Paixão animal: histórias da afeição que une pessoas a seus animais

Que sentimento é esse que eles despertam em nós?

Foto: Adriana Franciosi

Você chega em casa depois de um dia cheio, estressante, complicado. O humor está péssimo, o corpo fatigado, a mente esgotada pelos compromissos. Ao colocar a chave na porta, você pensa simplesmente em entrar em si mesmo, ficar quieto em um canto, ruminando os problemas do trabalho, os conflitos familiares, o trânsito infernal. Você só quer esquecer de tudo, buscar uma paz que parece meio impossível.

Mas ao girar a maçaneta, alguém está à sua espera. Abana o rabo, late, pula. Ou simplesmente se enrosca nas suas pernas, com um miado baixinho. Ah, mas justo hoje, que você está tão cansado? A solução é ignorar. Faz de conta que não viu. Mas o rabo continua balançando, as lambidas não param. O alguém pula no seu colo, ou simplesmente ronrona acomodado ao seu lado.

E de repente toda aquela carga negativa que você trouxe da rua começa a se dissipar. Você nem sabe ao certo quando, mas do nada se dá conta de que está brincando, passeando, conversando, beijando ou somente afofando o seu amigo em um delicioso abraço. E a vida acaba de ficar muito melhor, graças a ele.

Essa cena, com pequenas variações, é conhecida de absolutamente todo mundo que tem animais de estimação. É uma coisa meio difícil de explicar, mas o fato é que nem o mais duro dos corações resiste a um chameguinho dos companheiros peludos. E esse chamego é capaz de transformar o humor e deixar o dia mais leve.

Claro, existem os seres humanos que maltratam, abandonam, fazem dos animais seus próprios objetos, matam. Mas não é disso que queremos tratar nesta reportagem especial de Donna. Queremos, sim, tentar entender esse amor tão diferente que nos une de forma indissolúvel aos nossos animais. Eles não trocam conosco uma só palavra em toda a sua existência. Mas há entre nós e nossos bichos uma capacidade intrínseca de comunicação e entendimento realmente impressionante, realmente inexplicável.

Pesquisas surgem a todo momento dando conta de mais um benefício da convivência entre seres humanos e animais. Recentemente, o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, permitiu que os pacientes internados, inclusive em unidades semi-intensivas, recebessem a visita de seus bichos.

O motivo? O poder que eles têm de ajudar na cura. Algumas universidades americanas, entre elas a Universidade Estadual de Nova York, lideraram estudos que comprovaram a eficácia dos pets em situações como estresse, depressão e doenças cardiovasculares. Pesquisas divulgadas há pouco também afirmam que cães podem farejar alguns tipos de câncer, gatos são aliados na prevenção de acidente vascular cerebral e ambos ajudam a fortalecer o sistema imunológico das crianças pequenas, evitando que elas desenvolvam alergias.

Para a fundadora da pet terapia no Brasil, a veterinária e PhD em Psicologia Hannelore Fuchs, as pesquisas que revelam os poderes terapêuticos dos animais só comprovam o que ela já sabe desde os anos 1970, quando começou a integrar animais e humanos em hospitais e centros de tratamento. Ela costuma dizer que “eles são remédios vivos”.

Mas será que é pensando nisso que temos animais? É certo que eles nos entendem e nos aceitam muito mais do que nós a eles – afinal, quantas vezes não compreendemos suas verdadeiras necessidades? Já eles vislumbram as nossas como muitas vezes nem a gente mesmo consegue. Tirando da conta os desvios de conduta – algumas raras vezes dos animais – quase sempre dos seres humanos, a relação com os bichos é capaz de marcar nossa vida, mudá-la, fazê-la virar. Sempre para melhor.

Para encontrar as histórias que refletem essas relações especiais, a reportagem de Donna buscou personagens que tiveram sua vida transformada pela convivência com os seus animais. São histórias de fé, perseverança, coragem, cumplicidade e, acima de tudo, amor. Amor, aliás, que parece ser o único conceito capaz de descrever e explicar o que sentimos pelos nossos amigos – e o que eles sentem por nós. São histórias como tantas outras, vividas todos os dias pelas gentes e pelos seus bichos do coração.

No ronronar da cura

Cada vez que chegava em casa, depois de uma penosa sessão de quimioterapia, a jornalista Rosane Marchetti, 53 anos, buscava o recolhimento para tentar sentir-se melhor. O tratamento contra um agressivo tumor em uma das mamas, detectado em 2011, custou a Rosane nove meses de afastamento do trabalho.

