Paixão por colecionar figurinhas continua seduzindo crianças e adultos

O que começou como um simples brinde, hoje conquista adeptos no formato virtual

Colecionador Jairton Mendonca com seu álbum de figurinha da seleção de 1958
Colecionador Jairton Mendonca com seu álbum de figurinha da seleção de 1958 Foto: Maurício Vieira

O movimento é aquela puxada transversal, como se estivesse abrindo um sachê de maionese. Mas o que tem dentro deste envelopinho é muito mais excitante do que um simples condimento para o sanduíche. Será que finalmente vou conseguir completar o álbum? É a pergunta que se faz todo bom adepto das coleções de figurinhas, uma prática que resiste ao tempo e ainda se moderniza.

O que começou como um simples brinde em carteiras de cigarro, hoje conquista adeptos no formato virtual por meio das blogurinhas, o álbum de figurinhas da blogosfera.

Jogadores de futebol, paisagens, pontos turísticos mundo afora, personagens de desenhos animados e até atores de teatro já estamparam cobiçadas figurinhas nas páginas dos álbuns e, mais recentemente, nas páginas da internet.

E mesmo antes de chegar à rede mundial de computadores, o ato de colecionar figurinhas já seduzia por uma característica que se popularizou no mundo virtual: a interatividade.

 Confira a galeria de foto de figurinhas históricas

Paulo Cezar Alvez Goulart, 57 anos, foi um dos primeiros brasileiros a pesquisar o universo dos colecionadores, ainda na década de 1980. Ele estudou o assunto como tema de uma dissertação de mestrado da Escola de Comunicação da Universidade de São Paulo (USP).

? O colecionador está sempre em busca de algo que ainda não tem, não resiste à expectativa de abrir mais um envelope para ver se consegue completar sua coleção. A interação com outros colecionadores passa por aí. São relações que se criam por um objetivo comum, de buscar sempre mais  ? avalia.

Nesta reportagem, o Donna mostra histórias de gente que divide a paixão pelos álbuns de figurinhas e mostra que não importa o tema, a idade ou o formato da coleção. O que vale é que ela esteja completa.

:: Família grudada

Malu abriu os olhinhos, ainda na cama e lançou:

? Trouxe as figurinhas, mamãe?

Claudia Tiscoski, 30 anos, lembra do dia em que chegou de viagem e percebeu que a filha de três anos havia se tornado uma pequena colecionadora. O hábito de colar adesivos de todos os tipos na cômoda do quarto foi a primeira demonstração de interesse pelos álbuns de figurinhas. A prática também caiu nas graças do caçula, Erick, de dois anos. Eles literalmente não desgrudam dos livrinhos do Backyardigans e remontam nas páginas os episódios que assistem na TV.

? Quando vimos que eles se divertiam colando os adesivos, começamos a trazer álbuns para casa e a comprar as figurinhas. Percebi que a capacidade de associação deles melhorou, além de estarem mais familiarizados com os números, pois precisam achar o correspondente entre a figurinha e o lugar no álbum ?  avalia Claudia.

As figurinhas repetidas são a frustração dos irmãos. O pai, André Barbosa, até ingressou em um site especializado em troca para tentar completar os álbuns dos pequenos.

? Estamos em busca de um lugar aqui em Florianópolis para trocar as figurinhas deles, já que na escolinha são poucas as crianças que também gostam dos álbuns ?  completa Claudia.

:: Paixão que não tem idade

Futebol, carros, animais. Não importa o tema. O que este grupo de Tubarão, no Sul do Estado, gosta mesmo é de colecionar. Fernando Bosa, 27 anos, era um colecionador de figurinhas quando criança, mas o hobby foi deixado na adolescência. Foi quando o filho Samuel, de sete anos, começou uma coleção que Bosa se motivou a retomar uma paixão antiga.

? Ele dizia que um amigo da escola já estava completando o álbum, enquanto no dele ainda faltavam muitas figurinhas. Fui ajudá-lo e, em pouco tempo, reunimos um bom acervo. É um passatempo que me aproxima muito do meu filho ? conta Bosa, que, com Samuel, tem álbuns sobre os filmes de animação Carros, Kung Fu Panda, dinossauros e, principalmente, de futebol.

O que para Fernando é um simples hobby, para o amigo Jairton Mendonça, o Zito, 47 anos, é assunto sério. Ele tem uma coleção de arrancar suspiros de qualquer amante de futebol.

As primeiras figurinhas foram compradas ainda na época de garoto. Hoje, Zito é o feliz proprietário de raridades como álbuns das Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970.

? É como uma terapia. Tenho amigos juízes, advogados, engenheiros que também são fascinados pelos álbuns de figurinhas ? afirma Zito.

Outro integrante do clubinho de colecionadores de Tubarão é Edson Zaneripe, 50 anos. Ele também tinha álbuns quando criança, mas perdeu quase todo o acervo na enchente de 1974, que devastou a cidade. O jeito foi refazer a coleção aos poucos e tentar esquecer algumas relíquias insubstituíveis:

? Eu tinha um álbum completo do seriado Jornada nas Estrelas. Na internet, esse mesmo álbum é anunciado para venda por até R$ 3,5 mil.

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