Parada de Sucesso

Gaby Amarantos e outras 10 melhores cantoras da nova música brasileira

Foto: xx

A feiticeira tecnobrega

Marcélo Ferla Especial

Gaby Amarantos se autodefine como uma fábrica de novidades ambulante. Mesmo egressa de uma cena regional inserida em um contexto alternativo, ela está na pauta da Rede Globo e interpreta um dos temas da Copa do Mundo. A melhor parte desse sucesso é o fato de sua originalidade permanecer intacta, sem interferência do mercado. Ela avança sem desviar um milímetro de seu som, batizado de tecnobrega.

A “Beyoncé do Pará” é a rainha dos terreiros high-tech de Belém, onde tudo começa com a guitarrada, gênero que, por si só, concentra boa parte da soma de sonoridades que caracterizam o tecnobrega, que inclui ritmos latinos como a cumbia, e africanos como o zouk, além do tradicional carimbó, de ecos da Jovem Guarda, e das batidas eletrônicas.

Pop e dançante, o tecnobrega aglutina e reinventa. Como manda a cartilha de sobrevivência destes tempos sustentáveis, é 100% reciclável ao reescrever ritmos de origens díspares sem qualquer pudor – não à toa os versos emblemáticos do primeiro hit da cantora, Xirlei, lançado no único álbum Treme, dizem: “Eu vou te samplear / eu vou te roubar.” Gaby, que é o retrato disso tudo, falou a Donna.

Como você encontrou seu som?
O som me encontrou. Nasci na periferia, sempre fui cercada de música popular e tive vontade de valorizar esses estilos com um trabalho de qualidade.

Qual a importância do visual em seu trabalho?
Enorme. Minha identidade visual representa o que eu sou e a música que eu faço. Atrai os olhares até chegar ao interesse dos ouvidos.

Você faz muitos shows no Exterior. Como o mundo a vê?
O público de fora se impressiona com a modernidade e a autenticidade do som. Muitos comparam com a trajetória de Carmen Miranda. Tenho consciência de que estamos abrindo novos caminhos para a música brasileira.

E no Brasil, você é mais conhecida como cantora ou celebridade?
Os dois. Ter uma música na abertura da novela fez o país me entender como cantora, e meu jeito de ser faz com que as pessoas queiram saber o que existe além do trabalho musical. Eu gosto de ser um exemplo de autoestima e determinação.

Que cantoras brasileiras você admira?
Elza Soares, Elis, Clara Nunes, Fafá, Luê Soares, Tulipa e Dona Onete.


 

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10 cantoras brasileiras que você tem que ouvir

Gerada entre as incertezas da indústria fonográfica e os novos formatos disponíveis ao público, que ainda tem dificuldades para se mover sem os filtros que rádios, tevês, jornais e gravadoras faziam, a música pop brasileira sobrevive com menos exposição institucional e, em contrapartida, mais liberdade criativa. Ainda que as rádios prefiram o funk fake de Anitta e os festivais priorizem a lambaeróbica de Ivete Sangalo, há um grande número de novas cantoras, como Gaby Amarantos, consolidadas em seus cenários, variáveis em tamanho e formato, que fazem música pop de qualidade.

Roberta Sá

Ela nasceu em Natal há 27 anos, mudou-se para o Rio com nove e fez intercâmbio no Missouri aos 18. No Brasil, ouvia rock; nos EUA, cantou em coral. Sua praia, porém, é o samba, ainda que no repertório outro ritmos regionais brasileiros tenham espaço cativo. A leveza da bossa, mais do que a estrutura formal do gênero, é outra marca registrada de Roberta. Intérprete segura e clássica, ela foi uma das vozes que impulsionou a volta do samba na pauta do pop no século 21. O fato de dar espaço a novos compositores, mesclados aos consagrados, foi fundamental neste processo. No álbum mais recente, Segunda Pele, há sons de Dudu Falcão, João Cavalcanti (filho de Lenine), Rubinho Jacobina e Gustavo Ruiz. No Rock in Rio, Roberta acompanhou Moraes e Pepeu em um show de clássicos dos Novos Baianos, e segurou a onda. Muito poucas cantoras brasileiras assumem o posto que foi de Baby Consuelo e não desafinam (no sentido real e figurado).

