Patrícia Kotzias mantém a tradição familiar de trabalhar com tecidos

Patrícia está a frente dos negócios da família
Patrícia está a frente dos negócios da família Foto: Susi Padilha

Entre musselinas, organzas e chantungs, Patrícia Kotzias, 25 anos, reforça uma tradição familiar que começou há 100 anos. A exemplo do que fizeram a bisavó, a avó e ainda hoje faz a mãe, Moscopiá Kotzias, Patrícia passa boa parte do dia administrando a loja que Anastácio, seu bisavô, inaugurou há um século.

Ela, menina pelo jeito doce, mulher pelas responsabilidades sérias que assumiu, tem na ponta da língua a história da família. Conta Patrícia que, então com 30 anos, em 1910, o bisavô Kotzias deixou a ilha de Kastelórizo, na Grécia, e embarcou para Floripa, fugindo de uma guerra iminente, para montar o que seria a mais tradicional loja de tecidos de Santa Catarina desde então.

Na verdade, o velho Kotzias já tinha vindo a Floripa antes, em 1895, acompanhando o pai. Por aqui, viu muitas semelhanças com a sua ilha grega, e foi essa memória que voltou quando Anastácio, que trabalhava como armador na terra natal, sentiu o clima esquentar.

Empreendedor, trouxe uma carga de 99 tecidos, boa parte sedas indianas que por aqui nunca tinham dado o ar da graça. Se instalou no Centro de Florianópolis com a loja que, a exemplo de quase todos os comércios, levava o nome do dono na fachada. Iniciou o negócio promissor, mas quem fez a então lojinha virar referência foi Miguel Kotzias, o avô de Patrícia que rebatizou o negócio de Casa Kotzias.

A loja acompanhou o crescimento da cidade. O negócio só conheceu os primeiros reveses a partir das últimas décadas do século XX, à medida em que o prêt-à-porter crescia e democratizava a moda. 

? Nosso maior concorrente são as lojas de roupa pronta. Tem muita gente que nunca fez uma roupa sob medida. É um padrão diferente e, além disso, é todo um mundo cheio de características próprias – defende a herdeira, filha de brasileiro com grega, integrante da primeira geração da família “misturada”.

Patrícia cresceu fazendo parte desse mundo particular, recheado de tecidos importados, modelistas e costureiras. Bem diferente das meninas nascidas na década de 1980. 

? Desde os 15 anos não lembro do que é ter férias de julho. Quando não tinha aula, eu ficava no caixa. No verão, meus colegas falavam de três meses de férias e eu pensava “por quê?”. Mas a minha mãe sempre deixou a gente à vontade. Ela dizia que se eu não quisesse trabalhar na loja, ela esperaria pelos netos. Na família é assim: ou tu tá ou tu não tá ? explica ela.

Mesmo tendo gosto pelos negócios e o empreendedorismo no sangue ? aos 17 anos, nas férias de verão, ela resolveu abrir um estacionamento nos Ingleses que não durou mais de um mês ? Patrícia não abriu mão do diploma em Direito, um sonho antigo. 

? É uma garantia que tenho. Chamavam minha avó de preguiçosa porque diziam que ela passou a vida esquentando a barriga no balcão. Eu cresci vendo que as pessoas não consideram o comércio uma profissão, por preconceito ? diz a aluna da 9º fase de Direito na UFSC.

A rotina não á fácil: ela se desdobra entre as duas lojas pela manhã, o estágio no Tribunal de Justiça à tarde e a faculdade à noite. E ainda arruma tempo para o grupo de pesquisas sobre Direito Ambiental. Mas a rotina cheia de responsabilidades não tira dela o gosto pelos programas com os amigos, pelos barzinhos e pela leitura.

O sangue novo de Patrícia ajuda a modernizar a loja, a única de tecidos com filial em shopping no Brasil. A ideia agora é desenvolver estampas. Viajar também é uma paixão: Patrícia já foi pra Grécia duas vezes. Uma delas como bolsista de um programa do governo grego para valorização da cultura local.

E ela não só valoriza como continua a vivenciar certos rituais, como o emblemático quebrar de pratos em casamentos e formaturas, a dança grega nas festas e a comida típica que a avó prepara. Cheia de personalidade, Patrícia odeia comprar roupa. 

? Fico vendo revistas e se acho alguma coisa legal, mando fazer ? diz ela.

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