Ontem sob o olhar de Hoje

Diretora Tata Amaral luta para finalizar filme sobre a ditadura

Denise Fraga interpreta Vera, protagonista de
Denise Fraga interpreta Vera, protagonista de Foto: Divulgação, Ding Musa

Tata Amaral é a primeira a reconhecer e sorrir:

? Meu set é muito chique.

E é verdade. O fotógrafo de cena acaba de ser selecionado para uma mostra paralela na Bienal de Veneza. Não representa pouca coisa, mas Ding Musa não é exceção. O fotógrafo Jacob Solitrenick, a diretora de arte Vera Hamburger, o elenco (Denise Fraga e o uruguaio César Troncoso, de O Banheiro do Papa), são muitos os talentos, a par da própria diretora, que prometem fazer de Hoje um acontecimento.

Tata terminou no último dia 29 as filmagens em São Paulo e partiu para Paulínia, onde venderia a ideia do filme para conseguir finalizá-lo em estúdio, porque ainda precisa de recursos. Quando a reportagem visitou o set, a cena parecia simples. Denise e Troncoso dialogam e, mais do que isso, brigam na cozinha do apartamento. Parece briga de casal, mas a diretora explica que a cena é essencial em Hoje. Acrescenta um dado e faz um pedido _ a reportagem não deve explicitar a natureza da cena sob pena de revelar a reviravolta da trama sobre o qual repousa o filme inteiro.

Tata Amaral dispensa apresentações. É das mais talentosas diretoras de sua geração. Filmes como Um Céu de Estrelas e Através da Janela estabeleceram sua reputação. O relativo fracasso de Antonia foi um acidente de percurso, e nem se pode falar de fracasso. O filme não foi bem de bilheteria, mas quem disse que esse é o único recurso de avaliação de uma produção? Antonia participou de festivais no país e Exterior, virou série de TV.

Agora, ela aborda os anos de chumbo. Hoje conta a história de Vera (Denise Fraga), que ganha indenização pelo desaparecimento do companheiro na ditadura militar e compra um apartamento. No dia em que está se mudando, o marido reaparece. Como lidar com essa nova situação? Não é só o ambiente, o apartamento, que é concentracionário. Os personagens também são reduzidos. Dois carregadores, que fazem a mudança, a síndica do prédio. Denise é Vera, mas Vera também é Ana Maria, um nome de guerra (durante a guerrilha). O marido é Luiz, mas também é Carlos. O confronto é intenso. A diretora explica:

? Hoje é um filme que contesta os limites do realismo no cinema. Até aqui, tenho filmado sempre em locações, e Hoje não foge à regra. Mas preciso dessas cenas em estúdio, que ainda pretendo filmar em Paulínia. Elas vão dar outra textura ao relator.
O cinema brasileiro tem feito muitos filmes sobre os anos de chumbo, mas os críticos e espectadores vão concordar que ainda falta o grande filme sobre o período _ algo como o argentino O Segredo dos Seus Olhos, vencedor do Oscar. Tata explica o diferencial de Hoje:

? Há filmes sobre a guerrilha e a repressão. Mas poucos, ou nenhum, abordam o tema que me proponho a enfocar aqui. Hoje é sobre os que calaram. José Genoino disse uma coisa interessante _ na prisão, muitos companheiros, ele inclusive, tiveram tempo de verbalizar o horror, e isso os preparou para retomar a vida. Os que silenciaram, como foi o seu retorno? É o drama, a tragédia de Vera, agravada pela volta de Luiz. O que significa essa volta? Um desejo da mulher? Uma punição?

Tata não trabalha sobre argumento original. O roteiro lhe foi sugerido por um texto de Fernando Bonassi. Ela conta que a história a atingiu como um raio.

? Numa cena, eu precisava de uma carta que o marido teria escrito para Vera. Saquei de uma carta que Sergei, o pai de Caru, escreveu para mim.

Sergei foi o primeiro marido de Tata, morto muito jovem. Caru, filha da diretora ? e agora integrante da equipe de produção ?, tinha 3 meses quando o pai morreu. O detalhe pode parecer insignificante, mas sintetiza o grau de envolvimento de Tata com o projeto: a história virou pessoal.

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