas.

Segundo Kidman, sua carreira tem se baseado em um esforço de adentrar as personagens que ela interpreta. Para ela, quando mais nova, atuar era uma forma de escapar de suas próprias inseguranças, transformando-se em outra pessoa. Agora, diz, “tem a ver com o desejo de estudar a condição humana, o desejo de fazer parcerias, de aprender e absorver, e de levar uma vida bem pensada”.

Quando peço a ela que cite um exemplo que lhe serve de modelo para os próximos 10 ou 20 anos de sua carreira, imediatamente menciona a atriz francesa Isabelle Huppert.

– Eu adoro o fato de que ela corre riscos na carreira.

Para o diretor Baz Luhrmann, seu amigo, compatriota australiano e duas vezes colaborador (Moulin Rouge! e Austrália), Kidman pertence a uma estirpe rara.

– A Nicole é uma atriz séria e ao mesmo tempo uma estrela icônica do cinema – escreveu ele por e-mail. – Essa combinação não é habitual. Fora das telas, ela pode ser extremamente pragmática, direta, muito divertida e mostrar um senso de humor fantástico, muito australiano, que não se leva a sério demais.

Outra amiga próxima, a atriz Naomi Watts, elogia a maneira como Kidman transita entre filmes comerciais e independentes.

– Acho que a Nic tem um lado selvagem e outro bastante prático, e consegue equilibrar os dois muito bem, o que fica evidente em seu trabalho – diz Watts em uma entrevista por telefone. – Ela é uma mulher fascinante e complicada, cheia de contradições, e isso é o que torna o seu trabalho tão profundo e interessante.

Coloquemos The Paperboy no lado selvagem. Baseado em um romance publicado por Pete Dexter em 1995, o filme apresenta Kidman como uma mulher aparentemente fácil chamada Charlotte, moradora de uma pequena cidade na Flórida, em 1969. Ela escreve cartas românticas para presidiários e anda por aí com calças douradas detonadas, blusas justas e cabelo loiro alisado. – Eu acho que o cabelo liso me dá classe – observa Charlotte, equivocada.

As cenas arriscadas de Kidman em The Paperboy incluem uma sessão erótica no cárcere, sem contato físico, com o noivo de sua personagem, um assassino condenado (interpretado por John Cusack), e uma cena de praia, já muito discutida, na qual ela urina sobre um jovem adorador (Zac Efron) em uma tentativa de neutralizar picadas de águas-vivas. (Em um diálogo que provavelmente vai se tornar um clássico instantâneo do burlesco, Charlotte, enxotando outras mulheres, supostas boas samaritanas, proclama que se alguém vai urinar no jovem, só pode ser ela.)

– Eu queria algo cru, e eu queria trabalhar com um diretor que pudesse acessar algo diferente em mim – diz. – O roteiro era muito forte, então fiquei grata por conseguir o papel.

Daniels, que havia dirigido apenas Preciosa e Matadores de Aluguel antes de The Paperboy, credita ao currículo formidável de Kidman o fato de, inicialmente, ter se sentido intimidado – além de um Oscar por seu papel como Virginia Woolf em As Horas (2002), ela teve outras duas indicações ao Oscar e trabalhou em quase 40 filmes).

– Porém, ela disse: “Lee, se você vai me dirigir, você tem que entender que eu sou apenas uma garota normal que está trabalhando” – conta ele. – E ela era.

Nascida no Havaí, mas criada em Sidney (ela tem dupla cidadania, americana e australiana), filha de um psicólogo e de uma instrutora de enfermagem, Kidman descobriu as artes cênicas cedo, por meio da leitura.

– Eu era alguém de pele clara em um país em que as pessoas costumam ficar fora de casa – lembra.

Enquanto os outros estavam na praia, a mãe insistia que a pálida Nic passasse a maior parte dos dias dentro de casa. Ela passava o tempo devorando e sendo enfeitiçada por romances clássicos como Madame Bovary e Guerra e Paz.

Kidman se matriculou em um curso de teatro e logo começou a trabalhar regularmente na tevê australiana e no cinema. Em 1989, Tom Cruise a assistiu no thriller Terror a Bordo, um de seus primeiros papéis como adulta, o que a levou a ser chamada para contracenar com ele em Dias de Trovão (1990) e ao casamento dos dois, que durou os 10 anos subsequentes.

Watts, que conhece Kidman desde que eram adolescentes em Sidney e atuou com ela no filme australiano Aprendendo a Viver (1991) diz:

– A Nicole era ambiciosa, mas não tinha uma ambição implacável. Ela era apenas uma mulher que sabia do que gostava, estava atenta e comprometida, e que trabalhou arduamente para ficar cada vez melhor.

A ambição de Kidman a levou a trabalhar com grandes diretores, às vezes iconoclastas, incluindo Stanley Kubrick (De Olhos Bem Fechados) e Anthony Minghella (Cold Mountain), bem como Luhrmann, Gus Van Sant (Um Sonho Sem Limites), Stephen Daldry (As Horas) e Lars von Trier (Dogville).

– Eu trabalho bem com pessoas extremas – diz, acrescentando carinhosamente Lee Daniels, diretor de The Paperboy, a esse grupo, cujos filmes sexualmente francos sempre ofendem pelo menos alguns espectadores.

Sobre Von Trier, famoso por ser difícil, conta:

– Cinematograficamente, ele faz coisas que ninguém mais faz. Podemos amá-lo ou odiá-lo, mas é inegável que o cinema dele é incrivelmente forte.

É por isso que mesmo em um momento em que está ocupada se preparando para encarnar Grace Kelly em Grace de Mônaco, seu próximo papel, Kidman tenta desesperadamente encaixar em sua agenda um pequeno papel no próximo filme de Von Trier, The Nymphomaniac.

A Nicole Kidman de hoje costuma dizer não a convites para interpretar papéis que a separam das filhas pequenas e do marido por muito tempo.

– Eu trabalhei bastante para chegar onde cheguei. Não acho que nada disso caiu do céu. Eu valorizo muito o que tenho. Quando tiver 70, 80 anos, quero que a minha família esteja por perto. Sei que muito pode acontecer até lá, mas certamente não será por ausência minha.

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna