Pessoas que moram sozinhas abrem a casa e contam como é a sua rotina

Porto Alegre é a Capital com maior número de pessoas que moram sozinhas; Donna conversou com cinco delas

Beto Conte: "Ficar sozinho é reenergizante"
Beto Conte: "Ficar sozinho é reenergizante" Foto: Felipe Giuriatti

Ter liberdade para fazer o que quiser em um espaço que é só seu é a justificativa que quase todos os que moram sozinhos dão na hora de explicar a opção. São pessoas que não abrem mão de uma boa companhia e que têm rotina de trabalho agitada, mas que fazem questão de chegar em casa no fim do dia e encontrar o seu canto em silêncio.

A cada ano, cresce o número de pessoas que optam por morar só. Entre 2000 e 2010, o aumento foi de 68,3% no Brasil, segundo o IBGE. E o Rio Grande do Sul aparece com destaque no levantamento. O ranking nacional das cidades com mais pessoas morando sozinhas tem Herval, no sul do Estado, em primeiro lugar. Já Porto Alegre é a Capital com maior proporção dos chamados domicílios únicos.

De olho nessa tendência, vários setores do mercado se agilizaram para atender melhor quem vive só e, por isso, têm necessidades específicas. No ramo imobiliário, surgem apartamentos customizáveis, onde o dono pode escolher diminuir a sala e aumentar o quarto, por exemplo. Na área de alimentação, as empresas ficam atentas ao desperdício, pensando em produtos em porções menores. E encontrar no supermercado opções como essas é o desejo de 84,4% dos entrevistados em uma pesquisa realizada pela empresa de consultoria Rohde & Carvalho no Rio Grande do Sul.

O consultor de varejo José Roberto Resende confirma: as empresas estão, cada vez mais, se adequando para atender quem mora sozinho.

– Essas pessoas têm a conveniência como o conceito mais alto na busca de satisfação. Elas não gostam de perder tempo – explica.

É por essa questão que, segundo Resende, quem mora sozinho acaba frequentemente decidindo o que vai comer no caminho do trabalho para casa.

– No Exterior, cresce muito o número de lojas próximas a locais de deslocamento, como metrôs – explica o consultor. – Por aqui, ainda estamos longe disso, mas é um caminho a ser seguido, uma tendência.

Nas próximas páginas, mostramos como cinco pessoas de diferentes idades e profissões se sentem vivendo sozinhas. Elas abrem as casas, mostram seu estilo e garantem: morar sozinho, apesar da conotação melancólica da palavra, não tem nada de triste.

BETO CONTE

Profissão: Empresário e viajante.
Há quanto tempo mora sozinho? Em boa parte de minha vida. Já tive relacionamentos em que morei junto, o que não considerei um problema.
Qual a maior vantagem de ter exclusividade da casa? O controle do tempo e das minhas escolhas.

Ávido por cultura e cheio de energia e entusiasmo, Beto Conte, 51 anos, já viajou por 125 países e fala inglês, francês, espanhol e italiano. Esportista, acorda cedo e começa o dia com passeios com Happy, cadela da raça Weimaraner. Com uma vida movimentada, são raros os momentos em que fica sem companhia.

– Ficar sozinho é reenergizante. Um dos maiores benefícios de morar só é poder oferecer às pessoas que gostamos uma companhia de qualidade, pois estaremos próximos somente quando realmente estivermos dispostos – explica.

Beto se formou em engenharia e arquitetura, mas após descobrir sua paixão pelo turismo, não largou mais a estrada. Há mais de 20 anos, ele é diretor do STB Trip & Travel no Rio Grande do Sul.

A casa de Beto é o retrato da vida que ele leva. Em uma das salas, um mapa-múndi estampa a parede, e artefatos trazidos das viagens são vistos por todos os lados.

Questionado sobre o que não pode faltar na casa de alguém que mora sozinho, o empresário faz uma lista de itens:

– Uma agenda com boas telentregas, como o Curry Express, de comida indiana, bons prestadores de serviço, muitos amigos, filmes e livros. Na minha vida também não pode faltar a Clotilde, que é minha assistente fiel há três anos.

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Foto: Felipe Giuriatti/Especial

TAÍS SCHERER

Profissão: DJ e produtora de eventos
Porto Alegre é uma cidade amigável para quem mora sozinho? Não. Você vai ao supermercado, e as porções não são pensadas para quem mora só. O pão fatiado, por exemplo, sempre acaba estragando. Outra coisa é o preconceito. Se você vai sozinho ao cinema ou a um jantar, as pessoas ficam olhando.

Para a DJ e produtora da festa Balonê, Taís Scherer, 38 anos, a liberdade de morar sozinha é encantadora.

– Não gosto de arrumar a cama, por exemplo, e não quero alguém ditando regras na minha casa – diz ela.

Com uma intensa vida profissional e social, Taís desfruta ao máximo dos poucos momentos em que fica em casa. Entre os programas favoritos, está assistir aos seriados Law & Order e House, sempre agarradinha aos “filhos”, os gatos Madonna e Michael Jackson. Compradora assumida, tem como marca registrada sua paixão por sapatos. Com mais de 300 pares de diferentes estilos, dedica um dos quartos do apartamento a eles.

Morando sozinha há três anos, a DJ encontrou recentemente a saída para não ter mais que pedir ajuda em ocasionais percalços domésticos: contratou um faz-tudo, que resolve desde vazamentos a persianas quebradas.

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Foto: Felipe Giuriatti/Especial

MÁRCIO WEISS

Profissão: Coordenador do Senac Moda & Beleza.
Há quanto tempo mora sozinho? Pouco mais de dois anos.
Por que é tão bom? Ter liberdade, acordar na hora que quero, andar dentro de casa como quero, resolver as coisas como quero, comer o que eu quero.
O que não pode faltar na casa de quem vive sozinho? Muita almofada para se aconchegar!

Para Márcio Weiss, 44 anos, ter liberdade para resolver as coisas do seu jeito é a grande vontade de não dividir a casa com ninguém.

Morando sozinho em Canoas há cerca de dois anos, ele passa a maior parte do tempo em Porto Alegre, onde trabalha.

– É em Porto Alegre também que passeio e aproveito a cidade. Praticamente só durmo em Canoas.

Márcio acredita que os momentos que passa sozinho são essenciais para a reflexão.

– Quando a gente se adapta a essa outra cultura, até viaja sozinho sem se deprimir. Fica acostumado a viver só. E eu adoro esses momentos. Reflito muito durante uma viagem.

Por conta do trabalho, Márcio convive com muita gente e leva uma vida agitada. Sente a necessidade de ficar sozinho por conta disso também. E ele tem um diferencial entre os demais entrevistados desta reportagem: quando a casa precisa de algum conserto, faz por conta própria.

– Se precisar arrumar algo na parte elétrica eu dou um jeito e faço. Porém, preciso de uma pessoa para organizar a casa uma vez por semana. Sou por natureza um cara desorganizado e não encontro nem o básico – brinca.

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Foto: Felipe Giuriatti/Especial

ANA BENDER

Profissão: Empresária e professora universitária.
Porque curte morar sozinha? Para fazer o que estou a fim e dentro do meu ritmo, para optar por não assistir televisão sem ter que argumentar.
O que não pode faltar em casa? Muitos amigos e uma caixa de ferramentas.

Ana Bender, 31 anos, gosta de ser independente. Sócia da loja Monjuá e professora universitária, ela mora sozinha há seis anos e adora um desafio. Em sua casa, mostra com orgulho a estante que montou com as próprias mãos.

A empresária preenche o tempo livre com viagens curtas e descobrindo novos lugares de Porto Alegre com amigos. Mas também garante que não teria problemas em dividir um apartamento com alguém, desde que esta pessoa lhe desse espaço.

Natural de Três Passos, saiu de lá aos 14 anos para estudar em Porto Alegre. Já morou em Barcelona e em Londres. Com uma vida cheia de atividades, aproveita muito bem os momentos de solitude – e raramente de solidão.

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Foto: Felipe Giuriatti/Especial

ANA BEATRIZ GORINI DA VEIGA

Profissão: Professora universitária e pesquisadora de biologia molecular.
Há quanto tempo mora sozinha? Morei sozinha durante um intercâmbio nos EUA. Depois casei, me separei, voltei a morar com os pais e há seis anos moro sozinha de novo. Atualmente tenho namorado e divido meu espaço ocasionalmente com ele.
Porto Alegre é bacana para quem mora sozinho? Não. Por ser uma cidade conservadora, as pessoas ficam olhando se você vai sozinho a um café ou bar. Ao mesmo tempo, por ser uma cidade repleta de tribos, é difícil sair e não encontrar alguém conhecido.
O que não pode faltar na vida de alguém que mora sozinho? Confiança e segurança emocional.

A professora e pesquisadora de biologia molecular Ana Beatriz Gorini da Veiga é também uma atleta premiada.

Corredora conhecida no atletismo gaúcho, é carinhosamente chamada de Aninha por alguns e de Queniana por outros. Ana calcula já ter percorrido mais de 40 mil quilômetros entre treinos e provas.

Seus mais de 60 troféus e medalhas não cabem em seu duplex no Bom Fim, por isso ela teve que armazenar tudo em sua outra casa, no litoral catarinense.

Aos 36 anos, Ana adora o silêncio da casa. Vê nele uma das grandes vantagens de não dividir o espaço com ninguém.

– Antes, eu me via como a filha de alguém. Morando sozinha, descobri minha identidade – diz.

O apartamento tem sua cara e conta sua história. Ana guarda com carinho uma coleção de rolhas, e anota em cada uma delas a data e a ocasião em que a bebida foi consumida. Amante da música clássica, tem um piano de cauda, e relaxa tocando Bach. Tchaikovsky, Mozart e Chopin são algumas das paixões.

Entre as desvantagens de morar sozinha, Ana destaca nem sempre ter companhia para dividir uma garrafa de vinho e não ter com quem dividir as tarefas da casa.

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Morar sozinho nem sempre é mais barato

Um apartamento para uma pessoa só pode sair mais caro do que um imóvel para a família toda. Os novos empreendimentos criados de olho nos que querem morar sozinhos estão vindo recheados com uma série de funcionalidades que fazem o preço subir bastante. Apesar disso, a busca e a oferta vêm aumentando.

– Há pelo menos cinco anos, temos aqui no Estado, empreendimentos para esse público. É um mercado aquecido, com apartamentos que a cada ano se valorizam não só pela procura cada vez maior, mas também pela infraestrutura completa que oferecem – diz Paulo Vanzetto Garcia, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio Grande do Sul.

Um segmento crescente, segundo Garcia, é o de imóveis tipo flex, que dão ao proprietário mais possibilidades de mudar a planta baixa e agregam um bom kit de serviços.

– Quem mora sozinho busca conforto e praticidade. A pessoa quer um bom lugar para morar, mas que ofereça também espaço para fazer academia e serviço de café da manhã ou de camareira para quando precisar – completa Garcia.

Casa planejada

Alguns serviços oferecidos em imóveis projetados especialmente para pessoas que moram sozinhas:

– Lavanderia coletiva, para não ter que acomodar máquina de lavar e secadora num apartamento pequeno.

– Salão de festas em estilo pub, pronto para festas mais informais.

– Controle da casa por meio do smartphone, para o dono apagar as luzes ou baixar persianas remotamente.

– Áreas dentro do condomínio para passear com o cachorro, proporcionando mais segurança.

Conectados, exigentes e estressados

Dados de pesquisa realizada pela consultoria Rohde & Carvalho mostram o perfil de quem mora sozinho no Rio Grande do Sul

55,9% moram em imóvel próprio
91,2% usam a internet para acessar as redes sociais; 86%, para ler notícias
49,2% estão dispostos a pagar mais caro por uma marca que comprove, de forma clara, que tem práticas sustentáveis
55,2% dos entrevistados com até 35 anos disseram ficar estressados constantemente

A campeã

Herval, no sul do Estado, é a cidade brasileira onde mais pessoas moram sozinhas. O ranking do IBGE que coloca a cidade de pouco mais de oito mil habitantes em destaque, traz na lista das primeiras colocadas outros municípios de Interior. Segundo o instituto, em cidades distantes das grandes metrópoles, o percentual de pessoas que moram só costuma ser maior.

1º Herval (RS)
2º Cedro do Abaeté (MG)
3º Ponte Branca (MT)
4º Araguainha (MT)
5º Córrego Danta (MG)

Confira making of do ensaio fotográfico com os personagens desta reportagem

Produção de moda

Ana Guerra (Mundo Cult) e Queli Giuriatti (QG de Estilo)
Styling: Kamila Hugentobler (Complè)
Beleza (Mirage Intercoiffure): Ane Cesar, Jonatan Bedin, Maikel Matos, Milena Medeiros, Natacha Rosa e Paula Borde.
Lojas que participaram deste editorial Andreia Grezzana, Budha Khe Rhi, Conceito Giovanella, Design Tun, Dimitri, Gabriela Verri, Karen Raissa, Kildare, Louloux, Makumba, Monjuá, Mo’s, Renner, Spirito Santo, Taís Aranha, Units e Zeket

Para informações sobre o contato das lojas que participaram deste editorial, ligue ou escreva para o Relacionamento com o Leitor de Zero Hora. Telefones: (51) 3218.4335 e 3218.4332. E-mail: leitor@zerohora.com.br

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