Patricia Druck: “Presidir a Bienal do Mercosul é transformar e ser transformada”

Saiba o que pensa quem comanda a mostra de arte de Porto Alegre

Na sala do apartamento, a tela de Shirley Paes Leme, uma das peças mais imponentes de sua coleção particular
Na sala do apartamento, a tela de Shirley Paes Leme, uma das peças mais imponentes de sua coleção particular Foto: Júlio Cordeiro

Entrar no apartamento de Patricia Fossati Druck, 42 anos, pode ser uma experiência marcante para os não iniciados. Quem espera encontrar fotos de filhos e aqueles quadros triviais preenchendo o espaço das paredes, vê uma realidade nova. É quase o mesmo que vivenciar uma instalação artística em algum museu por aí. Telas, fotos e esculturas de artistas brasileiros e latino-americanos estão por toda a parte, compondo o ambiente com os móveis de design espalhados pelos cômodos. Para ela, a coleção que orna as salas e quartos é parte de sua relação não somente com a arte, mas com a vida. É parte indissociável de sua personalidade. É o que a faz Patricia Druck.

Presidente da 9ª Bienal do Mercosul – nome ao qual ela faz questão de juntar o “Porto Alegre” no final, para valorizar a sede do evento -, Patricia tomou posse propondo a convivência das pessoas com a arte, em todos os sentidos. Quer mais intervenções, mais instalações, quer mais esculturas, para que o observador possa circundar a obra, volteá-la, ser transformado por ela. A primeira mulher a presidir uma bienal na América Latina não tem medo de sentenciar:

? Arte não é para entender. Arte é para sentir.

Ainda sem poder revelar detalhes da organização do evento que ocorre de setembro a novembro deste ano, Patricia tenta se conter. Mas logo olha para a assessora de imprensa que a acompanha e pede, primeiro com o olhar, depois com palavras, para revelar mais um detalhe até então sigiloso.

Depois desiste de pedir a licença profissional e vai logo contando mais uma inovação, mais uma ousadia, mais uma das mil coisas-legais que quer ver implantadas na mostra.

? Essa Bienal já está mexendo comigo, já está me transformando. Tenho certeza de que vai transformar muita gente também ? afirma.

A relação de Patricia com a arte começou cedo. A primeira obra foi comprada quando ela tinha apenas 19 anos, mas o estalo da paixão foi dado muito antes. A arquitetura e a vida cultural singular de sua cidade natal, Pelotas, foram responsáveis, segundo ela, pela iniciação da guriazinha curiosa nas questões “estéticas” que a preocupam e encantam até hoje. Em Cachoeira do Sul, cidade em que morou dos nove anos até a faculdade, trabalhou na organização de eventos da Secretaria de Turismo e fazia uma coluna social jovem no jornal local. Por adorar comunicação, voltou para Pelotas para estudar jornalismo – curso que foi concluído na PUCRS.

Depois da faculdade, nunca mais parou de estudar. A cada período de férias, lá ia Patricia fazer intercâmbio, cursos e oficinas em diferentes países. O resultado são diplomas espalhados pela parede de um dos quartos, além da fluência em cinco idiomas. Tudo para matar a curiosidade, a necessidade de saber, conhecer e pensar, que só aumentou desde os tempos de menina, no interior.

Quando já vivia entre Porto Alegre e o resto do mundo, Patricia entrou em contato com uma obra que mudou a sua vida, literalmente. Visitar museus sempre foi programa obrigatório nas viagens, mas ao entrar no hall da Tate, em Londres, e deparar-se com a grande rachadura no chão esculpida pela colombiana Doris Salcedo, sentiu-se diferente. Percebeu o enorme respeito conquistado pela artista e pensou que deveria fazer mais pela divulgação da arte latino-americana. Dedidiu tornar-se, então, patrona da Tate, da Pinacoteca de São Paulo e do Pompidou, em Paris. Contribui financeiramente com essas instituições para que elas incluam, em seus acervos, obras de artistas do Brasil e seus vizinhos.

Assim, mergulhada de corpo, alma e cabelos castanhos muito escuros no universo da arte, aceitou o desafio de ser diretora da 8ª Bienal do Mercosul, em 2009. Era o primeiro passo para realizar o sonho que nem imaginava ao certo: presidir o maior evento de arte do Rio Grande do Sul.


O brilho da obra “luz”, de Regina Silveira, ilumina as paredes e os dias de Patricia
Foto: Julio Cordeiro

LONGE DOS ESTEREÓTIPOS

Sabe aquelas figuras taciturnas e enigmáticas que capricham no ar blasè para falar de arte? Bem, elas são tudo o que Patricia Druck não é. Ao chegar em seu apartamento para fazer as fotos que ilustram esta reportagem, a equipe de Donna encontrou uma recepção tão aconchegante quanto surpreendente. Das paredes pendem obras de artistas variados, mas o que ela mostra primeiro é a mesa de salgados e doces que preparou para a equipe.