Custou-lhe também experiências sofridas. Ao deitar-se em seu quarto para descansar, logo percebia uma presença silenciosa perto de si. Era o pequeno Din-Din, um gato sem raça definida, com as pernas mais curtinhas do que o normal, que vive há anos com a família. Sem alarde ele subia na cama, aproximava-se, fazia uns breves carinhos em sua amiga enferma. Depois acomodava-se ao seu lado e ronronava baixinho. Só isso. Tudo isso.

Din-Din, como a maioria dos gatos, gosta de uma cama fofa e quente para dormir durante horas seguidas. Os dias em que Rosane chegava da quimioterapia, no entanto, eram especiais. Enquanto descansava, era paparicada pelos quatro felinos da casa de forma carinhosa e contava com a companhia deles por longos períodos. Mas nenhum deles como Din-Din, que ficava ao lado dela por muito mais tempo do que o comum.

? Ele ficava ali comigo, simplesmente ao meu lado. Demonstrava uma grande compaixão por mim, compreendia a minha situação e permanecia do meu lado. E é impressionante, porque em pouco tempo eu já me sentia melhor.

Durante toda a vida, Rosane fez questão da companhia dos animais. Agora, morando em apartamento, prefere conviver somente com gatos. Mas devota igual amor por cães e pelo que mais aparecer.

? Já recolhi cavalo, passarinho, cabrito. Não posso ver um animal sofrer.

A paixão pelos bichos de Rosane já é reconhecida, tanto que ela recebe dezenas de e-mails e ligações diariamente, seja para pedir orientações sobre como adotar ou resgatar animais, seja para alertá-la de algum mau trato ou abandono. Além dos gatos que vivem com a família, ela mantém alguns cães em abrigos, ajudando financeiramente os donos.

E coleciona histórias divertidas, como a vez em que, durante a gravação de um Globo Repórter em São José dos Ausentes, recolheu uma cadela e levou-a, dentro do carro, durante toda a pauta, para que não morresse de frio. Tudo para retribuir o que ela chama de lição de amor e proximidade que os animais nos dão.

Curada, a jornalista reconhece a importânica dos seus pequenos amigos na recuperação. Especialmente do seu Din-Din. Arisco, ele mal posou para as lentes da nossa reportagem. Só queria meter-se embaixo de um sofá, longe da vista de todos. Como antes, ele sabe exatamente a hora de aparecer e fazer a diferença.

Ao lado deles, um sentido para a vida

A fonoaudióloga Ana Paula Freitas, de 36 anos, sempre teve uma vida absolutamente normal e com todos os requisitos para ser chamada de feliz. Família unida e estruturada, sonhos, projetos, amigos, amores. Mas a sensação de que algo lhe faltava a acompanhou durante muito tempo. Nada que a fizesse deprimida ou melancólica, mas era um sentimento pequeno e insistente, um buraquinho às vezes maior, às vezes quase imperceptível dentro do peito.

Na casa em que morava, com os pais, não havia animais de estimação. A guria os desejava. Um dia, depois de muito argumento, conseguiu autorização para adotar Amigo, um vira-lata que apareceu na volta da casa. À medida em que aumentava a cumplicidade de Ana Paula com o cão, uma felicidade meio repentina tomava conta dela. Tudo parecia mais legal na companhia de Amigo. Ao sair da casa dos pais e ter o próprio apartamento, entendeu o que precisava fazer: recolher cães abandonados, cuidar deles e encontrar famílias que os quisessem adotar. E assim tudo mudou.

Em nove anos de atuação como protetora, já foram resgatados e encaminhados para adoção mais de cinco mil cães. Em Camaquã, onde Ana Paula mora, há algum tempo já não há famílias disponíveis – praticamente todas já têm cães encaminhados por ela. A solução foi espraiar a rede de solidariedade para Porto Alegre e Região Metropolitana, principal destino dos cães recolhidos atualmente. Até na Europa desfilam alguns cachorros salvos nas ruas de Camaquã ou de qualquer outra cidade por onde ela passe.

? Quando começamos a ONG, eram 40 pessoas envolvidas. Ao final do mesmo ano, havia somente três. Pouco tempo depois, era só eu – revela Ana Paula.

No apartamento onde mora com os seus três cães, Flocky, Maria Isabel e Boneca (essas duas últimas recolhidas das ruas), há um terraço onde os animais resgatados ficam à espera de uma família. Quando a reportagem de Donna esteve lá, havia cinco cachorros, um deles com sequelas permanentes de cinomose. Quando a vê, a bicharada corre, pula, faz a maior festa. E Ana Paula torna-se a dinda de todos depois que eles encontram uma família.

