Os encontros de amigas são tradição entre as joinvilenses

Elas não têm mais idade para brincar de 'aqui menino não entra'. Mesmo assim, o gênero é requisito imprescindível para tornar-se uma integrante

Edeltrudes e Senitalya reúnem-se com frequência para tomarem café e conversarem
Edeltrudes e Senitalya reúnem-se com frequência para tomarem café e conversarem Foto: Maiara Bersch

A cada 15 dias, quando chega quarta-feira, Edeltrudes Geiser e Senitalya Mayler têm um compromisso fixo. Elas escolhem a roupa, arrumam o cabelo, fazem a maquiagem e se encontram na mesma mesa, no cantinho esquerdo da sala de chá da Delicatesse Viktoria. Edeltrudes e Senitalya têm 82 e 78 anos, respectivamente, e há mais de 50 anos mantêm esta reunião marcada na agenda.

Nem sempre foi em uma confeitaria e nem sempre foram apenas as duas. Durante muito tempo, elas sentaram à mesa ao lado de outras nove amigas que enchiam o ar com conversas e risos durante os encontros.

Mesmo que o tempo tenha levado algumas destas risadas embora, as duas amigas não se abateram. Decidiram continuar os Kränzchen, como na tradição alemã, ainda que o grupo tenha diminuído e a mesa que ocupavam tenha ficado muito grande.

? Antes, nós enchíamos a mesa ao lado. Éramos em 11, depois ficamos em nove ?, lembra Edeltrudes. Agora são duas, mas a amizade mantém a vontade de sair para se encontrar.

Quando começaram os encontros, Joinville era uma cidade diferente. Não havia tantas cafeterias e o costume era promover os encontros em casa, durante a tarde, quando os filhos estavam no colégio.

Era assim também para outras 11 amigas que contam com um pouco menos de tempo de reuniões: cerca de 45 anos.

Na hora de lembrar quem começou o grupo, elas elencam nomes que ainda estão presentes, outras que se foram ou que já não marcam mais presença, mas é difícil recordar exatamente o motivo que levou Sílvia, Rosevita, Elizabeth, Ilka, Helga, Neide, Rosvita, Edir, Rose, Magrit e Helene a formarem um grupo de amigas que dura tanto tempo.

? Uma era comadre da outra. Ou vizinha ou colega de trabalho… Ia chamando a outra para entrar no grupo e todas ficavam amigas ?, explica Helga Ferrari, presente desde o início.

? É uma grande fraternidade. A gente vive a vida da outra, sabe o que acontece, ajuda e discute juntas os problemas , completa ela. Nada disso, no entanto, é em tom de segredo: quando estão juntas, parece impossível evitar as brincadeiras que só a intimidade de décadas produz em um grupo. 


Encontro de amigas


Na última vez em que se encontraram, no apartamento de Flávia, o vizinho do andar de baixo reclamou para abaixarem o volume.

O detalhe é que o som não estava ligado: eram as potências vocais do grupo de amigas que estavam alteradas. Patricia, Ana Paula, Suélen, Daniela, Karinna, Júlia, Isabela, Andressa, Flávia e Rejane se encontram uma vez por mês, sempre às segundas-feiras, e mesmo que cada reunião seja prevista por um lote imenso de e-mails para o planejamento, o assunto acumulado resulta nestes momentos de sinfonia natural.

As amigas ? são dez atualmente ? têm entre 27 e 39 anos de idade e promovem os encontros do Grupo das Lulus desde 2008. Começaram como uma turma comum de solteiras que saía para festas e barzinhos, até o grupo começar a crescer.

? Éramos em quatro, e tinha ‘participações especiais’ às vezes que não permaneciam. Então decidimos que precisava ter uma definição para formar um grupo ?, afirma Patricia Hille, a responsável por organizar a turma desde o início.

Na mesma noite em que esta turma se encontrou para a reunião de abril, outro grupo de ‘Luluzinhas’ riscava na agenda o primeiro compromisso do ano, o 12º para elas. Juliana, Vivian, Isabella, Jerusa, Ana, Viviana e Josiani trabalhavam juntas e, quase sem sentir, foram criando um grupo em 2001.

? Cada uma trabalhava em um setor da empresa e o que reunia eram os aniversários, já que organizávamos festas em conjunto ?, recorda Josiani. Para não perder a amizade feita nos corredores quando começaram a deixar a empresa, elas organizaram os jantares, que não têm frequência garantida, nem lugar fixo.

