Pré-adolescentes trocam beijos cada vez mais cedo

Pouco tempo atrás, a maioria começava a se interessar pelo sexo oposto aos 14 anos, hoje a curiosidade surge por volta dos 11

Festas de aniversário são os locais mais comuns para primeiro beijo
Festas de aniversário são os locais mais comuns para primeiro beijo Foto: Nina Malyna

Na noite, eles trocam beijos e telefones. No outro dia, em vez de ligar para fazer convites, passam trote. É assim mesmo, na brincadeira, entre o adulto e o infantil, que os pré-adolescentes começam a se relacionar – cada vez mais cedo – com o sexo oposto.

– Questão de quatro anos atrás, eles começavam a “ficar” com 14 anos. Hoje, com 11 anos, a maioria já experimentou – diz a pedagoga Nileia Monte Schmitt, especialista em série iniciais.

Para os pais apavorados, calma. O “ficar” deles geralmente não ultrapassa os lábios colados. Para entender melhor o que acontece, Zero Hora conversou com um grupo de 10 alunos do 6º ano de uma escola particular de Porto Alegre.

– Funciona assim: o menino chega e pergunta “quer ficar comigo?”. Se não, vai embora. Se sim, dá um beijo e depois vai embora – simplifica Ana*, 12 anos.

Entre as ocasiões em que meninos e meninas se encontram, estão as festas especializadas para o público. São eventos com lotação mínima de 300 pessoas e que ocorrem periodicamente em alguns clubes da Capital gaúcha, sem bebida alcoólica. A idade permitida para a entrada varia entre 10 e 15 anos (veja abaixo). Uma espécie de “bailinho” reformulado.

Os organizadores e os próprios frequentadores consultados afirmam que é muito difícil o “ficar”, nessa idade, chegar ao ponto de rolar “mão-boba” ou carícias mais ousadas. Aliás, Ana revela que, na maioria das vezes, não há muito bate-papo ou troca de perfis em redes sociais e números de telefone celular.

– Nessa faixa etária, eles, normalmente, não querem namorar. Querem testar. Então, dão beijos na boca e andam de mãos dadas. Já a curiosidade pela relação sexual surge um pouco mais à frente, a partir dos 14 anos – avalia a psicóloga Alice Peres Duarte.

Aprenda a lidar com o despertar da sexualidade de seu filho

E foi-se o tempo da intimidade das reuniões dançantes. Hoje, segundo a turma, os eventos mais caseiros são as comemorações de aniversário, em salões de festas de amigos e colegas. Aliás, é nessas oportunidades – e não nas danceterias – que a maioria perde a “BV” (“boca virgem”) ou a “BVL” (“boca virgem de língua”).

– A gente joga verdade ou consequência. A prenda para quem pede consequência é geralmente um selinho (beijo sem língua) – conta Renato, 12 anos.

Quem não entra nesse ritmo, pode acabar até um pouco discriminado, segundo duas meninas da turma. Rita e Bruna, ambas de 12 anos, nunca beijaram. A família das duas não as deixa ir a festas. Uma jura que não tem nem curiosidade, e outra confidencia baixinho “eu até tenho, mas, né…”. Elas contam que os colegas pegam no pé – mas eles negam, entre risos.

Segundo Alice, não há resposta certa sobre os limites do que o filho pode fazer. Depende do diálogo e da confiança estabelecidos em casa.

* Os nomes foram trocados para preservar a identidade dos pré-adolescentes.

Na minha época não era assim…

E não era mesmo. Os profissionais entrevistados têm notado que o despertar para a sexualidade está ocorrendo mais cedo. A própria faixa etária que abrange os pré-adolescentes está sendo revista:

– Embora seja mais comum dizer que vai dos 10 aos 12, 13 anos, alguns autores falam que a fase se inicia aos nove anos – informa a mestre em educação Gilda da Silva Proença, coordenadora dos anos finais do Ensino Fundamental de uma escola de Porto Alegre.

