No calor da trama: peças em tricô, crochê e bordado ganham espaço no mundo da moda

Atividades manuais são resgatadas por estilistas jovens

A estilista caxiense Cristiane Bertoluci (foto) faz intervenções urbanas com tricô em SP e ensina a técnica a alunos
A estilista caxiense Cristiane Bertoluci (foto) faz intervenções urbanas com tricô em SP e ensina a técnica a alunos Foto: Acervo pessoal

São as mãos, os fios, as tramas e a intenção que há por trás de cada ponto ou amarração que ligam as histórias das pessoas que ilustram essa reportagem. Seja pelo apelo artesanal e sustentável ou pela exclusividade das peças, o tricô, o crochê e o bordado vêm ganhando cada vez mais espaço no mundo da moda e despertando um interesse até pouco tempo um tanto improvável. No frio, essa curiosidade fica ainda mais evidente.

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Assista ao vídeo das intervenções do projeto Tricotando a Cidade pelas ruas de São Paulo

Das senhorinhas bordando em frente ao fogão a lenha às garotas hypadas tricotando na vitrine em São Paulo, ainda existe uma vontade de socialização no conceito feito à mão. O que poderia ser considerado passatempo da vovó vem atraindo um público mais jovem e o foco do trabalho de pesquisadores, que estimulam a busca pela origem do fazer manual. Manusear agulhas e linhas serve, também, como metáfora para a vida. É o desdobramento do tempo, os pontos que avançam e retrocedem, a peça desmanchada, o recomeço.

A estilista caxiense Cristiane Bertoluci, 27 anos, tricota desde os nove – “cachecol, polaina e roupa de Barbie”. Há quase quatro anos mora em São Paulo, onde trabalhou em empresas de fios e malharias industriais e ganhou fama graças a um ofício bem simples: o tricô. Há um ano, juntou-se a uma amiga, Carla Mayumi, e criou o projeto Tricotarde. Graças a ele, passou a fazer tricô em público para mostrar às pessoas o quão legal é.

– Já ouvimos coisas absurdas como: “Nossa, meninas tão bonitas estão aí, tricotando…”. Mas a maioria gosta muito, as senhoras querem tricotar com a gente – conta.

Este mês, o grupo fez uma intervenção urbana no Parque Trianon, perto do Masp, na capital paulista, adornando estátuas e postes. As gurias foram convidadas, também, para a revitalização do Largo da Batata, na mesma cidade. Cristiane dá aulas de tricô e já ensinou alguns meninos. Mas a maioria dos alunos é do sexo feminino. Em São Paulo, percebeu que as gurias gaúchas aprendem a manusear linhas e agulhas na infância, ao contrário das paulistas. Para ela, o tricô é um reflexo da existência.

– A nossa geração quer personalizar a própria vida. E, como tivemos uma infância mais lúdica, queremos que ela continue – acredita.

Um dos trabalhos mais bacanas criados pela estilista caxiense é o Tricotando a Cidade, em que, a pedido do Estúdio Emme, espalhou flores, folhas e tapetes feitos em tricô pelas ruas de São Paulo. Cristiane diz que o trabalho manual tem pensamentos e muito amor impressos nele. E tenta explicar aos alunos que não existe trabalho feio – é a diferença que torna uma peça especial.

– Serve, também, como autoconhecimento. Um ponto apertado pode ser moda de uma pessoa muito perfeccionista. Alguém mais freestyle deixa os pontos caírem e tudo bem – faz a analogia.

No ano passado, Cristiane passou três meses em Brighton (Inglaterra), estudando na Knit One, espécie de internato de tricô. No curso, passava cerca de 10 horas por dia tricotando e aprimorando técnicas de texturas e estampas em malharia, tanto à máquina quanto manualmente. Aproveitou a viagem e foi, também, a Berlim, na Alemanha, onde visitou os Arquivos de Bauhaus, escola alemã que foi uma das maiores expressões do modernismo no design e na arquitetura, entre 1919 e 1933. Uma das premissas da Bauhaus era estimular a criatividade, aliada à tecnologia, a fim de criar produtos funcionais com atributos artísticos.

Na volta, decidiu chamar duas amigas (Ana Helena Tokutake, designer, e Tainá Denardi, psicóloga). Estava criado o Coletivo Tresponto. O trio produz peças como luvas, cachecóis e moletons com bordados – tudo feito à mão. Mais importante do que fazer, o trio gosta de disseminar a paixão pela técnica. Tricô não é só coisa de inverno. É uma engenharia que permite infinidades. – Resgatar essa atividade é muito valioso. Não quero viver de cardigã rosinha ou azulzinho da Zara – compara, rindo.

