Presença de amor: o apoio carinhoso das doulas de parto

Donna revela histórias de quem dedica a vida a ajudar as mulheres no momento mais intenso e marcante de suas vidas: a hora de tornar-se mãe

Dedicada, amorosa e de enorme vocação, Mariana Zanotto Alves quebrou o mito de que é preciso ter filhos para ser uma boa doula
Dedicada, amorosa e de enorme vocação, Mariana Zanotto Alves quebrou o mito de que é preciso ter filhos para ser uma boa doula Foto: Júlio Cordeiro

Enquanto o bebê não chega, elas aconselham, orientam, zelam. Espreitam por entre as ansiedades das quase mães, aguardando o momento de estender a mão carinhosa na direção das suas dores. Quando é hora, acompanham, ajudam, defendem. Acolhem a nova vida e anunciam uma vida nova para o pai e a mãe que acabaram de receber o pequeno presente. Elas não são mães, madrinhas, irmãs, amigas. Não são enfermeiras, parteiras, médicas. São doulas.

Conheça o trabalho de mais três companheiras de mães e bebês

Profissão que ganha cada vez mais adeptos no Brasil, a doula de parto era figura desconhecida até pouco tempo atrás. Depois que celebridades passaram a divulgar os benefícios do parto humanizado, com menos medicamentos, hospitalizações e, principalmente, cesáreas, a figura da doula passou a ser mais popular. Gisele Bündchen, que fez o parto dos dois filhos em casa, foi acompanhada por uma doula e virou uma espécie de porta-voz desse estilo de nascimento, escolhido por cada vez mais famílias.

O ofício que antigamente era praticado pelas matriarcas das famílias, irmãs e tias, ganhou a ajuda de cursos de formação para se disseminar. Uma das estrelas desse mercado no mundo é a brasileira Ana Paula Markel, que há anos trabalha como doula e instrutora nos Estados Unidos – país em que esta figura é requisitada há muito mais tempo.

O Bini Birth, estúdio onde Ana Paula ministra seus cursos e workshops, fica no bairro de North Hollywood, em Los Angeles, e já recebeu personalidades como Penélope Cruz, Alanis Morissette, Christina Applegate e as modelos brasileiras Michelle e Camila Alves – além de uma infinidade de outras mulheres que a contratam para que acompanhe seus partos ou que buscam nela o conhecimento para seguir essa profissão.

Algumas vezes por ano, Ana Paula vem a São Paulo ministrar cursos para novas doulas, mais concorridos a cada edição. Por aqui, não há notícia de “doulos”, mas em outros países já há homens praticando esse ofício. Poucos, mas há.

Hoje, a atividade já é lucrativa, inclusive no Brasil. Uma doula experiente tem clientela de sobra e pode cobrar o que considerar justo – o assunto preço é, normalmente, tratado com discrição por aqui, mas nos Estados Unidos o serviço pode variar de US$ 700 a US$ 3 mil.

Dinheiro, no entanto, parece ser a menor das motivações das doulas com quem a reportagem de Donna conversou. Ajudar mulheres a terem um parto menos traumático, mais humano, tranquilo e que respeite suas vontades, além de auxiliar a família na lida com o bebê, é o que realmente encanta quem escolhe este caminho. Para todas elas, é mais do que uma profissão, mais do que uma escolha. Ser doula é um ato de amor.

Encantadora de mães e bebês

? Todo mundo merece ter uma doula!

A exclamação contundente vem de uma das mais respeitadas doulas do país, também conhecida como a Encantadora de Bebês. Ela tem uma carinha de menina, que deixa a impressão de ser ainda mais jovem dos que os 28 anos atestados pelos documentos. Mas não se engane.

Conheça o trabalho de mais três companheiras de mães e bebês

Quando o assunto é a preparação e a hora do parto, os cuidados com o recém nascido, amamentação e todos os demais detalhes que envolvem a chegada de um bebê, entra em cena a Super-Mari – apelido que faz uma livre associação com a sua colega mais famosa, SuperNanny. Mariana Zanotto Alves começou a cuidar de crianças ao se mudar com a família para os Estados Unidos, quando tinha 11 anos. Prática comum por lá, trabalhou anos como “nanny”, tomando conta de crianças nos finais de semana. Logo ficou famosa na vizinhança pela competência que, àquela altura, era apenas instintiva.

? Lembro que eu ganhava US$ 12 por hora. Era muito dinheiro – diverte-se.

Aos 17 anos, resolveu sair de casa e pagar a faculdade de sociologia. Virou, então, uma “nanny” profissional, que cuidava de todos os aspectos da vida das crianças, como rotina e alimentação. Foi ganhando clientela rapidamente, o que a motivou a fazer cursos sobre o cuidado com os pequenos. Não demorou muito para largar a universidade, investir na formação e tornar-se doula de parto e pós-parto.

Hoje, Mariana cuida da preparação do casal para o parto, assiste a mulher no momento do nascimento, acompanhando todo o processo e ainda dá consultoria para a adaptação ao bebê. Chega a ficar com famílias até que a criança complete três anos. Sua ajuda é preciosa em situações prosaicas como choro noturno, sono desregulado, alimentação e estabelecimento de uma rotina para o pequeno e os pais.

Há cerca de três anos, Mariana deixou os Estados Unidos, casou-se com um gaúcho e veio morar em Porto Alegre.

? Voltar para o Brasil foi a melhor decisão que tomei.

Já contabiliza o atendimento a mais de 90 famílias no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Paraná. Também tem clientes remanescentes nos Estados Unidos, onde atendia celebridades – de quem ela não revela o nome, por ética.

A surpresa: apesar de toda a destreza com que acalma um bebê aos prantos ou da segurança com que lida com a hora do parto, Mari não tem filhos. Deseja tê-los, mas por questões de saúde ainda não encarou a tão sonhada gestação.

? Não é preciso ser mãe para ser doula. É preciso ter muito, mas muito amor pelo que fazemos, isso sim.

Essa é a profissão de Mariana, ofício pelo qual cobra seu preço. Mas considera o que faz tão importante que também trabalha voluntariamente, atendendo famílias ou respondendo à enxurrada de e-mails que lhe chega todos os dias. Seu sonho é ter, ela também, uma doula para a futura gestação e o parto. Mas não qualquer uma. A eleita é sua mãe, que trabalha como doula há 18 anos nos Estados Unidos e lhe transmitiu a paixão por cuidar das mulheres e de seus filhos.

Como ela mesmo diz, quem cuida de tanta gente também merece essa presença de amor.

Ser doula é…

A palavra doula é de origem grega e significa “a que serve”. Uma mulher mais experiente que acompanha a parturiente era comum no tempo das nossas avós. O costume foi tornando-se menos usual à medida que os nascimentos passaram a ser programados por meio das cesáreas, nos hospitais. A busca pelos chamados partos humanizados, que utilizam menos medicamentos e recorrem à cirurgia somente em casos extremos, trouxe de volta à cena a figura da doula. São essas profissionais que lutam para disseminar a ideia de que é possível ter nascimentos mais naturais, desde que seja a vontade da mãe.

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