Novos livros para a estante da criançada

Foto: Catherine Crow

Os livros voltados para o público infanto-juvenil seguiram as mudanças da sociedade e se renovaram. Levaram para as suas páginas novos formatos e conteúdos.

Criada para educar os filhos da burguesia em ascensão nos séculos 17 e 18, a literatura infanto-juvenil teve inicialmente um objetivo moralista e didático. Naquela época, o conceito de criança era bem diferente do de hoje. Os guris não passavam de pequenos adultos, que deveriam ser preparados para se tornarem homenzinhos. As meninas estavam em desvantagem no processo de aprendizagem, porque deveriam ser preparadas para qualquer fim que não fosse o intelectual. O certo era se casar e ser uma boa mãe.

Hoje, o estigma de literatura “feita para educar” ainda assombra, e muitas pessoas enxergam nela um mero caráter educativo. Autor e ilustrador de livros infantis, Roger Mello diz que a literatura pode ser aplicada, mas ter função não é a sua finalidade:

– Nossa sociedade é pragmática demais. A arte vem causar a dispersão.

No Brasil, os primeiros livros produzidos especialmente para crianças chegaram no início do século 20, com Monteiro Lobato e as histórias que deram origem ao Sítio do Pica-Pau Amarelo (1921). Apesar do conservadorismo e dos preconceitos apontados hoje em sua obra, Lobato criou novidades transgressoras para a época, uma miscelânea de personagens nunca vistos: uma casa chefiada por uma mulher idosa (Dona Benta), uma boneca que fala tudo que lhe vem à cabeça (Emília) e uma casa cujo compartimento mais importante é uma biblioteca.

O que eles leem

Pesquisa realizada na Universidade de Brasília (UnB) analisou os livros adotados nas escolas públicas por meio do Programa Nacional Biblioteca na Escola, do MEC. O estudo aponta que a literatura infanto-juvenil ainda é lugar de muitos preconceitos, principalmente de gênero e raça. No entanto, a pesquisadora Leda Cláudia da Silva adverte que muitas obras propiciam às crianças uma proximidade com o mundo real. No total de 300 obras analisadas, o campeão em número de livros adotados é o autor Monteiro Lobato, com 10 títulos. Em segundo lugar, vem Roger Mello (com 11 livros ilustrados e sete de sua autoria). O programa governamental ganha pontos quando se percebe a diversidade de assuntos, autores e temas tratados. A escola também tem valorizado a produção que prima por outras linguagens, como o quadrinhos.

Estantezinha
Selecionamos alguns livros que recheiam as prateleiras das livrarias de hoje. Nacionais ou estrangeiros, todos têm uma mensagem a passar – a de que história para criança é coisa séria.

O HOMEM QUE AMAVA CAIXAS
de Stephen Michael King
É um dos muitos títulos publicados pelo escritor e ilustrador que vive em Sidney. Aos nove anos, King ficou parcialmente surdo e foi daí que o desenho e a pintura ganharam outra conotação em sua vida. A maioria dos seus livros aborda a questão da aceitação das diferenças e os sentimentos humanos.

AMANHECER ESMERALDA
de Ferréz
O livro conta a história de Manhã, uma menina negra, moradora de uma favela. O principal drama dela está na aceitação de sua cor e de seu cabelo. Com um texto simples e belas ilustrações, o livro fala sobre a superação da menina e a mudança não só de sua vida, mas também de toda a comunidade.

ONDE VIVEM OS MONSTROS
de Maurice Sendak
Max é um menino levado, que se fantasia de monstro e é colocado de castigo pela mãe. No mundo da fantasia infantil, cresce uma floresta no quarto de Max. Ele é levado à terra dos monstros, por meio da qual o autor desconstrói a dicotomia bem e mal.

A VERDADEIRA HISTÓRIA DOS TRÊS PORQUINHOS
de Jon Scieszka
Quem disse que existe uma verdade, um ponto de vista, o bem e o mal, separados por um largo muro? O livro faz as crianças pensarem que tudo pode ser relativizado, dependendo de quem conta ou vive a experiência. A obra bem-humorada traz a versão dos fatos, segundo o Lobo Mau.

CARVOEIRINHOS
de Roger Mello
Conta a história de um marimbondo curioso por saber o que dois meninos fazem em casa, perto do fogo. A temática grave é suavizada pelo delicado traço de Mello, para quem o elemento narrativo não está nas palavras. Com ilustrações e texto de sua autoria, repete o tom de denúncia de outra obra sua, Meninos do mangue.

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