Onde foi parar o machão?

Aquele tipo de homem que não ajuda em casa, é dono do controle remoto e conta vantagens para os amigos é uma espécie em extinção

Na foto acima, um dos mais marcantes machões da carreira de José Mayer (na novela Laços de Família)
Na foto acima, um dos mais marcantes machões da carreira de José Mayer (na novela Laços de Família) Foto: Divulgação, TV Globo

Machões de todo o mundo, tremei. Ao que tudo indica, há cada vez menos espaço para o tipo que cospe no chão, bate no peito, conta vantagem para os amigos e deixa a mulher a sós com a louça suja e o tanque cheio.

Quem diz ? e comemora ? são mulheres satisfeitas com o novo sujeito que anda pela casa. No lugar de maridos esparramados na poltrona, mocinhos comportados e prestativos. Gostam da TV, mas dividem o controle remoto, para recorrer a um exemplo bem estereotipado. Estaria o tal macho de raiz com os dias contados?

Ao que tudo indica, sim. É mais fácil encontrar por aí pés de valsa, mestres-cucas e consumidores cativos de cosméticos do que a criatura que ainda exige ser servida por uma mulher estilo Amélia ? até porque essa aí também está em extinção.

? O modelo de masculinidade está mudando ? acredita Paulo Roberto Ceccarelli, psicólogo especialista em sexualidade e professor da Pontifícia Universidade Católica de Belo Horizonte. ? Antes, o homem tinha mais necessidade de provar o tempo inteiro que era macho, era uma constante construção. Hoje, o que se vê é que ele tem cada vez menos medo de perder a tal masculinidade.

Por essa lógica, se ele tem menos medo, incomoda-se menos também em realizar tarefas antes tidas como “de mulher”. Para o psicólogo, é como se o conhecido modelo do homem que não chora e que não entra na cozinha estivesse em crise.

? Mesmo que ele quisesse, ficaria difícil ser machão. Hoje tem lei que impede. Se ele bater na mulher, vai preso. Se não der prazer à mulher, ela pede o divórcio. Se divorciar, tem que dividir os bens ? exemplifica.

Antes de se atribuir toda a responsabilidade por esse novo homem às mulheres, há que se questionar se toda essa revolução comportamental não é resultado de uma outra, mais abrangente: a cultural e a tecnológica.

? A sociedade mudou muito e rapidamente. De repente, a família, que antes era o grande foco da organização social, ficou em segundo plano em prol do indivíduo ? explica o antropólogo Rui Murrieta, professor do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da Universidade de São Paulo.

Sem a configuração familiar original e na base do “cada um por si” e do “toma que o filho é teu”, os homens ficaram um pouco perdidos. Se o modelo dos pais e dos avôs, que eram os provedores da família, não serve mais, qual é o tipo de homem que vai se encaixar melhor a essa situação?

? Ninguém sabe ainda. Por causa dessa mudança muito rápida, eles vão buscando maneiras de se adaptar mesmo que não exista uma pressão seletiva pela sobrevivência ? ilustra Murrieta, remetendo à tese de seleção natural.

Ele lembra que, mesmo entre os animais, nem sempre o modelo do macho alfa, dominador, funciona.

? Há evidências de que muitas vezes o mais disputado pelas fêmeas é o conciliador. Nas sociedades humanas, onde a complexidade é maior, isso fica ainda mais evidente.

Os clássicos machos do cinema e da tevê

:: Clint Eastwood
O ator norte-americano ficou conhecido no passado pelos papéis de homens durões nos filmes de bangue-bangue. Um dos mais populares foi o do típico caubói que não recusa uma briga e é rápido no gatilho, mas também joga sujo e tem comportamento ambíguo _ ora mocinho, ora bandido. Harry, o sujo, personagem de Perseguidor Implacável, filme dos anos 1970, é provavelmente o mais conhecido. É um policial que faz justiça com as próprias mãos e tortura criminosos.

:: Pedro Mendes, da novela Laços de Família
Ele está longe de ter sido o único machão interpretado por José Mayer, mas foi um dos mais marcantes. O personagem de Laços de família, novela exibida pela Rede Globo entre 2000 e 2001, era o típico machista. Havia se envolvido com a prima Helena (Vera Fischer), depois conhece Alma (Marieta Severo), Cíntia (Helena Rinaldi), tem uma relação conturbada com a ninfeta Íris (Deborah Secco) e, por fim, tenta reconquistar Helena.

:: Capitão Nascimento, dos filmes Tropa de Elite
O policial interpretado por Wagner Moura ficou famoso pelo jeito agressivo de tratar colegas e bandidos nas ruas. Bordões como “O senhor é um fanfarrão!”, “Tá com medinho?” e “Pede para sair!” pegaram entre os fãs. O personagem virou até moda no Twitter com “fatos”, a exemplo do que aconteceu anteriormente com Chuck Norris e José Mayer. O ator chegou a dizer que ficou espantado com a popularidade de um personagem tão bruto quanto o interpretado por ele na fita.

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