– Ó, esse aqui tem que comer, é uma figada lá de Pelotas, da minha cidade. Isso aqui é uma beleza, vocês não fazem ideia – derreteu-se, diante de uma bandeja que reluz com o brilho do doce.

E nenhuma palavra, nenhuma foto antes de um brinde – e um gole – de sua bebida preferida para qualquer ocasião: champanhe. Ela entende que a equipe está trabalhando, mas ainda assim faz ecoar na sala o estampido de rolha da Moët & Chandon Ice Impérial. É para celebrar a arte e a Bienal de sua vida.

Sua relação com as pessoas ao redor também denota a personalidade acolhedora de Patricia. Um dos melhores amigos é o ex-marido, o empresário Péricles Druck, com quem foi casada por 22 anos. A relação terminou, mas eles mantêm a harmonia e o entendimento, especialmente no que diz respeito à criação das filhas gêmeas, Marina e Caetana, de oito anos. O Lulu da Pomerânia Pepe, de um ano, também é um “filho” de Patricia que é frequentemente encontrado na casa de Péricles, junto com as crianças.

Para resumir o que pensa de sua maior paixão, ela dá um exemplo singelo. Ao chegar à porta do Louvre com as duas filhas, foi logo entusiasmando as meninas, dizendo que a Monalisa estava ali dentro. Ao que uma das duas respondeu, encerrando o assunto:

– Ah, mãe, essa aí a gente já tem lá em casa. Vamos para a roda gigante!

O desdém da pequena a fez pensar que arte é bom de qualquer maneira, seja na parede do Louvre, na Bienal, em uma reprodução impressa em gráfica – como era o caso da Monalisa que elas tinham em casa – ou na ilustração de uma caneca. O importante é estar em contato com a arte e ser impactado por ela. O episódio a fez pensar também, é claro, em estratégia mais eficiente para entrar com as filhas no museu na próxima viagem da família a Paris.


Patricia e Pepe
Foto: Julio Cordeiro

“Estou sempre em busca de talentos gaúchos”

DONNA – QUEM SÃO OS ARTISTAS GAÚCHOS DE QUE VOCÊ GOSTA?

Patricia Druck – São vários, muitos mesmo. Vou te dizer os que tenho na minha coleção: Saint Clair Cemin, Marina Camargo, Carlos Pasquetti, Regina Silveira, Patrício Farias, que é um chileno que mora e produz arte aqui, Leopoldo Plentz, Júlio Ghiorzi. Iberê Camargo, claro. E muitos outros artistas gaúchos. Minha coleção está dividida entre Porto Alegre, São Paulo, Santa Catarina e a casa do primeiro marido (risos). Minha coleção não começou com amarras, mas de alguma forma estou sempre em busca de talentos gaúchos.

DONNA – VOCÊ TEM ALGUM TIPO DE PREFERÊNCIA POR ARTISTAS GAÚCHOS?

Patricia – Não. A questão é o que eu via, o que eu tinha acesso, o que eu tinha diante de mim para comprar. Num primeiro momento, comprei o que vi e gostei. Sou muito espontânea e sincera. Então, no começo comprei as obras que me tocaram. Tenho uma obra do Tunga, por exemplo, que só comprei por que era feita com esponjas de Rio Grande.

DONNA – COSTUMA CONSULTAR PESSOAS ANTES DE COMPRAR UMA OBRA DE ARTE?

Patricia – Sim, consulto especialistas.

DONNA – QUAL A PRIMEIRA OBRA QUE VOCÊ COMPROU?

Patricia – Que eu me lembre foi A Origem do Mundo, do Siron Franco. E, em seguida, comprei a obra de um pelotense, Leopoldo Gotuzzo, que tenho até hoje.

DONNA – QUAL O TAMANHO DO SEU ACERVO?

Patricia – É grande, graças a Deus. Mas dizer isso é exibicionismo, não?

DONNA – QUAL O PREÇO ACEITÁVEL PARA SE PAGAR EM UMA OBRA DE ARTE?

Patricia – A gente não pergunta o preço… Se tu gosta de uma coisa, a última pergunta é o preço. A gente tenta dar um jeito de comprar. Mas é claro que já existe uma espécie de educação em torno do assunto, entende? Já sei mais ou menos quanto custa um artista nacional, quanto custa um internacional. As pessoas têm uma certa noção de quanto custam as obras. É como quem quer comprar um Fusca ou uma BMW. Já se pode dizer mais ou menos quanto cada um custa. Mas se tu queres comprar um bom carro, não dá pra sair perguntando o preço. A obra de arte é isso.

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