Obra traça um retrato de mulheres de comunidades populares cariocas

No novo livro, psicoterapeuta Joana Novaes apresenta comparações de corpos femininos

Corpos em contraste são o tema de livro de pesquisadora
Corpos em contraste são o tema de livro de pesquisadora Foto: Reprodução

“Quando sou chamada de gostosa, já sei que é preciso fechar a boca”, disse certa vez a esguia apresentadora Adriane Galisteu. Em tempos em que a gordura tornou-se um vilão nas estatísticas de saúde pública e no imaginário coletivo, a máxima vale para muitas mulheres para quem não há beleza nem prazer sem ser magra e sarada. Mas não para todas.

O novo livro da psicoterapeuta e pesquisadora carioca Joana de Vilhena Novaes, Com que Corpo Eu Vou? (PUC-Rio/Pallas), apresenta mulheres que não apenas consideram “gostosa” um elogio, como não descartam o epíteto de mulher-filé, de curvas e carnes fartas. Depois de pesquisar como mulheres de classes média e alta carioca lidavam com o próprio corpo, a autora de O Intolerável Peso da Feiura e coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-Rio fez uma incursão por comunidades populares e se defrontou com outro padrão estético.

Entre vielas sinuosas e academias improvisadas na laje, a ditadura da magreza também ecoa, mas com reflexos diferentes. Ainda que busquem manter a forma, as mulheres que circulam nesse universo valorizam suas curvas e ? ao contrário das outras entrevistadas, com dinheiro para bancar tratamentos estéticos e dietas ? não consideram quilos extras motivo para esconder o corpo ou furtar-se ao prazer.

Donna – No passado, quilos a mais eram símbolo de fartura e opulência. Hoje, a magreza das mulheres de classes altas também distingue quem tem tempo e dinheiro para bancar dietas, tratamentos e exercícios físicos?
Joana de Vilhena Novaes – Sim. Apesar de o cuidado com o corpo ser uma obrigação, de fazer parte do que entendemos por hábitos de higiene, de disciplina, o corpo é visto como algo a ser vivenciado como prazeroso. A gente entende que, quanto mais alguém sobe na escala social, maior vai ser o tempo de que vai dispor para investir (nesses cuidados). Além disso, produtos light, spas, cremes são caros: então, por mais democráticas que essas práticas venham se tornando, essa realidade se impõe. Já o imaginário popular ainda traz a noção da gordura associada à prosperidade: a questão da privação, que é um valor máximo nas classes médias e altas, é vista com preconceito. Uma das mulheres de comunidades populares que entrevistei diz que, se comer pouco, o vizinho vai pensar que se está passando fome.

Donna – Como você destaca no livro, as mulheres das comunidades mais pobres não estão imunes à ditadura da magreza, apenas lidam de outra maneira com esse ideal de beleza. Como isso se dá na prática?
Joana – São os paradoxos contemporâneos: da mesma maneira que a obesidade viceja nas classes populares, também há um aumento dos transtornos alimentares que, historicamente, dentro da psiquiatria, eram associados às classes dominantes. Em um livro anterior, fiz grande parte da minha pesquisa em hospitais públicos e constatei filas de mulheres pobres que querem fazer lipo, lifting, colocar silicone. Ou seja: o desejo de reformatar a aparência e de lançar mão dessa série de práticas existe: elas saltam um ponto de ônibus antes para caminhar até em casa, improvisam exercícios na laje, usam tijolo como step. Não se trata de não entrar nas regras do jogo, mas, na falta das condições ideais, elas desenvolvem suas práticas de forma criativa.