? Às vezes, a gente combina, está tudo certo, mas não consegue se encontrar. Aí diz que vai ter na semana que vem e a semana que vem leva meses ?, conta Isabela Musse Puerta Lentz Baumann.

Jovens tardes

As tardes de Kränzchen eram o ‘momento social’ na vida das amigas que começaram a se encontrar nos anos 1960. As reuniões ocorriam em casa e a anfitriã preparava o café com doces e salgados feitos por ela. Elas levavam tricô e crochê para passarem o tempo enquanto conversavam.

? Eram momentos para compartilhar alegrias e tristezas ?, revela Rosevita Harger. Era também o momento para que aquelas mulheres, dedicadas à família e à casa, tivessem algumas horas de folga daquelas responsabilidades. Os filhos raramente participavam e os maridos só eram permitidos nos encontros de casais.

? A nossa geração cresceu para casar e criar filhos. Por isso, os encontros começavam cedo e terminavam cedo, porque tínhamos que buscar as crianças na escola ?, recorda Rosvita Mara Campos.

Hoje, os compromissos são outros e o lazer também. Elas têm mais tempo e menos preocupações do que na juventude, quando o grupo começou. Para se organizarem, no primeiro encontro do ano elas criam um cronograma que será seguido até o próximo verão e, se precisarem trocar as datas, começam uma rodada de telefonemas.

Cada uma delas é responsável por organizar um café por ano e elas também aproveitam estes momentos para organizar viagens e visitar amigas que moram longe. O resultado desta organização?

? Em vez de ficar em casa, na frente da TV, temos o compromisso de se arrumar para sair ou aprender novas receitas para servir às amigas. A gente vê como as pessoas que têm estes encontros são mais felizes, encaram a vida de outra forma ?, analisa a professora Elizabeth da Silva Cardoso.

Novos tempos

Até a produção desta reportagem, boa parte das integrantes dos grupos que se reúnem há décadas acreditava que estes encontros estavam no fim.

? Agora, as moças se formam e vão seguir uma profissão. Elas não têm mais as tardes livres, então podem, no máximo, se encontrar à noite ?, avalia Helene Vicktoria Aracheski. Elas não estavam totalmente enganadas.

Para conseguir se encontrar, o Grupo das Lulus marca para começar o jantar às 22 horas, quando todas estão livres das obrigações do trabalho, dos estudos e da família.

? No dia seguinte, na hora de trabalhar, quase bate um arrependimento. Mas aí a gente lembra das risadas da noite anterior e pensa que compensa tudo ?, afirma Ana Paula Fillipi.

Nos grupos mais jovens, geralmente os problemas ficam do lado de fora. Os dramas e aflições podem até ser discutidos no encontro, mas acabam sendo superados pelas piadas e brincadeiras.

? Não é o objetivo discutir os problemas, mas quando alguém tem um, pode desabafar aqui. Também pode rolar umas verdades que só elas podem dizer. É o tipo de conversa que a gente não pode ter com outra pessoa, como a mãe ou o marido ?, diz Vivian Spiess de Borba.

No encontros dos grupos ‘seniores’, o cardápio sempre foi bolo e café. As ‘Lulus’ e ‘Luluzinhas’ fazem jantares com vinho e champanhe para brindar a reunião.

? Deixamos de nos encontrar nos barzinhos porque ficava muito caro. Fazer os encontros em casa também foi uma tentativa de incentivar as meninas a aprender a cozinhar ?, conta Patricia.

Fazer cronograma anual de encontros também não dá certo. O jeito é mandar e-mails combinando a data ? só para decidirem se a reportagem da ‘+ Estilo’ podia participar de um encontro, as ‘Lulus’ trocaram pelo menos 50 mensagens em cinco dias.

Quando perguntadas sobre o que acham que as senhoras conversam nos encontros de amigas, as ‘Lulus’ e  ‘Luluzinhas’ ficam na dúvida.  Já o outro grupo tem a resposta na ponta da língua.

 ? Não deve ser muito diferente do que nós conversávamos nos encontros quando tínhamos a idade delas. Falam dos maridos, dos filhos, do trabalho. Tiram dúvidas, pedem conselhos. Na verdade, me dá uma peninha delas, porque agora já passamos por tudo isso e sabemos como a vida fica mais fácil ?, analisa Elizabeth.

 

Leia mais
Comente

Hot no Donna