Pais viciados em drogas são o pior exemplo para os filhos

Congresso internacional sobre crack que se inicia amanhã na Capital trará pesquisas mostrando a influência do ambiente familiar na formação dos dependentes químicos

Especialistas advertem para a necessidade de bons exemplos
Especialistas advertem para a necessidade de bons exemplos Foto: Jefferson Botega

Que os amigos influenciam na experimentação das drogas e que a atração pelo proibido é grande, já se sabe. Mas uma pesquisa deste ano mostra que a influência do meio familiar é mais decisiva do que se imagina na formação do viciado. Maus exemplos dos pais podem ser determinantes para transformar alguém em dependente químico, mostra um estudo coordenado pelo psicólogo clínico Ricardo Sánchez-Huesca, especializado em tratamento de drogados no México.

O estudo será detalhado amanhã, dia de abertura do 1º Congresso Internacional Crack e Outras Drogas, um grande evento que trará a Porto Alegre a experiência de diferentes países no enfrentamento à dependência. Promovido pela Associação do Ministério Público, com apoio da RBS, o encontro terá até sexta-feira palestras de 14 especialistas brasileiros e estrangeiros.

O trabalho de Huesca será um ponto alto do evento.

– A pesquisa mostra que 70% dos dependentes entrevistados assistiram a maus-tratos do pai para com a mãe ou sofreram maus-tratos por parte dos pais. Já entre os que não usam drogas, o percentual dos que não vivenciaram violência doméstica baixa para 20% – registra o especialista em seu estudo.

O trabalho coordenado por Huesca na Cidade do México ouviu 40 dependentes químicos e 40 pessoas que não usam drogas – todos da mesma faixa etária e da mesma região, para equilibrar a amostragem. O estudo constata que 50% dos usuários de drogas relatam que seus pais ou irmãos mais velhos usavam drogas. Entre os não consumidores de drogas, o percentual dos que narram ter familiares envolvidos com uso de substâncias ilícitas é zero.

Um terceiro eixo da pesquisa mostra que 23% dos usuários de drogas enfrentam dificuldades escolares. Entre os não usuários, o índice é de 5%. Huesca ressalta que muitos dependentes de drogas dizem que, durante a infância, foram deixados ao cuidado de diferentes pessoas. Todos encararam isso como indiferença, abandono ou rechaço por parte dos pais.

Qual a saída? O principal conselho de Huesca é que famílias sejam tratadas preventivamente. O psicanalista Eduardo Mendes Ribeiro também acredita ser possível o adolescente não reproduzir o modelo paterno, por meio de atividades esportivas e de lazer, que ajudam a formar laços sociais.

Entrevista
Flávio Pechansky, Diretor do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da UFRGS

O estudo do mexicano Sánchez-Huesca não surpreende o psiquiatra gaúcho Flávio Pechansky, autoridade em drogadição e um dos participantes do congresso. Diretor do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas da UFRGS, ele conhece a trajetória de Sánchez-Huesca e partilha das suas constatações, conforme relata, nesta entrevista:

Zero Hora – Como o senhor analisa a pesquisa de Sánchez-Huesca?
Flávio Pechansky – Essa relação entre o dependente de drogas e sua família é conhecida. Conheço o doutor Sánchez e confio no que ele apurou. É notório que famílias com estruturas disfuncionais tendem a reproduzir esse ambiente, o que acaba passando para os filhos. A família é decisiva.

ZH – Pais usuários de drogas significam filhos viciados?
Pechansky – Não. Do contrário, todos os filhos de viciados seriam viciados. O que está claro é que as chances de adquirir o hábito parecem maiores em descendentes de uma família desestruturada e com histórico de dependência. A tendência ao abuso de drogas é uma combinação de fatores, que pode incluir pais usuários, crianças sem presença paterna e vizinhança propícia à experimentação de drogas. Natural que o resultado disso seja um dependente químico, mas isso não é matemático. É uma possibilidade.

ZH – Quais são as soluções para enfrentar esse problema?
Pechansky – A solução é muito difícil. A criação de alguém no meio de uma família dependente é a tempestade perfeita. Filhos de mães viciadas podem, ainda bebês, assimilar condições para ser futuros usuários de drogas. Isso só se remedia com prevenção, alertas intensos. E mudando o ambiente onde a criança cresce. Uma das saídas, talvez, é tratar a família junto com o usuário.

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