O fascínio das mulheres pelos sapatos

Resposta para a paixão pode estar na função democrática do acessório, que veste bem todas as silhuetas

Cena do filme
Cena do filme Foto: Disney, divulgação

Os homens se esforçam para entender, já que o guarda-roupa deles comporta apenas um par de tênis, um sapato social, um chinelo de dedo e… vá lá, uma bota. Por mais que as mulheres tentem, não conseguem explicar a eles por que três escarpins, quatro botas, cinco sandálias, duas sapatilhas, quatro rasteirinhas, dois tênis e um mocassim (isso nos casos mais econômicos) podem causar tanto espanto. O fascínio feminino por sapatos sempre foi (e sempre será) algo enigmático. Cinderela que o diga. Para o designer brasileiro Fernando Pires, a personagem de conto de fadas é a maior culpada por essa obsessão.

– Desde criança, as mulheres descobrem que, junto com o sapatinho de cristal e o salto alto, vem um príncipe encantado e um castelo – brinca Pires.

Para o gaúcho Maurício Medeiros, que calça famosas de todo o mundo e teve seus sapatos exibidos em episódios do seriado Sex and the City, é na infância que essa paixão nasce.

– As mulheres têm em sua essência uma matriz de feminilidade que o sapato representa. Desde os dois, três anos de idade, quando calçam os saltos da mãe, pensam inconscientemente serem mais mulheres por causa disso – reflete.

O argumento da jornalista Paola Jacobbi, jornalista da revista Vanity Fair italiana e autora do livro Eu Quero Aquele Sapato!, é menos fantasioso.

– O calçado é democrático, não põe em discussão o corpo. Calçam as gordas, magras, feias ou bonitas, supermodelos ou meras mortais. Você pode se encaixar em qualquer padrão e ter o sapato que bem entender – analisa.

A predileção feminina por sapatos, independente do modelo, atinge da mais fashionista à mais desapegada das mulheres. No Brasil, a média de sapatos nos closets femininos é alta. A pesquisadora Vanessa Tobias, da Universidade do Estado de Santa Catarina, fez um estudo com 448 mulheres de diferentes faixas etárias e classes sociais. Descobriu que cada uma tem em média 34 pares de sapato. A Azaleia encomendou pesquisa semelhante ao instituto Ipsos Marplan. Ela aponta que cada brasileira possui em média 11,8 pares de sapatos, sem levar em conta os chinelos e as sandálias de borracha. A comparação entre as duas pesquisas sugere que mulheres do Sul do país costumam ter um closet mais recheado, até mesmo em função do clima. Dificilmente, uma moradora do Nordeste se preocuparia com botas e outros sapatos fechados.

Há quem faça do amor o seu próprio negócio. A atriz gaúcha Angelita Feijó, acostumada a abarrotar o armário de calçados, lançou há um mês sua própria coleção. São 40 modelos.

– Sempre fui doida por sapatos – admite. – Desde criança, fico olhando para os pés das pessoas. É até chato, mas não há melhor maneira de conhecer o bom (ou o mau) gosto de alguém. Já deixei de sair com um homem porque ele calçava sapatos horrorosos.

Com todo o conhecimento que uma “adoradora de sapatos” acumula durante a vida, Angelita desenvolveu uma coleção elegante, que já vendeu metade do estoque.

Celebridades desenhando sapatos é um fenômeno que reflete a tendência atual. Há algumas temporadas, eram os cosméticos os alvos mais estimados das famosas com inclinações empresariais. Atualmente, a indústria da moda está com os olhos tão voltados para os pés que os sapateiros de luxo dividem o hall da fama com os grandes estilistas de alta-costura

Os designers

Manolo Blahnik – O mundo passou a conhecer o estilista espanhol graças à paixão que Carrie Bradshaw, personagem de Sex and the City, declarava, episódio sim e outro também, às criações do designer. Mas faz muito mais tempo que as estrelas se derretem por ele. Bianca Jagger chegou ao Studio 54 montada em um cavalo e calçando uma criação sua. Madonna já declarou que “um par de Manolos é melhor que sexo, e ainda duram mais”. O artesão faz questão de acompanhar todo o processo de fabricação de suas peças e tem apenas duas lojas: uma em Londres e outra em Nova York.

Christian Louboutin – O solado vermelho anuncia que as peças têm assinatura do francês Louboutin, principalmente se tiverem saltos com mais de 12cm. Preferido de celebridades fashionistas como Nicole Richie, Dita Von Teese e Katie Holmes (que já mandou fazer sapatos sob medida para a filha, Suri, de três anos), Louboutin é o mais “in”. Mistura cores fortes e utiliza aplicações imponentes, como flores de pétalas de seda e plumas. O preço do glamour é alto: R$ 3 mil cada par. No último mês, o shoemaker abriu sua primeira loja brasileira, no Iguatemi de São Paulo, com uma vantagem única no mundo: sapatos parcelados em até três vezes.

Jimmy Choo – O designer chinês nascido na Malásia vem de uma família de sapateiros, mas viu sua marca virar artigo de luxo depois que se associou a Tamara Mellon, editora de acessórios da Vogue britânica, em 1996. A ideia de criar peças exclusivas para as hollywoodianas pisarem nos tapetes vermelhos foi o seu pulo do gato. Bastou as atrizes Angelina Jolie, Cate Blanchett e Halle Berry desfilarem seus pares por ai para que a marca virasse hit. Jimmy Choo é famoso por suas sandálias de tiras e pelas estampas, sobretudo as de animais. 

Maior (e mais maluca) colecionadora 

Imelda Marcos, ex-primeira-dama das Filipinas, é considerada a maior colecionadora de sapatos e a mais famosa apaixonada por esse acessório da História. A viúva do ex-ditador Ferdinand Marcos chegou a inaugurar um museu dedicado aos próprios calçados, na cidade de Manilla, há oito anos. Na época, declarou que a exibição era um símbolo do “espírito e da cultura” do povo filipino. Muitos dos pares lá expostos foram resgatados do palácio presidencial depois que Imelda e seu marido fugiram do país, em 1986, derrubados durante uma revolta popular. A oposição tomou o palácio e encontrou, no imenso closet da ex-miss Filipinas, 3 mil pares de sapatos, muitos dos quais nunca haviam sido usados. No “modesto” guarda- roupa, ainda tinha cerca de 500 sutiãs e uma enorme variedade de outras peças de vestuário. Em 2006, Imelda lançou sua própria grife. Curiosamente, a Coleção Imelda não incluía sapatos, mas sim joias e acessórios. Pesquisa: Carolina Tavaniello

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