Por trás da passarela

Em geral, os trabalhadores que dão vida a um desfile de moda são autodidatas, mas há uma tendência à profissionalização, com cursos em áreas diversas

Foto: Franco Rodrigues, Divulgação

O desfile começa e a beleza enche os olhos do espectador. Roupas elaboradas, modelos com cabelo e maquiagem impecáveis. A luz é coreografada de acordo com a música. Tudo é suntuoso, com o intuito de vender o produto a quem está na plateia. Mayara Drumond, 21 anos, é fascinada por esse ambiente e quer trabalhar com isso quando terminar a graduação em design de moda. No mês passado, ela e outros colegas de faculdade tiveram a oportunidade de ajudar nos bastidores de um evento de moda realizado na cidade. “A gente aprende bastante, porque rala muito no backstage (espaço atrás da passarela, onde toda a preparação é feita). Dá para saber como é realmente esse mundo.”

Mayara faz parte de uma nova geração de profissionais do ramo, da qual o mercado exige mais que vários anos de experiência na prática. O coordenador do curso de design de moda do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), Marco Antônio Vieira, acredita que a graduação universitária é crucial para qualquer pessoa que queira trabalhar com a área. “Hoje em dia, você ter uma formação específica na área é um currículo. É importante também vivenciar os bastidores de um evento como esse durante o período de formação. Além de toda a vivência das especificidades do trabalho, os alunos usam isso para criar redes de relacionamentos profissionais”. Assim como o Iesb, o centro universitário Unieuro também oferece curso em design de moda no Distrito Federal.

Mas o que ocorre nos bastidores de um desfile está bem longe do luxo que uma passarela costuma possuir. O diretor de desfiles Reginaldo Fonseca confirma: este mundo não é o que boa parte do público pensa. “A grande maioria dos estudantes de moda é atraída pelo glamour e tem uma visão muito equivocada. Acha que fazer desfile é chegar uma hora antes e botar a roupa na modelo. As pessoas não têm noção de que quem faz moda tem de limpar sapato. Já fui assistente e já limpei o chão. E se precisar, limpo até hoje”, comenta.

Atrás das cortinas

No backstage do Park Fashion, desfile realizado no Park Shopping no mês passado, a equipe do maquiador e cabeleireiro Marcelo Sath transforma as modelos que estão prestes a cruzar a passarela. Envolvido com pincéis e tesouras desde a década de 1980, quando fez três meses de curso de maquiagem, ele conta que teve na prática sua maior escola. “Eu maquiava as amigas, também me pintava, ia testando”, revela o profissional, que chega a compor, sozinho, o visual de 15 meninas para um evento.

Toda a formação de Sath foi em São Paulo, onde ele mora. Mas também há diversas oportunidades de capacitação para quem está em Brasília e se interessa pela carreira. Uma delas está no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, o Senac, que oferece tanto cursos na área de cabelo como na de maquiagem. No caso da qualificação para cabeleireiro, são 400 horas de aula, mais estágio em um salão parceiro do órgão. Já para quem quer aprender a usar sombra, rímel e blush, a instituição oferece 60 horas de treinamento. Além da carga horária distinta, os custos dos dois são bem diferentes. Enquanto o primeiro requer um investimento de R$ 1,4 mil, divididos em até sete vezes, o segundo exige uma quantia menor: R$ 240, em até duas parcelas.

Há no DF ofertas de cursos para os diferentes bolsos. Empresas como a Faculdade do Cabeleireiro, no Setor de Diversões Sul; a Fernando Alves Hair Academy, no Comércio Residencial Sul; e o Instituto Embelleze, com postos em Ceilândia Norte, no Gama, em Samambaia, em Sobradinho e em Taguatinga, oferecem aulas que variam de R$ 200 a R$ 3,5 mil para cabeleireiro e de R$ 100 a R$ 1.080 para maquiador. O tempo investido também varia: algumas escolas prometem capacitar novos profissionais em dois dias, outras exigem seis meses para isso.

Os shows de moda, contudo, envolvem muito mais profissionais do que aqueles ligados à beleza. Para preparar todo o espaço em que as modelos desfilarão, por exemplo, é necessária bastante mão de obra. O promotor de eventos Bob Camacho conta que precisa de uma equipe com diferentes capacitações no preparo das estruturas que abrigam esses eventos. “A gente chama tapeceiros, marceneiros, serralheiros, carpinteiros, montadores”, explica o autodidata que participa de todo o processo de montagem, da construção à decoração. Também é ele quem escala as pessoas que cuidam da sonorização e da iluminação das passarelas.

Luz, música, ação

E é de uma boa iluminação, inclusive, que depende muito o sucesso de um desfile. É necessário combinar a luz com música e cenografia, e mostrar as criações dos estilistas de maneira que elas sejam vistas como se estivessem em uma vitrine. O coordenador do curso de design de interiores do Iesb, Eliton Brandão, comenta: a luz pode determinar o êxito ou a derrota de um show de moda. “A iluminação do desfile tem de ser confortável aos olhos de todos os espectadores e, ao mesmo tempo, suficientemente clara para que todos vejam os looks, as cores. Com ela, posso filmar, televisionar e fotografar. Tem de ser pura na reprodução da cor do objeto, porque o público deve enxergar a proposta do estilista.”

Esse é exatamente o trabalho de Carlos Alberto França, 50 anos, que comanda os equipamentos de luz e áudio durante eventos. “A gente tem que fazer o melhor para que as pessoas se sintam bem, para não incomodar”, ressalta. Com oito anos de experiência, o técnico explica que toda a estrutura de luz é pensada de acordo com o tamanho e o tipo de passarela, o que requer versatilidade de quem está por trás dos holofotes. “Isso é o legal da profissão”, comenta. Para quem quer começar a trabalhar na área, o professor Brandão acredita que o melhor a ser feito é procurar uma graduação. “Tem que ir atrás de uma boa instituição de ensino.” Assim, o ideal é recorrer aos cursos de arquitetura e design de interiores.

O universo das passarelas também é uma excelente oportunidade para os DJs. “Meu trabalho é feito com os estilistas. Ajudo a escolher trilhas e mixar as músicas de acordo com a ideia do desfile”, explica o DJ Elyvio Blower. Para ele, a formação que é encontrada atualmente na internet pode não ser suficiente. “Hoje em dia dá para achar tudo na rede. Mas para agilizar, eu recomendo fazer algum curso, porque nele a pessoa aprende o ‘pulo do gato’: os detalhes dos softwares, os macetes de produção”. No caso do DF, uma alternativa é procurar as capacitações da Escola Técnica de Brasília, que conta com turmas de fundamentos de áudio e operador, com inscrições a partir de maio.

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