? A verdade é que a convivência com os cães me faz uma pessoa melhor. E poder ajudá-los me mostra que posso fazer alguma coisa para construir um novo mundo. Encontrei um sentido para a vida, uma causa pela qual lutar, uma ideologia a seguir. Agora sou muito, muito mais feliz – exclama.

A internet, por meio do Facebook e do blog Anjinhos da Rua, tornou Ana Paula conhecida muito além das fronteiras de Camaquã. Hoje, ela trabalha na prefeitura da cidade no horário comercial e, no resto do tempo livre, se dedica aos cães. Trata os que precisam de cuidados ao mesmo tempo em que busca, em sua enorme rede de contatos, um possível interessado no animal abandonado.

O trabalho custa a Ana Paula, além do tempo, muita dedicação e dinheiro – que ela obtém com promoções de todos os tipos, desde pedágios até bingos, e com a ajuda de amigos e simpatizantes da causa.

? É claro que às vezes fico cansada. Mas não posso abandoná-los. Afinal, eles me dão muito mais do que eu dou a eles. Me ensinam sobre amor incondicional, sobre generosidade, sobre amizade. Enquanto puder, vou trabalhar para dar a eles uma vida melhor.

Quem cresce junto, permanece junto

 

O diagnóstico de déficit de atenção e memória e hiperatividade foram, ao mesmo tempo, um alívio e um desafio para Fábia Giovaninni. Ainda adolescente, ela lutava, desde sempre, contra si mesma em busca de aceitação dos colegas, de um melhor desempenho na escola e de um entendimento mais constante com a família. Conhecer o problema permitiu que os médicos ajudassem a jovem no desafio, prescrevendo-lhe medicações.

Os comprimidos que passou a tomar eram apenas o começo de uma nova vida que estava começando para Fábia. As pílulas ajudaram, mas não foram as protagonistas dessa história. Um outro remédio, fofo e peludo, fez parte do tratamento. Sem saber, este medicamento de quatro patas transformou a existência da adolescente e, até hoje, testemunha e participa da sua trajetória.

Quando começou o tratamento com remédios, Fábia viu-se transformada. De aluna problema, com dificuldades de aprendizagem, passou a mais inteligente da turma. Moradora de Bento Gonçalves, ela experimentou mais uma guinada quando mudou-se para Porto Alegre para viver com os irmãos e terminar o Ensino Médio.

Isolada, sem amigos, sentindo-se só e tentando compreender toda a carga emocional que veio com o tratamento, ela ainda lutava para se adaptar à cidade grande quando passou no vestibular para Veterinária na Ulbra. A relação com os irmãos era complicada, a saudade de casa era sufocante e o sofrimento causado pela dificuldade de adaptação transformava a vida de Fábia em algo pesado, sombrio.

A mãe, percebendo a angústia da filha, veio a Porto Alegre com o objetivo de seguir sua intuição e dar-lhe um animal de estimação, de preferência um cachorro. Depois de convencer os irmãos a aceitarem a companhia do animal, as duas foram a uma casa onde eram vendidos filhotes da raça maltês.

? Eu peguei o último filhote, bem pequeninho, e ele começou a chorar. Eu e a mãe começamos a chorar também. Foi assim que o Calvin entrou nas nossas vidas – relembra Fábia

O cão chegou para preencher todos os vazios. Responsabilidade exclusiva de Fábia, Calvin ocupava todo o tempo livre da menina com suas brincadeiras, carinhos e necessidades. Durante a faculdade, era o companheiro mais fiel para os estudos.

? Sempre precisei explicar a matéria para conseguir entender. Então explicava tudo para o Calvin. Hoje ele é veterinário junto comigo – afirma Fábia.

O relacionamento com as pessoas mudou e veio o amadurecimento para compreender as tantas curvas da vida. Por meio do cão, a menina problemática conseguia se expressar, dar e receber o amor que estava preso no coração. O tratamento começou a dar resultados realmente impressionantes, pois ela sentia-se mais amada, mais útil, mais aguardada a cada vez que colocava a chave na maçaneta da porta de casa.

Aos 35 anos, Fábia ainda goza da companhia de seu amigo. Velhinho, com 13 anos, Calvin já está cego de um dos olhos e não tem muita disposição para brincar. Mas acompanha a dona todos os dias, sem falta, ao consultório veterinário.

? Ele se sente só, então levo ele comigo para o trabalho.

O marido e a filha de oito anos, Carolina, veem no cão mais um membro da família. Graças à convivência com Calvin, a menina é segura, independente e feliz. Todos, aliás, são mais felizes em função dele. Até os pais de Fábia, que não se importavam muito com cachorro, amam o mascote e criam a sua filha, Pérola, que nasceu para que, no futuro, haja no mundo uma semente de seu pai.