Céu

Ela é paulista, tem 33 anos e o reconhecimento merecido. No Exterior. Primeira artista estrangeira com um álbum na série Starbucks Hear Music Debut, patrocinada pela rede de cafés, sua estreia fonográfica teve a melhor posição nas paradas norte-americanas desde que Astrud Gilberto gravou Garota de Ipanema, em 1963. No Brasil, Céu faz muito menos sucesso do que deveria. Se por reducionismo ela tem sido apresentada como uma cantora de MPB, e não deixa de ser, deve ser dito que ajuda a modernizar e amplificar o estilo. Seu som se enquadra bem no vasto universo de música negra urbana, com elementos de afrobeat, reggae e eletrobeat. Samba e jazz também estão na pauta da garota de voz angelical e postura low-profile, bem diferente de algumas divindades da antiga MPB.

Lia Sophia

Brasileira por adoção, ela nasceu na Guiana Francesa há 35 anos e cruzou a fronteira com apenas dois. Criada no Amapá, onde ficou até os 17, Lia Sophia foi para Belém estudar Psicologia, mas acabou fisgada pelos encantos musicais do lugar – e se transformou em um deles. De guitarra em punho e com voz aveludada, ela faz pop dançante como Gaby Amarantos, mas é mais concisa e melódica que a estrela da companhia, e inclui baladas em seu repertório. No vai vém do tempo, Lia tem flertado com o brega dos anos 70 ao mesmo tempo que dá mole ao eletrônico reciclado pelos paraenses, o tecnobrega. Ela tem quatro discos lançados, e seu maior hit é “Ai Menina”, trilha da novela Amor, Eterno, Amor.

Mallu Magalhães

A garotinha graciosa que fazia músicas “fofas” e conquistou o Brasil a partir da internet não existe mais – embora tenha um clone carioca e temporão que também “se criou” na rede, Clarice Falcão. Embora a Mallu dos tempos do “tchubaruba” e do look de brechó já merecia respeito, por conta de seu talento ingênuo e de um frescor raro de se ver em tempos tão midiáticos, a de 21 merece mais. Mallu cresceu, casou e mudou. Está em busca de um som mais refinado e classudo, sem perder a ternura, jamais. Claramente influenciada pelo marido, Marcelo Camelo, ela surpreendeu em seu terceiro álbum, Pitanga, calcado em sambas e bossas, e dá indícios de que vai continuar andando para a frente. No Rock in Rio, ao cantar composições do maestro Moacir Santos acompanhada pela Banda Ouro Negro, demonstrou evolução vocal, mesmo nervosa e tocando para uma plateia que prefere o meme à boa música. É melhor procurarem o clone.

Nina Becker

A delicadeza é a marca dessa carioca de 39 anos, integrante da Orquestra Imperial (com Thalma de Freitas, Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Wilson das Neves e outros). Cantora e compositora eclética que se move com desenvoltura entre os experimentalismos dos novos compositores e o romantismo de divas como Dolores Duran, Nina tem dois discos solo importantíssimos para a compreensão da nova música pop brasileira, Azul e Vermelho, ambos de 2010 – ano passado lançou Gambito Budapeste, com o parceiro de música e de vida Marcelo Callado, baterista das bandas Cê, de Caetano Veloso, e Do Amor. Nina é uma das melhores tradutoras de um núcleo fundamental da renovação da MPB, que soma o estúdio paulistano YB Music, uma turma de jovens compositores como Rômulo Fróes, Domenico e Rubinho Jacobina, e produtores/articuladores recorrentes desse cenário, o carioca Kassin e o gaúcho Carlos Eduardo Miranda – que também contribuiu decisivamente para a cena paraense.

Cibelle

Já se disse que ela faz punk tropical, termo que a paulistana de 35 anos aprecia. Se for isso mesmo, punk tropical é um estilo que mixa samba, bossa e folk, com arranjos sofisticados e o uso de recursos eletrônicos com parcimônia. Cibelle surgiu em 2002 em três faixas da compilação São Paulo Confessions, álbum seminal da música eletrônica nacional, produzido pelo iugoslavo Suba (que morreu em 1999), mas já compôs marchinhas de Carnaval, fez releitura de Tom Waits e está na trilha do filme Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles, com Só Sei Viver no Samba, uma carta brasileira de intenções musicais. Radicada em Londres, ela está lançando este mês o dançante Unbinding, que acrescenta r&b e garage pop em seu cartel de estilos, que podem ser ouvidos nos discos Cibelle (2003), The Shine of Dried Electric Leaves (2006) e Las Vênus Resort Palace Hotel (2010).

