Pesquisa mostra que crianças com oito anos pensam na profissão que irão seguir

Sucesso na carreira adulta é um dos interesses infantis de atualmente

Entre 8 a 12 anos eles já começam a pensar em carreiras
Entre 8 a 12 anos eles já começam a pensar em carreiras Foto: Stock Photos

Carreira, sucesso e dinheiro são preocupações só de quem já atingiu a maioridade, certo? Errado.

Pelo menos é o que se conclui de uma pesquisa desenvolvida com mais de 1,2 mil crianças, adolescentes e jovens de todo o Brasil, divulgada com exclusividade por Zero Hora, cujos resultados surpreendem: entre os entrevistados de oito a 12 anos, nada menos do que 79% dizem estar muito preocupados com a futura profissão e 76% deles já decidiram que querem ter o próprio negócio.

Aplicados entre março e outubro pela empresa Rohde & Carvalho, os questionários foram respondidos via internet, por brasileiros de oito a 20 anos – divididos entre betweens (de oito a 12) e teens (de 13 a 20). Para atingir o público-alvo, os pesquisadores angariaram participantes das classes A e B por meio de chamamentos nas redes sociais e de contatos com escolas particulares de norte a sul do país.

Entre os gaúchos, os resultados seguiram as mesmas tendências apontadas nacionalmente. Ao todo, 78,2% dos betweens admitiram perder o sono pensando na carreira e 77,6% garantiram que planejam ser donos do próprio nariz, abrindo sua empresa. Quando a mesma pergunta foi direcionada ao universo de 13 a 20 anos, a preocupação quanto à profissão se mostrou ainda mais forte no Estado: 92,4%.

Toda essa obsessão por um futuro empreendedor, acredita a responsável pela pesquisa, Suzana Carvalho, tem relação direta com o desejo de ganhar dinheiro ou ter status – palavras-chave que também alimentam o inconsciente coletivo de teens e betweens.

? Essa geração que tem tudo não quer perder essa condição social, por isso o forte desejo de independência financeira ? analisa Suzana, acrescentando que a tradição gaúcha de empresas familiares pode influenciar.

O professor da Faculdade de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Luiz Carlos Lund diz que o amadurecimento precoce diante da carreira é fortalecido pelo desejo de libertação de empregos formais.

? A diferenciação na remuneração é muito importante para os jovens, que mal chegam nas universidades e já estão trabalhando ? acrescenta o professor.

Contudo, para uma parcela dos teens, ter sucesso não significa apenas escolher uma profissão que os agrade, mas principalmente ganhar dinheiro. No Brasil, 41% dos entrevistados entre 13 e 20 anos responderam que ser bem-sucedido é sinônimo de uma conta bancária gorda (no Estado, 36,4%).

Para o coordenador do curso de Analista em Marketing e Vendas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ricardo Teixeira, a estatística é compreensível no universo de classe média alta.

? Para esses adolescentes e jovens, a qualidade de vida está muito associada aos bens materiais ? aponta.

Segundo Teixeira, essa mudança de comportamento não é exclusividade dos brasileiros, influenciada especialmente pelo avanço da tecnologia. Tanto assim, que 90% dos entrevistados disseram possuir celular, internet e Ipod ou MP4.

? Essas escolhas são cada vez mais conscientes, não apenas pelo estímulo familiar, mas pela massa de informações que chega até eles, seja pela internet, TV, escola ou amigos ? exemplificou.

:: PDF – Entenda a diferença entre os teens e os betweens

Pais devem evitar pular etapas

Para especialistas, a preocupação cada vez mais precoce manifestada por meninos e meninas na escolha da profissão e a inquietação em torno da necessidade de ganhar dinheiro nada mais são do que reflexos de um espelho. A imagem, nesse caso, estaria associada à influência do meio em que vivem e da sociedade – não por acaso marcada pelo fetiche do consumo.

Especializado em terapia infantil, o psiquiatra Renato Piltcher, da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, acredita que, por trás das tendências reveladas pela pesquisa, especialmente entre os entrevistados de oito a 12 anos, estão os valores dos pais. Mesmo inconscientemente, muitos deles depositam uma pressão desproporcional sobre os filhos, fruto de sua própria ansiedade em relação à busca por status e sucesso.

? Preocupa saber que uma criança, em vez de estar brincando, está pensando na carreira. No futuro, o resultado disso costuma ser infelicidade e frustração ? resume Piltcher.

De mesma opinião, a psicopedagoga Fabiani Ortiz Portella, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia no Estado, aconselha os pais a evitarem queimar etapas:

? As crianças têm de brincar, viver, se divertir. Essas fases são fundamentais. Não há problema em perguntar o que querem ser quando crescer, mas falar sério sobre a escolha profissional antes do Ensino Médio é muito precoce e pode até ser prejudicial.

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