Novos designers redefinem a silhueta da moda do RS

Joana, Débora, Nina, Ianny, Amanda e Martina são alguns dos nomes da geração de estilistas que promete acordar a cena fashion gaúcha
Joana, Débora, Nina, Ianny, Amanda e Martina são alguns dos nomes da geração de estilistas que promete acordar a cena fashion gaúcha Foto: Adriana Franciosi

Os anos 80 seguem inspirando as principais coleções das recentes temporadas de moda. Ombros largos, cintura marcada, cores cítricas, saia balonê. Pois não é que, por ironia, muitos dos que assinam essas criações ainda estavam nascendo durante a exagerada e inspiradora década?

O projeto de Zero Hora batizado Geração 80, que já apresentou jovens criadores do cinema, da música, da literatura, das artes visuais e do teatro, mostra agora um grupo de estilistas que ainda não ultrapassou a curva dos 30, mas é responsável por um movimento que promete reavivar as cores e as formas da moda produzida no Rio Grande do Sul.

As trajetórias são parecidas, mas os destinos desembocam nas mais diferentes direções. Há quem costure na sala da casa da mãe, há quem coordene grandes equipes e há quem se divida entre dezenas de fábricas e fornecedores. Alguns vendem pela internet, outros administram lojas no shopping. Mas o consenso é que a nascente e já crescente geração criativa do cenário fashion atual está demarcando seu território.

Joana Bacaltchuk, 29, Débora Ydalgo, 30, Nina Godinho, 25, Ianny Bastos, 25, Amanda Dorneles, 25 e Martina Hansen, 27, fazem frente ao novo conceito. Ainda que muito jovens, já acumulam conhecimento, experiência, clientela e histórias para contar tal qual gente grande. Mas também estão aprendendo a driblar a resistência e as agruras do mercado gaúcho.

– As pessoas em Porto Alegre têm dificuldade em consumir novas ideias, o que dificulta vender criações de jovens estilistas – conta a empresária Alice Comassetto, que hoje tem a Folklore, que também é uma marca, mas já foi sócia da Rouparia e da loja da Lei Básica.

Como uma das principais incentivadoras da criação local, Alice busca preencher as araras de suas lojas com modelitos feitos por aqui, por mãos de gente jovem.

– Sempre acompanhei este movimento como lojista e vi muito estilista desistir no meio do caminho, com dificuldades de acompanhar o calendário e entregar as coleções. Via falta de continuidade e aparência caseira nas peças, com ranço de costura. Agora parece que a coisa está mudando. A moda gaúcha tem sido muito citada nacionalmente, sobretudo nos blogs e nas revistas especializadas – suspira.

O amadurecimento da cena vem sendo preparado há um certo tempo. Além da massiva oferta de cursos profissionalizantes, técnicos e de graduação do setor, um dos responsáveis pela fertilidade e criatividade dessa turma é também um dos principais traços característicos da moda gaúcha: os bazares e as feiras.

Diego Marcon, 26 anos, assina uma coleção com o seu nome há três. E toda essa história começou com um bazar. Seguido de outro, e outro, e outro, até que seu nome se tornasse familiar ao público acostumado a consumir moda alternativa. Hoje ele atingiu sua coleção de número oito, a #8, fazendo moulage – técnica de corte sem molde, costurado direto no corpo – com qualidade elogiada. Limita-se a, no máximo, 10 peças por coleção, todas únicas e exclusivas.

– Sei que não poderei passar o resto da vida fazendo peça por peça. Mas mesmo quando eu tiver produção em escalas maiores farei questão de cortar, pessoalmente, algumas peças exclusivas. Isso faz parte da identidade da minha marca – deixa claro.

www.casadetolerancia.com.br

Casa de Tolerância é um coletivo de moda amarrado por três pontas: Nina Godinho é modelista, Amanda Dorneles é fera na produção, e Ianny Bastos organiza a criação. Isso na teoria. Porque, no dia-a-dia, todas fazem de tudo, de cortar tecido a colar cartazes na rua. E é com esse espírito que as estilistas que se conheceram no curso de Estilismo do Senai abandonaram seus projetos pessoais para se dedicar à Casa.