? Não podemos mais imaginar nosso mundo sem eles – emociona-se Fábia.

Amizade com esforço e coragem


Apaixonado desde sempre por cavalos, o empresário Paulo Martins buscou em uma cabanha de Aceguá, há três anos, a dupla que mudaria a sua vida. Para ele, o gateado Chamaco. Para a mulher, Ana Paula, o zaino Minuano. No lombo dos dois crioulos, o casal descobriu alguns dos recantos mais lindos da zona rural de Porto Alegre. Até que Ana começou a ter dificuldade em lidar com os brios do seu cavalo. O animal tornara-se assustado, um tanto arisco, e ela não tinha mais confiança nele.

Em pouco tempo já sentia um medo paralisador. Sequer conseguia montar. A maneira de dominar o animal já começava a se tornar motivo de discórdia entre marido e mulher. Aquele terror já interferia em outras áreas da vida dela. Parecia o fim da relação entre Ana e seu Minuano.

Pensaram em vendê-lo. Mas Ana já estava envolvida demais para abrir mão do seu amigo. Não queria desistir dele. Foi quando criou coragem para despir-se de todos os conceitos, enfrentar os fantasmas e recomeçar, do zero, a sua relação com o animal. Para compreendê-lo melhor, procurou uma especialista em Horsemanship, que é a técnica de comunicação natural com os cavalos, e matriculou-se em um curso, depois em outro.

Precisou alterar a rotina de trabalho, modificando os horários como professora e orientadora pedagógica. Para aplicar as técnicas que aprendia nas aulas, passava horas, sob sol escaldante ou frio, com Minuano dentro do redondel da cabanha onde ele vive, no bairro do Lami. De tanto tentar, ela enfim começou a compreender e, melhor, ser compreendida pelo amigo.

? Eu tive dois cavalos antes do Minuano, mas também não deu certo. Descobri que eu lidava com os animais da mesma maneira que eu via os outros lidando. E percebi que eu precisava encontrar o meu jeito. Foi um exercício de autoconhecimento, acima de tudo – comenta Ana.

Depois de seis meses de trabalho, Ana finalmente voltou a montar Minuano com confiança. Mas agora tudo é diferente. Ao interagir com ele, reconhece seus sinais, entende seus gestos. Ao compreendê-lo, criou com ele um vínculo especial, que não pode mais ser desfeito. Passou a amá-lo profundamente.

? Hoje não posso passar muito tempo sem vê-lo, sem estar com ele. Precisamos um do outro.

Ao mesmo tempo em que resolveu o medo que a assombrava, percebeu muitas outras questões que precisavam ser repensadas em sua vida. Algo mudou no trabalho, na convivência com a família, até mesmo na relação com o marido. Ao ver a busca da mulher pelo resgate da convivência com o cavalo, Paulo também se transformou. Passou a valorizar de forma mais intensa o seu amigo, Chamaco. Passou também a viver uma relação de ainda mais cumplicidade e parceria com a companheira, com quem está casado há 25 anos.

Para celebrar esse momento, Ana Paula decidiu comprar a primeira joia dos seus 50 anos de vida. Mandou fazer uma gargantilha da qual pendem a silhueta de um cavalo e uma pequena ferradura, ornada de brilhantes. É o símbolo de uma vida melhor, cheia de atitude e coragem. É também o símbolo da vitória de Ana sobre os seus próprios limites. Mas é, especialmente, a relíquia que lembra a conquista árdua e valiosa de uma grande amizade.

Um novo jeito de ajudar

Tudo começou quando o grupo de amigos que trabalha com desenvolvimento de sites percebeu que compartilhava da mesma tristeza ao ver animais abandonados. Sem condições de recolher todos e sentindo-se impotentes diante do sofrimento dos bichos, resolveram usar a tecnologia para unir quem tem vontade de ajudar mas não sabe bem como. Nasceu assim, em outubro do ano passado, a plataforma de crowdfunding Bicharia.

? Foi o jeito que encontramos de arregaçar as mangas e fazer a nossa parte – comenta um dos criadores, Flávio Castro.

No site, qualquer pessoa pode cadastrar projetos e captar recursos para o financiamento de todo o tipo de iniciativa que ajude os animais, desde o tratamento de um pet específico a uma grande campanha de castração. Ao todo, os guris já arrecadaram mais de R$ 150 mil, que foram destinados a projetos em todo o Brasil.

O financiamento coletivo para os animais funciona da mesma forma que os demais. O projeto entra no ar e, dentro de um período, arrecada os recursos, que são destinados aos responsáveis. Ao final, a prestação de contas garante que os bichos foram ajudados.

As últimas do Donna
Comente

Hot no Donna