O doce fazer nada: momentos de total inatividade podem ser produtivos?

Os membros do clube de nadismo têm certeza que sim

Consultor criativo Marcelo Bohrer fala sobre a doutrina
Consultor criativo Marcelo Bohrer fala sobre a doutrina Foto: Divulgação

No início deste ano, um site fez sucesso entre aqueles que dependem da internet para trabalhar. Com uma proposta inusitada, o donothingfor2minutes.com sugeria ao usuário permanecer dois minutos fazendo absolutamente nada. Na tela, uma paisagem marítima ajudava a propiciar o clima necessário para que o pequeno espaço de tempo passasse calmamente.

? Apenas relaxe e escute as ondas. Não toque no teclado ou no mouse”, avisava.

A proposta se revelou árdua: nem mesmo o tom desafiador foi suficiente para que as pessoas conseguissem parar por 120 segundos. A página caminhou rapidamente para o esquecimento. Mas permanece seu mérito de ter mostrado como é conturbada a relação do ser humano com o tempo. E como ainda há muita gente colocando a vida profissional à frente do próprio corpo. Era dessa forma que vivia o consultor criativo Marcelo Bohrer. Seus trabalhos como designer o fizeram entrar em um ciclo vicioso no qual as 24 horas do dia eram insuficientes.

Com o trabalho incessante, veio a conta.

? Meu ritmo de vida estressante acabou me levando a um colapso físico e mental ? lembra.

Ele desenvolveu síndrome de Burnout, um distúrbio psíquico que é precedido por esgotamento e tem relação íntima com a vida profissional do indivíduo. Contudo, em vez de selar a vida em cartelas de medicamentos para controlar a ansiedade, Marcelo desenvolveu uma prática que tem como grande meta o não fazer: o nadismo. O mentor explica que tudo se resume à valorização dos momentos de quietude.

? Não é um conceito filosófico e sim um convite à prática. Como o tempo livre para se fazer nada é algo muito raro, a proposta é que se escolha fazer nada de propósito, permitindo-se desfrutar desse tempo sem culpa ? explica.

Muitos se identificaram com a proposta – já existem quase 7 mil adeptos no país, contabiliza Marcelo. Em Porto Alegre (RS), sua cidade natal, são bastante comuns os encontros do clube de nadismo, devotados exclusivamente à inatividade.

Sem churrasco, cerveja ou música, os participantes se colocam em posições confortáveis e se dão minutos de inação.

? Fazer nada é fazer nada ? ensina Marcelo.

Só que não é preciso estar em grupo para aproveitar momentos de nadismo. Apesar de ainda pouco difundida em Brasília, a prática tem seus seguidores por aqui, que comprovam que um bom tempo para o nada alivia muito o estresse diário.

? Eu brinco muito porque as pessoas não acreditam. ‘O que você está fazendo?’, perguntam. E eu respondo: ‘Nada’. E muitas ainda dizem depois: ‘Mas você não pode fazer nada’. Posso sim ? afirma a consultora de imagem Rosanna Tarsitano, 41 anos.

Após conhecer o nadismo, ela entendeu que aqueles momentos que se dava durante o dia eram decisivos para que suas várias tarefas não a fizessem perder o juízo.

? O nadismo me mostrou o bom de ficar parado sem fazer nada. É um momento de contemplação e ele exige que você não faça nenhum esforço.

Ela, que conheceu Marcelo durante um compromisso profissional, acredita que o nadismo ainda sofre muito preconceito.

? As pessoas sentem culpa por acharem que estão perdendo tempo, por acreditarem que sempre têm coisas demais para fazer, por terem que trabalhar. Só que elas precisam se dar essa pausa.

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