Os óculos de grau se transformaram em acessórios modernos e charmosos

Eles superaram antigos clichês e a variedade de modelos conquistou até quem, antes, tinha vergonha de usá-los em público

A fotógrafa Alana tem quatro modelos de óculos para usar em diferentes ocasiões
A fotógrafa Alana tem quatro modelos de óculos para usar em diferentes ocasiões Foto: Cleber Gomes

Queridos quatro-olhos, oclinhos, Harry Potters, fundos de garrafa, nerds: chegou a hora da revanche. Foi-se o tempo em que usar óculos de grau era motivo de zoação na escola ou de vergonha na balada: agora, os modelos estão cheios de estilo e se tornaram um acessório a mais para incorporar ao visual.

Se isso tira um pouco o charme daquele orgulho CDF de quem cantava com Herbert Vianna compreendendo o que o protagonista da música sentia ao dizer que por trás dos óculos tinha um cara legal, garante que agora os míopes e outros portadores de problemas oftalmológicos não precisem mais tirar as armações do rosto para provar que não têm nada a ver com os personagens bobos que costumam usar óculos nos desenhos, filmes e séries de TV.

Grande parte desta mudança se deve à transformação destes acessórios, que foram incorporados às tendências fashionistas e atendem a todos os públicos.

? Hoje, as crianças gostam de usar óculos porque há modelos bonitos, com personagens. Na minha infância, eles eram muito feios ?, avalia a fotógrafa Alana Schwoelk, que levou a adolescência inteira para aceitar aquela peça que a fazia enxergar melhor, mas parecia estragar o visual ? hoje, ela não abre mão.

Os óculos de grau estão na vida de Alana desde os 12 anos, mas nem sempre eles estiveram no rosto dela. Durante pelo menos seis anos, os óculos – quadrados, de armação marrom – ficavam na mochila da escola, sem nunca prestarem seu serviço de fazê-la enxergar melhor o quadro-negro. A boa relação de Alana com os óculos só começou depois que, aos 18 anos, ela não passou no exame médico da autoescola.

? Eu dizia para o meu pai que usava os óculos em sala de aula, mas nem tirava da mochila. Era ele quem tinha comprado e parecia uns óculos de senhora. Sentia como se eu fosse doente e era obrigada a usá-los para corrigir isso ?, recorda a fotógrafa, agora com 29 anos.

Quando decidiu se assumir ‘quatro-olhos’, Alana viu que era possível fazer isso com estilo. Se na infância não havia muitas opções, agora ela contabiliza quatro pares bem diferentes, e faz questão de usá-los em todas as ocasiões. Até mesmo em festas e jantares, quando a maioria das míopes prefere desfilar sem interferências externas no rosto, ela se orgulha dos modelos que combinam com o evento e o figurino.

? Para mim, agora, é um acessório. Até tentei usar lentes de contato, mas não gostei. 

Para ela, muda o grau, mas os óculos ficam. Por isso, ela vai adaptando as armações às novas lentes e, assim, aumentando a coleção. Nem os óculos que foram ‘atropelados’ pelo carro dela foram deixados de lado: ela os tirou de debaixo da roda e os recuperou.

O que ficou daquela relação de inimizade com os óculos de grau foi o trauma de óticas. Por isso, ela costuma escolher butiques para comprar as armações estilosas. A preferida do momento é preta com detalhes em cor-de-rosa, com lentes grandes, que abre um bom campo de visão entre os limites do acetato – perfeito para a fotógrafa, que precisa enxergar tudo e nunca perder o foco.

? Esse modelo é o mais marcante, mas também é o que me deixa mais confortável. 

Vários óculos, vários estilos

A paixão de Maithê Pozes, 20 anos, pelos óculos começou antes mesmo de precisar usá-los por causa do astigmatismo, diagnosticado há dois anos. Até então, ela colecionava os modelos solares – tem 21 no total – sempre buscando um pouco mais de ousadia nas armações.

Quando ficou sabendo que teria que começar a usar também as lentes corretivas, o que sentiu foi muito mais uma pontinha de prazer do que a frustração que a maioria das pessoas tem ao serem informadas de que terão de usar óculos. Por isso, ela nem considerou, na época, tentar as lentes de contato: ela queria mesmo era fazer moda com o novo acessório.

