O que nos maravilha em Alice?

Nem toda obra se conecta ao público só por parecer maluca; Lewis Carroll conseguiu a proeza

A atriz australiana Mia Wasikowska vive Alice aos 19 anos na fábula ambientada no universo gótico e surreal comum aos filmes do diretor Tim Burton
A atriz australiana Mia Wasikowska vive Alice aos 19 anos na fábula ambientada no universo gótico e surreal comum aos filmes do diretor Tim Burton Foto: Divulgação

Alice, seu País das Maravilhas e suas aventuras Através do Espelho seguem angariando legiões de fãs e estudiosos. Eles encontram em suas linhas todo tipo de sabedoria e maluquice: desde complexos enigmas matemáticos até não menos cabeludas patologias psíquicas. Discutem-se essas inferências praticamente desde sua publicação, em 1865. Inútil colocar mais lenha nessa fogueira, que deve ser deixada aos cuidados dos ativos membros das diferentes Lewis Carroll Society distribuídos ao redor do mundo. A pergunta que nos colocamos aqui é bem mais simples do que as que inquietam esses nobres estudiosos: o que faz essa personagem ser tão marcante para tantos e por tanto tempo?

A resposta é também direta e simples: Lewis Carroll gostava de exercitar-se na lógica infantil e soube descrevê-la de forma que adultos e crianças se sentissem tocados por ela. Além disso, as aventuras de Alice são oníricas, o autor soube respeitar as regras de construção dos sonhos e também por isso nossa empatia com essa história forte, afinal visitamos a cada noite o mundo maravilhoso dos sonhos. Nosso cérebro não desliga nunca, ele aproveita o repouso para reacomodar os restos do dia, equilibrar as tensões, e alucinar soluções para as pendências no resolvidas. O resultado disso são nossos sonhos e pesadelos. Dependendo da conexão que temos com o inconsciente, podemos lembrar mais ou menos deles, mas todos sonhamos.

As obras que relatam universos surrealistas podem parecer uma barafunda aleatória de alucinações sem sentido, mas não o são. Prova disso é que nem toda obra, apenas por parecer maluca, consegue se comunicar com o público. Reconhecemos por intuição aquelas que realmente fazem eco em nossas próprias produções oníricas, respeitam sua lógica. Estas demonstram conhecer nossos segredos, e Carroll conseguiu essa proeza.

Boa parte da graça da infância provém do jeito canhoto e literal através do qual as crianças interpretam o que se diz e o que se faz. Somos todos loucos aqui, dizia o Gato de Cheshire e nenhuma criança discordaria disso. As cenas sociais podem parecer bem estranhas, indecifráveis aos recém- chegados. Focada com a lente infantil, a vida dos adultos parece como a do Coelho Branco, que corre atrás de objetivos insignificantes, a mando de uma rainha enlouquecida; ou a do Chapeleiro Maluco, que vivia condenado a um eterno chá da tarde; ou ainda como as Rainhas esbaforidas que percorriam seu mundo de tabuleiro com a mesma pressa fútil do Coelho. São as determinações inconscientes que regram a lógica dos sonhos, as mesmas que influenciam nossas escolhas, medos, preconceitos, inibições, compulsões e desejos.

O mundo gira e gira rápido, mas para onde mesmo vamos? Resta aos pequenos serem arrastados na correria maluca dos grandes. Embora crescidos, no fundo sentimo-nos como eles, sem controle sobre nossa origem e destino. Mas as crianças são mais destemidas e curiosas, elas não se angustiam tanto com a experiência de desconhecimento e pouco controle.

Carroll apreciava charadas e jogos de palavras, brincar com múltiplas interpretações de uma palavra fácil para aqueles que estão se familiarizando com a linguagem e costumes do planeta dos adultos. Enquanto artista e matemático, ele usava a lógica do pensamento infantil como se fosse uma língua arcaica que nunca esquecera de falar. Os sonhos são o último reduto da liberdade de jogar com as convenções, com as palavras, desrespeitar a razão e as leis da física, por isso, somente quando sonhamos, somos capazes de reviver algo da condição infantil.

Maravilhosas são as histórias que nos permitem sonhar acordados, assim como nos possibilitam resgatar a lógica da infância e dos sonhos. Graças a elas podemos percorrer lugares fantásticos, sejam eles lindos ou assustadores, sem medo de enlouquecer de verdade ou de perder as rédeas da nossa vida.

No final da sua viagem pelo País das Maravilhas, Alice acordou, contou seu estranho sonho à irmã mais velha, em cujo colo adormecera, e saiu correndo. Acabou deixando suas aventuras em seu lugar e através delas a irmã começou também a sonhar. Carroll, como essa irmã, que sonha maravilhas graças à imaginação das crianças com quem teve o privilégio de privar; ou como o Gato de Cheshire, que compartilha com Alice a percepção de que este mundo é que é mesmo maluco. Ele nos contou as aventuras de Alice, saiu e nos deixou aqui sonhando acordados.

* Psicanalistas, autores de Fadas no Divã – Psicanálise nas Histórias Infantis (Artmed, 2005)

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna