O mundo Santoro

Com agenda cheia, ator filma ao lado de Nicole Kidman e Clive Owen, em Hemingway & Gellhorn

Rodrigo Santoro prepara novos voos para os próximos anos
Rodrigo Santoro prepara novos voos para os próximos anos Foto: Dulce Helfer

“Se eu for pensar em bilheteria, vou fazer umas comédias”, diz o ator Rodrigo Santoro, ao arriscar um rumo para a carreira, multiplicada em nervuras, justo no momento em que divulga o primeiro trabalho de um amplo ciclo a chegar às telas: na animação Rio, ele dá voz ao ornitólogo Túlio. Emplacado em mais de mil salas do país (quase metade do total), Rio aponta para a versatilidade do ator que capricha na dicção, para versões em português e inglês.

De caráter simples, o astro não se vangloria, ao falar, para o Correio, das experiências profissionais no exterior, levantadas depois de três anos. “Não fui um dia para fora falando: ‘Olha, eu vou, tô a fim de tentar uma carreira fora’. Ao contrário. Tivemos filmes mostrados na Europa e nos Estados Unidos, e as coisas começaram a chegar. Resisti bastante, porque estava num período ótimo para mim. Tinha até receio de ficar longe. Além dos fortes laços com a minha família, sentia muita falta do Brasil”, comenta.

Uma atual temporada em San Francisco reforça as saudades, já que ele está filmando Hemingway & Gellhorn, ao lado de Nicole Kidman e Clive Owen. Sob o comando de Philip Kaufman (de Henry & June ? Delírios eróticos), Santoro interpreta o espanhol Zarra, amigo do escritor e pintor John dos Passos (David Strathairn). O projeto do longa é para a HBO americana e cerca episódios que levaram Ernest Hemingway a escrever Por quem os sinos dobram, sob inspiração do romance mantido com a correspondente de guerra Martha Gellhorn.

A expectativa de promover o lançamento de cinco filmes até o fim do ano é outro dado vitorioso para o fluminense Rodrigo Santoro, atrelado a uma espécie de renascimento para o cinema brasileiro, nos anos 2000. “Os filmes tinham uma fama muito ruim, né? As pessoas falavam que o som não funcionava, que a qualidade era ruim. E o Bicho de sete cabeças veio nesse momento, e veio com força”, relembra. Na época da estreia, com 25 anos de idade, ele conta que não buscava autoafirmação, “estava atrás da oportunidade surreal de fazer cinema, um sonho antigo e um luxo”. Daí a surpresa do prêmio como melhor ator no Festival de Brasília, pelo filme de Laís Bodanzky, num episódio que rendeu “um megacarinho” pela capital. Na exibição da fita, a reação ao grito “bem alto” de uma fã “mais exaltada”, puxou até vaias para o ator, mas ele fixou mesmo foi o fato de o filme ter sido valorizado “pela essência”.

Sem espaço para erro, ele diz que a diretora “contava negativo”. “A equipe trabalhava ali com uma paixão, uma raça, uma entrega… Foi onde eu me emocionei trabalhando e fora do set”, comenta. Nem o intenso reconhecimento com o filme suscita a plenitude do ator. “Acho que nunca me sinto inteiro: tô sempre buscando, em processo, sempre explorando. Então, a palavra inteiro, ela não casa”, avalia.

Filmagem

O termo envolvimento, porém, é mais do que adequado, no terreno profissional. “Heleno é um filme que vai sair no segundo semestre, com a história do jogador Heleno de Freitas. Foi uma filmagem longa pra caramba: muitos meses foram dedicados. Enfim, é um projeto que eu estou produzindo também e é muito importante para mim. Por dez meses, no último ano, fiquei no Brasil, pela opção de fazê-lo”, explica, ao falar do filme comandado por José Henrique Fonseca. Temperamental e boêmia, a figura central, no filme com Alinne Moraes, é a do jogador do Botafogo e do Boca Juniors, morto antes mesmo de completar 40 anos.

Relacionado à morte, Meu país, filme de André Ristum (do documentário Tempo de resistência) é um drama de família também próximo a ser lançado. “Ele vem nos moldes do Não por acaso, que foi bacana e poderia ter sido mais assistido. Aliás, tenho vontade de dialogar mais com o público. Não é implantar o ‘vou sair (para o cinema) para pensar. Não é isso’. Meu país é um filme que fala sobre relações, sobre a família, superbonito, tem um elenco legal, com a Débora Falabella, o Cauã Reymond e o Paulo José, que faz meu pai. Ele traz várias coisas que eu acho que, se o espectador olhasse, mais atento, falaria assim: ‘Caramba! Esse filme pode ser legal'”, comenta. A história do advogado Marcos, que sai de Roma para acompanhar o pai, vítima de derrame, promete testar a disposição do público. “Eu acho que, às vezes, o cara fica com preguiça, não tem a certeza de que vai se divertir. Não sei exatamente o que é, mas a vontade é que a gente conseguisse pelo menos equilibrar as coisas, com relação ao interesse pelas comédias e pelo 3D”, opina.

Mais exílio

A escolha por histórias que, de alguma forma, o estimulem é um lema para o calejado ator, incapaz de ver “fórmula exata” para o sucesso. “Pela experiência que tenho, no mundo inteiro, milhares de fatores têm que dar certo para um filme acontecer”, diz o intérprete visto em filmes como Em Roma, na primavera e Simplesmente amor. A projeção internacional será reforçada, ainda neste semestre, com There be dragons. “Um filme dirigido pelo Roland Joffé, o cara que fez A missão e Os gritos do silêncio. Foi superbacana: é um longa sobre a guerra civil espanhola”, adianta. Na pele de um líder militar na trama, Santoro é pivô para reviravolta nos amores da personagem de Olga Kurylenko (007 ? Quantum of solace), na fita detida no alternativo destino de Josemaría Escrivá de Balaguer (formulador dos preceitos do grupo Opus Dei). No enredo de redenção e segredos, o elenco inclui Wes Bentley (Beleza americana) e Derek Jacobi (Henrique V).

Outra ameaça de guerra civil ? desta vez, no Brasil ? está pontilhada em Reis e ratos, comédia que marca a parceria com o diretor Mauro Lima (Meu nome não é Johnny) e o reencontro nas telas com Cauã Reymond. A sinopse se firma num agente da CIA que, às portas da crise política, com o golpe militar, nos anos de 1960, se apaixona pelo Rio de Janeiro e reluta em regressar para os Estados Unidos. “É uma brincadeira que eu, Selton Mello e Otávio Müller fizemos. Um filme de galera, rodado em 17 dias. Um experimento em preto e branco, numa viagem bem bacana”, diz.

Reis e ratos, num esquema alternativo, de certo modo, confirma a tese de Rodrigo Santoro de que “é preciso que haja realmente espaço para tudo, sem monopólios”. “É reducionista você ficar pensando ‘não, quando for para o cinema, tem que ser algo cultural'”, explica. Com tanta diversidade, o ator só lamenta que haja um monte de “coisa bacana sendo feita e que, às vezes, as pessoas não assistem”. “Eu fico pensando: ‘Pô! Será que eu tô escolhendo filmes muito independentes?’ Ninguém viu, é muito duro, cara. Você olha para mim, você acha que, no cinema, eu sou bem-sucedido? Depende do ângulo. Eu tenho um filme que deu uma bela bilheteria: Carandiru. O 300 também. O Bicho de sete cabeças, na proporção dele, foi um sucesso. Fiz filmes menores, mas dos quais gosto muito”, conclui, com a peculiar simplicidade.

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