O tratamento da esperança: veja os avanços brasileiros de pesquisas de células-tronco

Cientistas acreditam que o uso terapêutico está mais próximo do que se imagina

Foto: Dulce Helfer

Dentro de laboratórios, diante de microscópios e culturas celulares invisíveis a olho nu, cientistas de todo o mundo tentam quebrar a patente divina da criação da vida. Não, eles não querem ser deuses e dar origem ao ser humano. Mas estão ávidos para descobrir como as células funcionam e como elas se transformam em cada órgão e pedacinho do corpo. Buscam desvendar o surgimento das doenças e encontrar uma maneira de freá-las ou de tratá-las.

Esse é o objetivo de um grupo numeroso de pesquisadores que se dedica a decifrar a essência das células-tronco (CTs). As conhecidas células-mães são capazes de se transformar em qualquer tecido humano. Com o domínio sobre elas, os médicos falam na tal terapia celular, que permitiria substituir as células defeituosas por outras novinhas em folha. Bastaria reprogramá-las e pronto: elas dariam origem a outras saudáveis. Teoricamente, isso abriria um leque de opções para a cura das mais diversas doenças, tornaria possível reverter danos surgidos no percurso da vida ou até interromper o envelhecimento. Será?

Quando se fala em células-tronco, mistura-se o fascínio do controle sobre a natureza, a esperança e as dúvidas. Apesar do engajamento do mundo científico, ainda será preciso testar o comportamento dessas células em laboratório antes de ser uma realidade terapêutica. Muitos resultados já foram obtidos em animais de pequeno porte e até em humanos, mas a maior parte dos testes ainda não pode ser estendido para a espécie humana, já que as células-tronco ainda não foram totalmente “domadas” e, em alguns casos, podem causar danos se injetadas no corpo.

No entanto, o uso terapêutico delas está mais próximo do que se imagina. Os especialistas falam em um prazo entre cinco e dez anos para que a terapia celular seja efetivamente aplicada em seres humanos e, assim, mude a vida de muita gente que sofre com doenças graves e sem cura. Até lá, pode-se dizer que as pesquisas estão cada vez mais avançadas ? em todas as áreas, inclusive com aplicações que já apontam resultados bem-sucedidos.

Confira um levantamento em laboratórios e universidades brasileiros para ter uma ideia do tamanho da promessa. A conclusão é que essas estruturas invisíveis serão usadas para tratar da calvície a problemas cardíacos. E o melhor: poderão acontecer em breve.

Para entender o funcionamento da célula-tronco de maneira simplificada, tente responder à seguinte pergunta: como é possível que um corte seja cicatrizado ou um osso regenerado? A resposta é que existem, em todos os 216 tecidos do corpo, células que podem se transformar, a qualquer momento, em outra com uma função específica. Assim, seria possível substituir uma célula com dano, desde que a célula-mãe fosse reprogramada com a orientação de corrigir o erro.

Dúvidas

O que ainda não se sabe explicar exatamente é o mecanismo que desencadeia a diferenciação dessa célula. O que faz com que ela se transforme em uma célula do sangue e não na de um músculo, por exemplo?

Outra questão que ainda está em aberto é como interromper tais modificações. Para injetar uma célula-tronco no organismo com o objetivo de que ela se transforme em um determinado tipo de célula, é necessário ter segurança do momento em que o processo será concluído. É preciso, então, desenvolver um sistema que faça com que a célula-tronco se incorpore à parte do corpo desejada e funcione como se fosse parte natural dela. Caso contrário, poderá se transformar em estruturas perigosas e se diferenciar em tumores.

A geneticista Lygia Veiga Pereira, chefe do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (Lance), é uma das profissionais brasileiras dedicadas a encontrar tais respostas. Ela foi a primeira cientista brasileira, em 2008, a conseguir multiplicar as célula-tronco retiradas de embriões congelados em clínicas de fertilização em São Paulo. Hoje, se dedica a pesquisar o funcionamento e a transformação do embrião.

? Queremos definir qual o comando do DNA dado para essa célula se especializar. Buscamos entender o complexo caminho em que genes são ligados e outros desligados ? diz.

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