Prazeres que só o verão proporciona

Além da praia, outros prazeres marcam a estação e ficam na memória

Sol e calor do verão estimulam atividades ao ar livre
Sol e calor do verão estimulam atividades ao ar livre Foto: Flávio Neves

O mais comum é associar verão à praia. Mas existem outros prazeres da estação que marcam as pessoas. Coisas pequenas, que parecem bobas, mas com alto valor simbólico. No pano de fundo, é comum haver envolvimento da família e amigos. Passado algum tempo, esses momentos são lembrados com carinho, afeto e saudade. Acontecimentos da infância são um exemplo que todo mundo tem.

Estes pequenos prazeres são geralmente ignorados no dia-a-dia, quando a maioria está mais preocupada com trabalho, contas a pagar, trânsito caótico e recuperar as noites de sono mal dormidas. Mas nas vezes que as pessoas param para pensar a vida descobrem que coisas bobas importam muito mais que a rotina estressante. Ocorre que muitas vezes essa revelação vem tarde demais, meses ou anos após a oportunidade passar. Daí são ditas aquelas frases “eu era feliz e não sabia” ou “naquele tempo é que era bom”.

Liliane Silveira Silva, 63 anos, aposentada

Sentar na área e tomar chimarrão com a filha é motivo de muita felicidade para Liliane. No meio das manhãs de verão, antes de começar o almoço, as duas levam a garrafa térmica para o local e ficam conversando enquanto a cuia passa de mão em mão. Não há televisão ou rádio ligado, só a companhia uma da outra. A única interrupção são os netos que, eventualmente, aparecem.

? É um momento muito família ? resume a aposentada.

O verão é a única época em que Liliane usa a cuia. No restante do ano, a filha e os netos estão em São Paulo. O marido não gosta de chimarrão e ela conta que sozinha não tem graça. A aposentada comemora que os familiares aparecem justamente na estação mais quente. Explica que nesta estação a sede aperta e o mate desce ainda melhor.

Edmilson Porto, 42 anos, funcionário público

No verão, ele gosta de jogar futebol na areia. A partida começa no final de tarde, horário em que a praia está menos cheia e a temperatura mais amena. 

O grupo de amigos chega preparado. Pequenas peças de alumínio se encaixam e formam as traves que têm até rede. Como ninguém se dispõe a ser goleiro, correndo o risco de e esfolar ou tomar bolada, a disputa é no gol fechado.

Edmilson diz que, terminado o jogo, todos os caminhos levam ao mar. Suado e com areia até dentro da orelha não tem nada melhor. 

O passo seguinte é repor os líquidos perdidos. Na linguagem dos peladeiros significa sentar num bar para tomar cerveja e bater papo. A conversa sempre começa com os vencedores gozando dos perdedores. Ao final do dia, o funcionário público só quer cair na cama e dormir. Ele conta que chega em casa cansado, mas feliz da vida.

Vanessa Dinali, 29 anos, professora

Boa da cabeça, a professora de Matemática gosta de samba. Vanessa diz que no verão a batucada é melhor. Por usar menos roupas tem mais liberdade de movimentos e pode caprichar nos passos. Não tem aquela preocupação com o casaco deixado na cadeira nem risco de esquecer o guarda-chuvas.

Ela curte mesmo é dançar com o noivo, com quem está há cinco anos. Apesar de ensaiarem durante todo este tempo, diz que o casal ainda tem muito a melhorar.

Vanessa ressalta que a roda de samba cresce no verão. Aparecem jovens que vão arranjar namoro, casais e até integrantes da velha guarda das escolas de samba de Florianópolis. Gente que usa chapéu Panamá, terno branco e sapato bicolor. A professora adora esta diversidade. O repertório também agrada. Em cada ocasião ela ouve bastante samba de raiz.

Natália Paiva, 11 anos, estudante

O ponto alto do verão para a garota é passar o dia na piscina com as amigas. Não que ela deteste praia, mas a mãe a proíbe de acompanhar as colegas nas idas para o mar. 

? Só pode com a família ? esclarece.

Na piscina, Natália tem liberdade. Passa o dia brincando com a boia, dá mortais na água, toma banho de sol e bate corridas. A garota não é a Cesar Cielo da turma. Costuma frequentar degraus do pódium mais abaixo que o campeão olímpico e mundial. 

Há um momento do dia que a estudante aprecia com carinho especial ? a hora do almoço. Ela conta que se sente muito chique. 

À tarde, tem outra dose de vida boa. É hora das opções para amenizar o calor. Refrigerante e sorvete são as pedidas mais comuns. Se dependesse da estudante todos os dias de verão seriam assim.

Renata Rocca, 19 anos, vendedora

Por um short, vestir uma camiseta leve e calçar um tênis surrado e confortável. Colocar alguns itens essenciais na mochila e pronto. Renata esta equipada para fazer trilha, passatempo preferido no verão. 