? Desde o começo, comprei óculos que não tinham nada de discretos. Não queria ficar igual a todo mundo ?, conta Maithê.

Essa vontade de ser diferente refletiu nas pessoas que estavam à sua volta: na faculdade de direito, ela percebeu que as outras meninas que também usam óculos começaram a se sentir mais à vontade para aposentar os modelos tradicionais e acompanhá-la nas armações estilosas. No caso dela, pode ir de um modelo aviador dourado ao Ray-Ban azul-piscina, passando pelos redondinhos que, inevitavelmente, remetem aos de Harry Potter.

? Uso o dia inteiro e também quando saio para uma festa, um barzinho… Só não uso na balada porque tenho medo de estragar ?, afirma ela.

Apaixonada por moda, Maithê avalia que a compra dos óculos deve ser um momento de descoberta pessoal, e não de seguir regras que definem os tamanhos e formatos dos óculos pelo do rosto. Para isso, vale exercer a liberdade e aproveitar as diversas opções que os estilistas estão criando para estes acessórios.

? Não tem como ter um estilo. Pra mim, depende muito da roupa e do meu humor ?, analisa.

 

Questão de identificação

Se hoje são os fãs que se identificam com o estilo – e com os óculos – de Thedy Corrêa, o músico da banda Nenhum de Nós foi influenciado por um ídolo no universo musical.

? Um mito do rock brasileiro diz que eu era o cara que imitava o Buddy Holly, por causa do topete no cabelo e dos óculos. E não tinha nada a ver: meu negócio era com o Morrissey. Eu achava legal que os óculos que ele usava eram dados pelo governo inglês a qualquer operário que precisasse, e aí eu pensava: ‘Pô, se esse cara usa óculos, eu também vou usar, azar!’.

A orientação nas primeiras fotos de divulgação da banda era para que Thedy aparecesse sem óculos: Não combinava. Mas o vocalista preferiu enxergar adiante da cartilha do marketing.

? Não curto muito ficar trocando de óculos. Eu sempre tenho os óculos ‘da fase’, que compro e uso até gastar, e isso vai marcando.

Os fãs, especialmente, lembram de uma determinada turnê como ‘a turnê dos óculos redondos’, ‘a turnê dos óculos tais’. Depois de ter usado o modelo ‘John Lennon’ (redondinho e pequenininho, de aro metálico fino), além de outros, Thedy via-se voltando para um padrão que descobriu ser seu preferido: óculos de armação mais grossa e com desenho de aro mais clássico.

? O que não dá é para tirar os óculos. Tem gente que, se passar por mim na rua sem óculos, acha que não sou eu ?, conta.

Ele diz ser supercuidadoso com as armações e as lentes. Limpa direitinho e sempre sabe onde estão. Ou quase sempre. Um dos episódios mais engraçados envolvendo o par de óculos do vocalista ocorreu quando, durante um show no interior de Minas Gerais, por algum motivo, os óculos foram deixados em um canto do palco. Do show para a van, para o  aeroporto, para a gravação do ‘Domingão do Faustão’ – e aí Thedy se deu conta de estar cego.

? O Faustão perguntou: ‘Cadê os óculos?’, e eu falei que tinham roubado. Começamos uma campanha ‘Cadê os óculos do Thedy’. Aí, quando voltei, tinham entregue para o pessoal da equipe técnica. Parece que o pessoal do som achou, guardou e devolveu no outro dia.

Usando seu primeiro par multifocal (o astigmatismo há pouco somou-se à miopia), mas bem adaptado, o músico confessa ser daqueles ratinhos de ótica, principalmente em viagens.

? Mesmo achando que o mercado de óculos está bastante globalizado, sempre paro nas óticas, nem que seja para dar uma olhadinha. Nunca achei aquele par que me fez exclamar: ‘Ah, é esse!’ Acho que sou muito chato. Mas não perco as esperanças, não desisto nunca.

Do lado de lá do palco, os fãs que associam esse lado ‘intelectual’ ou até meio ‘nerd’ de Thedy aos óculos se identificam e até copiam o visual – precisando mudar de óculos quando o músico assim o faz. Quem sabe não nasce aí uma linha de óculos Thedy Corrêa?

? Já pensei nisso, mas a ideia nunca foi adiante. Quem sabe?

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