Personal Friends ganham espaço no Rio Grande do Sul

Saber ouvir e não ser crítico são as principais qualidades desses profissionais

Susiane é advogada e trabalha como personal friend desde setembro de 2009
Susiane é advogada e trabalha como personal friend desde setembro de 2009 Foto: Arquivo Pessoal

Susiane Santin, de 30 anos, é advogada. Ela trabalha em um escritório no Centro de Porto Alegre durante a tarde. Como voluntária, ela apoia a ONG SOS Rim, voltada a ajudar pessoas com problemas renais. Algumas vezes por mês, ela dedica o tempo a outra profissão: personal friend, uma amiga profissional.

Pelo preço de R$ 150 por encontro (de cerca de 50 minutos), Susiane acompanha seus clientes em passeios pelo shopping, idas ao cinema, aniversários, formaturas e outros eventos. Quem quiser a companhia dela mais vezes pode contratar um pacote a um preço mais acessível.

Você contrataria um amigo de aluguel?

A advogada explica que a ideia surgiu em setembro de 2009, após ter assistido a um programa na TV sobre o tema. Ela resolveu apostar no ramo, criou um blog e começou a distribuir panfletos em hotéis, restaurantes e cafés de Porto Alegre. Pouco tempo depois, os clientes começaram a aparecer.

? Uma amiga sempre dizia que eu era a personal friend dela, então achei que podia ser interessante começar a trabalhar com isso. Em São Paulo isso é muito comum, aqui no Estado está começando ? conta.

Foi no fim do ano que a agenda de Susiane ficou mais lotada. Atualmente, ela atende uma média de três pessoas por mês, número que aumenta quando ela investe em divulgação. A clientela é formada por pessoas acima de 35 anos, principalmente mulheres.

? As pessoas mais novas, que têm por volta de 35, 40 anos, me procuram porque têm uma vida muito corrida e não conseguem se encontrar com amigos para tomar um café ou ir fazer compras no shopping, por exemplo. Os mais idosos buscam companhia porque estão carentes, moram longe dos filhos e da família ? relata.

A amiga profissional diz que recebe muitas críticas pela internet, de pessoas que censuram a “cobrança”, mas, para ela “quem precisa não se importa em pagar”. Além de ser uma boa ouvinte, o fato de ser advogada já ajudou na hora de prestar o serviço. Susiane conta que uma senhora já a procurou para acompanhá-la na formatura de direito do filho:

? Ela não conhecia ninguém, vivia isolada da família. Disse claramente que não saberia se portar diante das “pessoas estranhas da faculdade” e pensou até em não ir no evento. Como eu sou advogada, ela se sentiu mais segura para interagir com os convidados.

Mas nem tudo é simples quando se é personal friend. A profissão ainda é confundida com o serviço de acompanhante sexual. Susiane já recebeu vários e-mails com esse tipo de abordagem e, para evitar situações constrangedoras, sempre coloca em destaque no material de divulgação que o seu serviço é “sem fins sexuais”. Até hoje, ela nunca passou por nenhuma saia justa durante encontros.

? Alguns homens são galantes, mas é um galanteio natural, nunca passou disso. Sempre busco deixar claro que atendo carentes afetivos, e não carentes sexuais ? afirma.

Gleisson Silva, de 18 anos, já foi convidado mais de uma vez por clientes para acompanhá-las até suas casas. Ele mora em Erechim, no Noroeste gaúcho, e conta que resolveu ingressar na profissão há dois anos. Assim como Susiane, a maioria das pessoas que ele atende são mulheres mais velhas, que buscam companhia para ir ao shopping ou ao cinema.

? Já ouvi várias propostas, mas sempre digo que sou apenas amigo ? diz o jovem, que trabalha como auxiliar administrativo de uma empresa, cursa o segundo ano do Ensino Médio à noite e tem uma namorada que aceita muito bem sua profissão.

Foi por ser simpático e saber ouvir que ele resolveu entrar no mercado de amizades. Como sempre era convidado para ir a festas, casamentos e para conversar, ele resolveu encontrar uma maneira de lucrar com isso.

? Atendo até duas pessoas por semana, sempre tento marcar para o fim de semana, para não ter que faltar a aula. O mais comum é ir para o shopping, comprar roupas. As mulheres gostam de ouvir opiniões, perguntar se ficou legal ? explica o jovem, que normalmente cobra R$ 150 por hora.

A divulgação do serviço é feita pelos próprios clientes, que o recomendam para outras pessoas. É o caso do gerente de uma loja da cidade, que preferiu não se identificar. Lendo uma matéria sobre o tema na internet, ele resolveu buscar alguém que prestasse o serviço na cidade. Uma amiga lhe falou sobre Gleisson e eles começaram a amizade há três meses.

? Eu sou muito tímido, tenho dificuldade de me relacionar com as pessoas. Ele é muito extrovertido, está me ajudando a conhecer gente nova ? conta o cliente.

O rapaz afirma que pode ganhar até R$ 2 mil por mês. Este dinheiro tem um destino certo: vai ser usado para pagar a faculdade de Medicina. Ele sonha em se tornar psiquiatra:

? Vou fazer algo parecido com o que faço hoje, escutar as pessoas e dar atenção para elas, mas vai ser mais sério.

O empreendimento de Gleisson e Susiane parece ser simples. Em tese, é preciso apenas divulgar o serviço, criar uma clientela e conversar. Mas, para se manter na área, é necessário ter uma característica cada vez mais rara: não criticar.

? Além de gostar de ouvir, é preciso não ser crítico. Cada um tem sua história de vida, não podemos julgar ninguém ? arremata Susiane.

Leia mais
Comente

Hot no Donna