Na volta para casa, a câmera fotográfica está com a memória lotada, porque a garota repara em tudo: paisagem, flores, árvores, nascentes d’água, animais, mar e o que mais aparecer de diferente. A vendedora diz que se o passeio acabar numa cachoeira ou praia melhor ainda.

A presença dos amigos é outro atrativo da trilha. Na companhia deles fica mais fácil aguentar três horas de caminhada. O grupo vai cantando ou fazendo piada dos colegas. 

A chegada ao destino depois de quilômetros sob sol forte é desculpa para encher a barriga. Cada um leva uma coisa: refrigerante, bolachas, salgadinhos e sanduíches. Renata só lamenta que ninguém seja bom na cozinha, por isso todos tem de comer sanduíches meia-boca. Mas fala que a caminhada abre o apetite e qualquer coisa desce fácil.

Matheus Frota, 18 anos, trabalha no departamento administrativo de uma empresa

Ele não considera a praia algo ruim, até gosta. Mas ficar largado no sofá jogando videogame também está valendo. Na tela da televisão, Matheus faz coisas proibidas e impensadas no mundo real. 

O jogo do momento no grupo de amigos é The Godfather (O Poderoso Chefão). Pelo título, dá para imaginar o que o rapaz está querendo dizer. Muitos crimes acontecem quando o power do Play Station 2 é acionado.

Matheus afirma que é preciso mostrar muita habilidade com os dedos e pensar rápido para passar as fases. Se está difícil de bater os inimigos, melhor ainda. Dá para passar o dia todo no sofá. 

Uma pausa para comer só se a refeição for fácil de preparar. Vencidas as dificuldades, é hora de encontrar os amigos e narrar os avanços. Se bem que no momento está difícil contar vantagem. O rapaz admite que os colegas estão bem à frente dele no jogo.

Raul Willian de Souza, 12 anos, estudante

Brincar na rua é o maior prazer do verão para o menino. Ele passa o dia se revezando entre as brincadeiras favoritas: soltar pipa e jogar futebol. O garoto se descreve com um zagueiro de qualidade, virtuoso e nada carniceiro. 

Antenado, Raul lembra que a vida mansa só é possível porque as férias chegaram. As preocupações com aulas, provas ou notas ficam para fevereiro.

O menino também gosta muito de visitar os avós, não importa se os maternos ou paternos. Não que ele faça atividades fora do habitual. A programação continua sendo o revezamento entre jogar bola e soltar pipa. A diferença é que quando volta para casa sempre tem algo bom para comer. O cardápio varia entre bolo, nega maluca, cuca e o que mais a corujice inventar.

Marcos Teixeira, 43 anos, turista paulista

Ler e frequentar locais históricos das cidades visitadas, este é o programa ideal de verão na opinião de Marcos. Com o livro O Menino do Pijama Listrado nas mãos o paulista diz que a leitura ao ar livre é muito mais saborosa. Por este motivo, ele comemora os dias ensolarados. 

Acrescente que é uma oportunidade de caminhar até prédios históricos, onde encontra um banco para sentar. A leitura flui até o estômago avisar que é momento de parar um pouco. Uma consulta no relógio revela se é hora de uma refeição reforçada ou apenas um cafezinho. 

Marcos gosta bastante de livros de viagem. Explica que são resultado de pesquisa mais aprofundada. Foi desta maneira que descobriu que o Mercado Público de Florianópolis, lugar escolhido para almoçar, já esteve em contato com o mar.

Calor e sol ajudam a socializar

Com o sol, as pessoas têm uma convivência diferente em sociedade, relacionam-se melhor uns com os outros, pois estão mais dispostas. A explicação é do psicólogo Ivens Wolff, que diz que isso é uma característica cultural. 

Segundo Wolff, as culturas latinas, que vivem perto da Linha do Equador e ao litoral são culturalmente mais soltas, têm uma aceitação melhor do próprio corpo e da sexualidade. Por outro lado, os povos nórdicos, que têm pouca exposição ao calor e luminosidade do dia e, em alguns casos, passam meses sem ver a luz do sol, contam com as maiores taxas de suicídio e depressão no mundo. 

? Quando você sai de casa num dia nublado, por exemplo, parece que os contatos são diferentes. O sol está culturalmente associado à felicidade ? completa.

No caso dos povos nórdicos, o problema também é biológico, pois nosso equilíbrio emocional precisa da ação de neurotransmissores que estão relacionados à exposição ao calor e à luminosidade, que são maiores nessa época do ano. Um ambiente ensolarado durante o dia ajuda no equilíbrio do corpo. 

Isso não quer dizer, segundo Wolff, que num dia nublado as pessoas devam, necessariamente, sentir-se mal. Mas, se nem com o calor e o sol você consegue se animar, é bom ficar de olho. Wolff explica que esse comportamento pode estar relacionado a um quadro depressivo ou a alguma patologia na psiqué. A indicação do psicólogo é que a pessoa procure um terapeuta para descobrir a origem do problema.

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