Os motivos apontados são a maior exposição da sexualidade na mídia e o incentivo pelos meios de comunicação.

– O estímulo pode vir do grupo também, como algum colega que envia uma página de internet com conteúdo inapropriado para a idade – diz a psicóloga e terapeuta ocupacional Claudine Von Saltiél.

Guia para os pais

Ainda com dúvidas? Veja o guia para os pais sobre o despertar da sexualidade dos filhos. Algumas questões sobre o tema foram respondidas pela psicóloga e terapeuta ocupacional Claudine Von Saltiél. 

A visão dos pais

De um lado, uma geração acostumada a ter acesso a qualquer informação com um clique. De outro, pais que cresceram em um ambiente onde vários assuntos eram tabus. Como conciliar os pensamentos de diferentes gerações para ter filhos mais responsáveis e conscientes? Essa tarefa exige respeito e enfrentamento de problemas antigos.

– Antigamente, certos assuntos eram proibidos, como a sexualidade. Então, é comum que os pais de hoje fiquem sem saber o que responder quando são questionados pelos filhos sobre esse tema – avalia a psicóloga e terapeuta ocupacional Claudine Von Saltiél.

Regina*, 34 anos, teve uma educação sem abertura para muita conversa:

– Quando perguntávamos qualquer coisa, minha mãe dizia: “Deixa de besteira, guria”.

Hoje, a técnica de enfermagem tenta o caminho inverso com os dois filhos, uma de 13 anos e outro de 15 anos.

– Sempre deixei claro: é melhor contar toda a verdade, mesmo que eu não goste. Pois se eu sei, posso ajudar.

A tática parece estar funcionando. A mais nova se sentiu confortável para abrir o coração para a mãe e contar que anda apaixonada. Comentou até sobre o primeiro beijo, que ocorreu há pouco tempo.

– Não disse que estava errado. Falei que achava cedo, que não queria receber ligação da escola reclamando, mas não dei castigo. É preciso deixar o diálogo aberto – aconselha Regina.

De acordo com Claudine, um refúgio para os pais que não conseguem lidar com o despertar sexual dessa fase é delegar a função para terceiros: psicólogos, colégio, professores, TV. Mas, cuidado: a dificuldade em lidar com o assunto pode até estar relacionada a problemas com a própria sexualidade, salienta Claudine.

Algumas festas dos quase adolescentes em Porto Alegre

Teens Dancing ou “Toddynho”

Quando: realizada mensalmente. A próxima será em 14 de setembro, das 20h à 1h

Faixa etária: 11 a 15 anos

Onde: Grêmio Náutico União

Ingresso: entre R$ 15 e R$ 35

Lotação: 800 pessoas

Segurança: há de 11 a 15 seguranças. Pré-adolescentes só são liberados da festa se estiverem acompanhados de responsáveis. Não há venda de bebida alcoólica, e, na entrada, é obrigatória a apresentação de documento para comprovar a idade

Festa Teen

Quando: acontecia de dois em dois meses, mas a regularidade está em redefinição. A próxima será em 26 de outubro, das 20h à meia-noite

Faixa etária: 10 a 14 anos

Onde: Salão Ipanema da AABB Porto Alegre

Ingresso: gratuito para associados. Para não sócios, de R$ 20 (antecipado) a R$ 25 (na hora)

Lotação: mil pessoas

Segurança: há 20 seguranças. Não é permitido o uso de boné ou mochila e não há venda de bebida alcoólica. Na entrada, é obrigatória a apresentação de documento para comprovar a idade

Balada Teen

Quando: de três a quatro vezes por ano. A próxima será em 26 de outubro, das 20h à meia-noite

Faixa etária: 11 a 14 anos

Onde: Salão Hannover, dentro da Sede Social da Sogipa

Ingresso: de R$ 15 a R$ 25

Lotação: 300 pessoas

Segurança: número de seguranças compatível ou superior para o tamanho da festa. Não há venda de bebida alcoólica, e, na entrada, é obrigatória a apresentação de documento para comprovar a idade

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