Karol Conká

As sacadas sonoras de Karoline dos Santos, 27 anos, são tão divertidas quanto a brincadeira gráfica/linguística de seu nome artístico, Karol Conká. Mais um suspiro da saudável cena pop curitibana (que tem revelado nomes díspares como Boss in Drama, A Banda Mais Bonita da Cidade e Copacabana Club), ela mixa hip hop com raggamuffin com funk com personalidade. O imperdível Batuk Freak, seu disco de estreia, deste ano, tem releitura até para Almir Guineto, titular de qualquer time de craques do samba de raiz. Karol é a versão brasileira de gringas como M.I.A., Santogold ou Kid Sister, que fazem música contemporânea eletrônica e tribal, diretamente influenciadas pelo funk carioca, este mesmo que é visto com preconceito no Brasil. Não bastasse Batuk Freak ter 12 faixas matadoras, a MC faz os vocais da deliciosa Toda Doida, hit avulso do Boss in Drama capaz de fazer qualquer pista bombar.

Tulipa

Seu som emana ares tropicalistas e é a cara da geografia de sua existência: paulistana de 34 anos criada na cidade mineira de São Lourenço, ela faz um pop meio urbano meio hippie, como se no fim da Vila Madalena, bairro boêmio da capital paulista, houvesse uma cachoeira. Acima de tudo, Tulipa tem uma voz marcante, de timbre agudo, que aprendeu a administrar, e doses colossais de lirismo nas letras/crônicas que escreve. Jornalista e ilustradora, ela é filha de Luiz Chagas, guitarrista de Itamar Assumpção e seu parceiro de shows e composições, assim como o irmão, Gustavo Ruiz. O primeiro disco, Efêmera, é uma deliciosa coleção de canções com vocação radiofônica: Efêmera, Às Vezes, Só Sei Dançar com Você. O segundo, Tudo Tanto, é mais coeso e refinado nas texturas, e apresenta uma cantora mais sutil e, nitidamente, amadurecida.

Marcia Castro

Para a cantora e violonista baiana de 34 anos, a música popular de sua terra é muito mais do que axé, pelo menos como uma lógica do mercado, e sua produção fonográfica deixa isso bem claro – nunca é demais lembrar que axé music foi o nome criado para a diluição pop do contagiante samba reggae. Elogiada por tropicalistas como Gilberto Gil e Tom Zé, que já gravou, Marcia Castro é uma intérprete charmosa e de extremo bom gosto na escolha do repertório. Os malditos Itamar Assumpção, Jorge Mautner e Sérgio Sampaio estão na lista, que também inclui Rita Lee e Cartola. Embora tenha saído da Bahia por falta de espaço, por conta da ditadura do axé e suas divas, ela também cita o conterrâneo Gerasamba na regravação de Preta Pretinha, como que estabelendo um elo entre os bons baianos. Nessa linha evolutiva, não há dúvidas de que Marcia está na ponta mais recente.

Bárbara Eugênia

Carioca de 33 anos radicada em São Paulo, a bela Bárbara mixa rock setentista com Serge Gainsbourg e com Odair José sem perder a classe. Dona de voz sedutora, que usa sem cometer excessos, ela despertou atenção merecida quando lançou o álbum Journal de BAD, em 2010, e conquistou o respeito definitivo com É O Que Temos, deste ano. O tempo mostrou que o primeiro trabalho foi um excelente rascunho para o segundo, disco maduro e romântico, com intenção pop e urbana, e que namora firme com a psicodelia setentista (movida pelo teclados sutis de Astronauta Pinguim e as guitarras cirúrgicas de Edgard Scandurra). O trabalho é autoral, mas vale destacar a releitura de “Por que Brigamos”, clássico brega conhecido na voz de Diana, mas originalmente gravado por Neil Diamond – é aquele mesmo do refrão “oh meu amor / por que brigamos / não posso mais viver assim / sempre chorando”.

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