Donna – De acordo com os depoimentos que você colheu nessas comunidades populares, mesmo as mulheres que gostariam de emagrecer não deixam de usar roupas provocantes, de ir à praia e ou de se julgarem atraentes por estarem acima do peso – ao contrário do que dizem as de classes altas. Mais do que os ideais de beleza, o que diferencia esses dois grupos seria a liberdade e o prazer com que lidam com o próprio corpo?
Joana – Sim esse é o maior contraste. Nas classes populares, a relação com o corpo aponta para uma liberdade muito maior. Mas não podemos cair no equívoco de pensar que, por conta disso, essas mulheres não têm vaidade ou percepção da gordura – elas têm. Contudo, têm uma visão muito mais crítica (desses ideais). Uma entrevistada diz que sabe o que precisaria comer para ficar magra, mas critica o médico (que aconselha a perder peso) dizendo que na cesta básica não vem queijo cottage nem verdura, mas fubá, farinha… Mas vemos mulheres acima do peso com short, top, roupas justíssimas, sensuais: o grande diferencial é que a representação da gordura não está associada à vergonha. A gordura e um corpo sexualizado não são excludentes.

Donna – Ao contrário do que você observou nas classes média e alta.
Joana – Na classe média, é comum as mulheres dizerem que o corpo gordo é passível de escárnio, é invisível, que leva ao exílio. Para as classes populares, a gordura não impede de exibir o corpo e de esse corpo ser apreciado. Enquanto a marca do discurso classe média sobre o cuidado com corpo é mais individualista, “para eu me sentir bem”, “para eu conseguir usar as roupas que quero”, as mulheres das classes populares dizem que é “para ouvir ‘gostosa'”, “para ‘pegar geral’ nos bailes funk”. Ao fazer a análise do discurso das mulheres de classe média, isso aparece nas entrelinhas, mas é algo constrangedor admitir a ideia do corpo colocado como objeto de desejo.

Donna – Uma entrevistada do livro diz: “Quando vejo mulher gorda se escondendo atrás daquele bando de pano, já sei que é rica”. O que lhe surpreendeu nas impressões de parte a parte: como as mulheres de camadas populares observam o jeito como as de classes média e alta lidam com o corpo e vice-versa?
Joana – O que me surpreendeu é as mulheres das comunidades apontarem o quão ridículo é e como não faz sentido quando se vai descendo na escala sócio-econômica essa ideia que viceja nas classes altas de que você deve disfarçar a gordura. O que a entrevistada está dizendo é: “Parece que se ela esconder a gordura vai deixar de ser gorda. É bem coisa de madame”. Elas têm uma outra relação, de assumir uma identidade gorda, que é o grande pavor das mulheres de classes médias e alta. Mas esse jogo de esconde e revela se dá em função da avaliação que você vai ter, que é muito dura e severa nas classes dominantes.

Donna – Se o ideal de beleza é construído a partir do contexto e do imaginário de cada época, é possível pensar que a magreza poderá deixar de ser o modelo dominante?
Joana – Não. Talvez num futuro distante, com ares de ficção científica (risos), em que a gente tome pílulas em vez de comida, e a questão da estética entre para segundo plano. Mas, enquanto você tiver uma indústria que movimenta bilhões, certamente haverá sujeitos insatisfeitos e angustiados consumindo. Contudo, podemos pensar na ideia não de um ideal estético padrão ou dominante, mas de vários ideais que convivam simultaneamente.

Silhuetas esguias
IDEAL DE BELEZA: mulheres magras e saradas, como a top Gisele Bündchen
FIGURINO: roupas curtas, decotadas e justas parecem privilégio de quem está em forma. Com quilos a mais, há quem deixe até mesmo de ir à praia para não ser vista de biquíni
CUIDADOS COM O CORPO: lançam mão do que o mercado oferece, desde academias, spas, tratamentos de beleza e cirurgias plásticas
ELOGIOS BEM-VINDOS: magra e sarada

Curvas à mostra
IDEAL DE BELEZA: mulheres de curvas fartas, de Juliana Paes e Ivete Sangalo a Mulher Melancia
FIGURINO: mesmo quem está acima do peso não deixa de usar roupas justas, curtas e decotadas nem de exibir suas formas na praia
CUIDADOS COM O CORPO: frequentam a academia na comunidade onde vivem ou, na falta de condições para isso, exercitam-se com pesos improvisados ou mesmo descendo uma parada antes para caminhar até em casa
ELOGIOS BEM-VINDOS: gostosa e filé

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