No lugar do puro entretenimento, autores mesclam tramas com recados educativos e sociais na TV

Campanhas em novelas ajudam a popularizar temas pouco divulgados

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Em Foto: Divulgação

As maldades dos vilões e o choro das mocinhas volta e meia são interrompidos por cenas que mais parecem sair de campanhas institucionais do governo. Na verdade, as produções de teledramaturgia são cada vez mais invadidas por temas educativos ou informativos.

As cenas explicativas se sucedem abordando dramas, como o alcoolismo, a gravidez na adolescência, a bulimia, a deficiência física, a exploração sexual de menores de idade ou doenças que necessitem de doação de órgãos, por exemplo. No lugar da pura ficção e do entretenimento, alguns autores mesclam em seus folhetins recados pedagógicos.

É o que tem acontecido com Malhação. O diretor Ricardo Waddington, da nova temporada da novelinha, acredita que a dramaturgia deve realmente ter a função educativa, principalmente em uma produção voltada para o público jovem.

? Malhação cumpre a função de ensinar os pais a falar sobre drogas com os filhos, a conversar sobre uma gravidez precoce. Nossa pretensão é abrir essa janela de discussão. Ela é importante na formação de um adolescente ? defende Ricardo.

Nesta temporada, Malhação tratou de temas como o bullying nas escolas e a gravidez precoce. Em Passione, de Silvio de Abreu, Fátima (Bianca Bin) chegou a correr risco de morte quando sua personagem passou por um aborto. Foram diversas cenas explicativas e sofridas que mostravam quase didaticamente o risco de um aborto às escondidas, como um alerta aos jovens e pais que assistem à novela.

? Não há como fazer novelas sem mostrar tabus da sociedade. Essa novela tem uma crítica social, mas não é engajada. Ela é para entreter, ser interessante. Se gostasse de realidade, faria jornalismo. Trabalho com ficção ? explica Silvio.

Outras abordagens

Mesmo os autores que não traçam histórias baseadas no didatismo das ações sociais em novelas, volta e meia acabam abordando temas “educativos” em seus folhetins. Isso acontece em Ribeirão do Tempo, da Record, com o alcoólatra Querêncio (Taumaturgo Ferreira), por exemplo, que vive causando sofrimentos para a filha Filomena (Liliana Castro). Mesmo assim, Marcílio não se aprofunda em questionar a doença como uma ação social na história.

Em Senhora do Destino (exibida entre 2004 e 2005), Aguinaldo Silva falou sobre dislexia por meio de Clarissa (Bárbara Borges) e também abordou a doença Mal de Alzheimer, ao incluir o drama de Laura (Glória Menezes). Na mesma trama, o autor mostrou a violência contra a mulher com a personagem Rita (Adriana Lessa), que era espancada pelo marido.

? Priorizo a história, a trama. Não dá para fazer um programa jornalístico no horário da novela das oito ? avalia o autor.

O mesmo pensa Cristianne Fridman. Ainda que tenha tendo abordado a pedofilia em Chamas da Vida (2008), na Record, a autora assegura que não se preocupa em ser didática.

? Quis alertar os jovens para o uso seguro da Internet, que está cheia de pedófilos. Procuro ser clara e passar informações corretas. Acho que o didatismo em televisão é muito chato ? concorda.
 
Autores fiéis ao ‘merchandising social’

Manoel Carlos e Gloria Perez são os mais fiéis ao “merchandising social” em suas novelas. Ambos concordam que é importante mesclar ficção e realidade na abordagem de temas sociais, mesmo que a história enverede por um caminho didático e a tevê perca a função básica de entretenimento ao ministrar lições de ética e cidadania.

Para Manoel Carlos, que já falou sobre bulimia, Aids, Síndrome de Down e leucemia, essas ações sociais e o esclarecimento de assuntos relevantes para a sociedade são essenciais em seu trabalho.

? Na época em que falei sobre transplante de medula óssea, 90% das pessoas não sabiam do que se tratava, por isso não doavam medula ? assegura Maneco.

Gloria Perez foi uma das pioneiras nessa linha com a novela De Corpo e Alma, há 18 anos. Naquela trama, a autora começou a perceber os resultados da inserção de suas campanhas sociais. Na história, a personagem de Bruna Lombardi tinha morte cerebral e doava seu coração para a personagem de Cristiana Oliveira. Esta ação contribuiu para que acabasse a fila de espera por transplante de coração no Incor (Instituto do Coração) durante o período em que a novela estava no ar. Com isso, a autora continuou inserindo ações sociais em novelas, como O Clone (2001), em que abordou todo o dramático e sofrido percurso de uma viciada em drogas, vivida por Débora Falabella. Mais recentemente, em Caminho das Índias, a autora deu ênfase aos doentes mentais e ao longo tratamento da doença, desde os primeiros sintomas.

? Essas campanhas dão voz a quem não tem e popularizam assuntos restritos aos meios acadêmicos ? defende Gloria.

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