Ianny tem um ateliê, mas é na casa dos pais de Nina a bagunça maior, especialmente quando a mesa de jantar vira mesa de corte. E o esquema de trabalho é bem contemporâneo: as referências para as peças vêm do mundo, as produções e a divulgação são feitos por amigos, e a venda é, prioritariamente, pela internet.

– Trabalhamos pensando em um público específico, alternativo, descolado. Mas é muito mais legal quando alguém fora deste padrão procura as nossas peças – confessa Nina.

Do acervo da Casa são as leggings brilhosas. As com estampa de bichos lideram a lista de hits. A ideia já vinha de duas temporadas atrás. Mas só agora entraram nos romaneios de vendas. Outro xodó das estilistas são as jaquetas ajustadas, de couro falso, com detalhes delicados de babados e rendas.

www.flickr.com/photos/deboraydalgo

Depois do curso de Publicidade e Propaganda em Santa Maria, Débora Ydalgo se mudou para Porto Alegre para estudar Design. Ela ainda não sabia, mas estava fazendo de tudo para cair nas garras da moda. Começou fazendo bolsas, seguiu em um curso de modelagem, começou a cortar umas peças para uso próprio, estendeu a produção às amigas e, hoje, aos 30 anos completos na semana passada, já faz vestidos de noiva.

– O mais legal é que a criação acaba sendo conjunta. O meu cliente adora opinar, e eu gosto, porque fica mais sob medida ainda – comemora.

Neste processo, Débora, que desenha, modela, corta, costura (aqui, com o reforço de uma costureira) e vende, ficou craque nos volumes. Mangas avantajadas, golas imponentes e recortes localizados são traços do seu trabalho tanto no casual quanto nas peças festivas.

www.lojas.paqueta.com.br

Martina Hansen tem 27 anos e muita bagagem. Das áreas possíveis de criação e design, escolheu a calçadista para depositar apuro e perfeccionismo. Primeiro trabalhou com o luxuoso Maurício Medeiros. Depois, foi contratada pela equipe da Colcci para desenvolver os acessórios da marca Sommer. No ano passado recebeu uma proposta da gigante Paquetá para desenhar os sapatos da marca própria da rede de lojas.

– Trabalho com gente que tem de empresa o tempo que eu tenho de vida. Mas sempre consegui me impor. O meu orgulho é uma ankle boot bege que fiz e ninguém gostou. Insisti, coloquei em produção e foi um sucesso – lembra. – Aprendi que não dá para perguntar para todo mundo. No fundo, todos tem opinião sobre moda, querem dar palpite. Mas eu tenho que fazer valer a minha.

www.iaia.com.br

Aos 17 anos, Joana Bacaltchuk foi participar de uma pesquisa de tendências para uma loja e, de tanta opinião que deu, saiu de lá fazendo parte da equipe de estilo da marca. Passou um tempo como trainee na Renner. Também teve vontade de morar no Rio. Mandou alguns currículos e foi trabalhar na A-Teen, segunda marca da badalada Alice Tapajós.

Mas como a ideia foi sempre ter sua própria marca, Joana uniu forças com a irmã, a publicitária Mariana Bacaltchuk, e juntas desenvolveram o projeto da Iaiá, que hoje está muito bem instalada nos shoppings Moinhos e Iguatemi.

– Houve planejamento, economia e organização. Secamos nossas poupanças e decidimos que os custos valiam a pena – revela.

Além das lojas, a Iaiá é vendida em multimarcas de São Paulo, o que faz os números de produção irem às alturas. Para tudo, Joana divide espaço com um cortador, um ploteiro, uma modelista, uma gerente de produção, uma estagiária e uma pessoa só para fazer o acabamento das peças.

– Temos uma estrutura ótima, o que me permite me dedicar à criação. Mas, se pudesse, ficaria só desenvolvendo estampas, combinando cores, escolhendo tecidos. É a melhor parte – vibra.

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