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No maior tricô

O tricô, que era o hobby da vovó, representa um estilo de vida bem contemporâneo. Com cerca de 100 alunos de tricô por mês, a professora Marlene Scheeren de Oliveira, 56 anos, sabe por que a expressão “tricotar” pode ser sinônimo de “fofocar, conversar”. Encontrar gente, trocar confidências e lamentações faz parte do espírito do tricô em grupo.

– A gente ri, ouve histórias… Hoje em dia, as pessoas estão mais apressadas do que antigamente – observa.

São 31 anos de profissão recém-completados, ofício aprendido no colégio de freiras que frequentava na cidade natal, Crissiumal, no noroeste gaúcho. A habilidade com as agulhas propiciou, desde cedo, a integração com outras mulheres.

– No Interior, a gente se reunia para tricotar, trocava informações e amostras de pontos. Fazíamos enxovais e algumas roupinhas de bebê – recorda ela, que também borda e faz crochê.

Quando mudou-se para Caxias do Sul, em 1976, fez um curso de especialização e logo depois passou a dar aulas. O grupo mais expressivo de alunos é formado por mulheres acima de 40 anos, com três perfis distintos: as que buscam reunir-se em grupo, as que querem aprender pontos diferentes para comercializar peças e ganhar dinheiro e as que fazem para si, pela satisfação de criar uma roupa.

No curso – cada inscrição dá direito a quatro aulas de três horas, uma vez por semana – a pessoa escolhe o que vai confeccionar. O mais legal da atividade, para ela, é o reconhecimento que o trançar de pontos aparentemente singelo propicia:

– À vezes, encontro alguém que diz: “Fiz o enxoval do meu filho contigo”, não esquecem. É muito legal.

Obviamente, a procura aumenta significativamente no inverno, e o movimento começa a cair a partir de outubro. No verão, Marlene aproveita para criar peças novas, com modelos que tira de revistas. Atualmente, diz que é possínel encontrar qualquer fio, pois o mercado está globalizado. O amor que se imprime a cada peça, em cada ponto, é que serve para diferenciá-la das demais. É o amor que, junto à lã aquece.

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No Brasil

• O livro Bordando Sonhos, de Neusa Stimamiglio, pode ser adquirido pelo telefone (54) 3293-1854 e na Casa Grezzana, em Antônio Prado, ao preço de R$ 40.

• As aulas ministradas pela professora Marlene, em Caxias do Sul, custam R$ 35 (quatro aulas, com três horas de duração cada). Para se inscrever, é preciso adquirir materiais nas lojas Bergamaschi.

• Para assistir a uma das intervenções do grupo da Cristiane Bertoluci, em São Paulo, clique aqui.

• O mato-grossense Lucas Nascimento é considerado o “príncipe do tricô” no país. Estudou na Inglaterra, trabalhou para o mestre do tricô Sid Bryan e estreou no Fashion Rio em 2010. Em 2010, Donna publicou uma entrevista com o designer, que você relê aqui.

• A gaúcha Helen Rödel é um dos mais promissores talentos no tricô. Tem marca própria desde 2007 e, em 2009, foi convidada para participar da Semana de Moda da Islândia.

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Outras iniciativas pelo mundo

• A artista Juliana Santacruz Herrera decidiu fazer uma reparação artística nas ruas de Paris. Para isso, decidiu tricotar peças e cobrir alguns buracos de vias francesas. Chamado de Nid de Poule (Ninho da Galinha, na tradução), o projeto cobre os buracos e rachaduras do asfalto com tramas de tecidos coloridos.

• A artista plástica Anni Holm gosta da portabilidade que o tricô proporciona, bem como possibilidade de meditação e sociabilização. Ela organizou a Musical Knitting Band, uma espécie de orquestra de tricoteiros fundada nas redes sociais, em que pessoas se encontram e fazem sons com agulhas, linhas e sinos, entre um ponto e outro.

• A designer Cat Mazza utiliza as criações em tricô como manifesto social. Nas peças, mescla denúncia e poesia. Dá para conhecer o trabalho no site.

• A estilista Liz Collins, uma das principais referências atuais no tricô, mescla um trabalho com peças básicas e instalações tridimensionais. Um dos mais bacanas é o Knitting Nation, em que mulheres criam performances-instalações com experiências multissensioriais que exploram o nacionalismo, a globabalização e as comunidades. O trabalho bdela pode ser visto no site.

• O Coletivo Knit The City leva a Londres uma guerrilha do tricô. Com intervenções coloridas e divertidas, espalha o lúdico pela cidade. Dá para ver as ações no site.

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