O tempo certo para a licença

Mulheres podem ganhar mais tempo para cuidar do recém-nascido sem prejudicar a carreira

Patrícia não teme perdas profissionais com o afastamento temporário
Patrícia não teme perdas profissionais com o afastamento temporário Foto: Emilio Pedroso

Meio ano pode ser muito tempo para ficar afastado das atividades profissionais, mas este é apontado como o tempo mínimo para que a mãe amamente o filho recém-nascido. A ampliação do período da licença-maternidade de quatro para seis meses, proposta este mês, depende da sanção presidencial e da adesão das empresas, mas já faz profissionais refletirem sobre a carreira e as empresas sobre como gerenciar a questão.

Especialistas em gestão de carreiras e mulheres que passaram pela maternidade comemoram o avanço. Garantem que não serão seis meses que colocarão um ponto final em carreiras promissoras. Assistente administrativa de uma empresa de fertilizantes, Patrícia Conill, 31 anos, está na 39ª semana de gravidez, e gostaria de ficar com o filho mais do que quatro meses. Ela se diz segura em relação ao afastamento temporário do cargo que ocupa.

Sentimentos mistos

– Alguém me substituirá durante os quatro meses que estarei ausente, mas não tenho medo de perder espaço – diz, sem hesitar, a futura mãe.

Depois da licença, o retorno pode deixar um misto de sentimentos, como ocorreu com Renata Schuler, 27 anos, que entrou em licença dias antes do nascimento de Giovanna e voltou a dar aulas quando ela tinha apenas três meses e 15 dias. Para não deixar de amamentar, a sogra leva o bebê até o colégio onde ela é professora.

– Em licença, ficava ansiosa para voltar logo e me sentir produtiva, mas nos primeiros dias tive momentos de dúvidas e não sabia se estava agindo corretamente – diz Renata.

O assunto não é unanimidade nem de um lado, o da profissional, e nem do outro, o da empresa. Existem mães que acham quatro meses suficientes. Assim como há empresas que já concedem seis meses de licença-maternidade. Diretor executivo da Produtive Outplacement e Planejamento de Carreira, Rafael Souto defende que mulheres com a carreira estabilizada e histórico favorável no cargo retomam a profissão sem problemas.

– Quanto maior é a qualidade e o nível da profissional, menor o impacto – assegura Souto.

O lado da empresa

Presidente da Central Única dos Trabalhadores no Estado, Celso Woyciechowski, acredita que as empresas, sobretudo as de grande porte, terão interesse em ampliar a licença como estratégias de responsabilidade social e imagem corporativa.

Entre as pequenas e médias, porém, pode haver resistência, diz Luiza de Paula, diretora de RH da Gelre, empresa de recrutamento e seleção. Com o tempo, a lei facultativa pode passar a ser obrigatória, acredita a executiva:

– Por ter uma estrutura mais enxuta, provavelmente o microempresário terá de deslocar trabalhadores de suas funções ou abrir vagas temporárias, o que aumenta os gastos.

Sem prejuízos à carreira

Conciliar os papéis de profissional eficiente e mãe dedicada é um desafio para as mulheres que decidem ter um filho, sobretudo logo após o nascimento. E é este um dos motivos que levaram a Câmara dos Deputados a aprovar, no dia 13 de agosto, o projeto de lei proposto pela senadora Patrícia Saboya (PDT/CE) que pretende estender a licença-maternidade de quatro para seis meses.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que a criança se alimente apenas com leite materno até, no mínimo, o sexto mês de vida. Entretanto, como a licença-maternidade atualmente é de quatro meses, há mulheres que param de amamentar logo que retornam à rotina de trabalho.

– Hoje, a maioria das mulheres já emenda a licença-maternidade com as férias, o que confirma a necessidade de mais tempo dedicado aos pequenos. O ideal seria que a mãe ficasse, pelo menos, um ano com a criança – diz o presidente da Central Única dos Trabalhadores no Estado (CUT/RS), Celso Woyciechowski.

Para o sindicalista, é natural que a nova medida gere polêmica, como ocorreu em 1988 quando a licença passou de três para quatro meses. A mudança gerou receio de que haveria mais discriminação na hora de contratar uma mulher. O que, felizmente, parece não ter ocorrido.

Em 1993, segundo o sindicalista, Porto Alegre tinha 755 mil homens trabalhando com carteira assinada e 499 mil mulheres. Em 2007, o número de empregos formais ocupados pelo sexo masculino aumentou 22%, enquanto o crescimento entre as mulheres que passaram a ter carteira assinada foi de 46,5%. Isso porque o mercado, naturalmente, tem se direcionado cada vez mais para as habilidades femininas, e Woyciechowski não crê que elas perderão o espaço conquistado. Mas o risco existe.

Janete Dias, especialista em gestão de carreiras, acredita que a preocupação em torno do projeto de lei é bastante pertinente.

– Corre-se o risco de as empresas adotarem a lei apenas para criar uma imagem favorável, mas, na hora da decisão, muitas vezes, o chefe não está preparado para conduzir a ausência da funcionária de uma forma tranqüila e eficiente – alerta a especialista.

Janete alerta, ainda, que mulheres com qualificação mais baixa podem ter dificuldade em receber o benefício de dois meses sem prejudicar a carreira porque, nesses casos, o que conta é a força produtiva.

– Para atividades simples e operacionais, a presença da pessoa no local de trabalho é fundamental. Já em cargos executivos é possível executar tarefas à distância, por meio da internet e teleconferências – lembra.

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