Qual o seu medo? Alguns temores comprometem a rotina e precisam de tratamento

Se o seu medo de rato parece uma cena do filme "Poltergeist", está na hora de procurar ajuda
Se o seu medo de rato parece uma cena do filme "Poltergeist", está na hora de procurar ajuda Foto: Divulgação

Sentir medo é bom. Não acredita? Então, pense nisso: o medo nos deixa em alerta e nos prepara para lutar ou fugir diante de uma determinada sensação de perigo. Se você dirige com cautela, é porque teme sofrer um acidente.

Se modera na alimentação e faz exercício físico, mais do que pela estética, você faz isso porque tem medo de sofrer um infarto e morrer. Se olha para os dois lados antes de atravessar a rua, é porque tem medo de ser atropelado.

Segundo o psicanalista Carlos Augusto Remor, do curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), estes exemplos são de medos externos, que vêm da realidade. Existe, entretanto, um outro tipo de medo. São os internos, fruto da nossa psique ou de nossas neuroses. Irracionais, muitas vezes, mas que atrapalham muito o nosso dia a dia.

Carolina Silva, por exemplo, morre de medo de rato.

? Não é só nojo. Isso qualquer pessoa sensata sente, já que o bicho vive nos esgotos e no meio do lixo. Tenho medo de verdade. Pânico até. O rato pode estar do outro lado da rua. É só eu enxergá-lo para ficar paralisada de pavor ? ela conta, muito séria.

Ratos, aranhas, cobras, baratas e sapos são os campeões de votos, quando se trata de animais que metem medo nas pessoas. Claro que todos nós tememos crocodilos e leões, mas a chance de cruzar com um ? que não seja no zoológico ou num safári na África ? é muito remota. Por isso, vamos nos ater aos nossos medos de cada dia.

O psiquiatra Leonardo Gama Filho, da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), diz que quando o temor que sentimos de um determinado animal, objeto ou situação é tão irracional que chega a nos paralisar, isto não é mais medo: torna-se uma fobia.

Conte para a gente: você tem medo de quê?

Psicologia para tratar

O psicanalista Carlos Augusto Remor, da UFSC, explica que a necessidade de tratamento depende do nível do medo e dos problemas que esse temor exacerbado ocasionam na vida da pessoa.

? Medo de escuro em criança é normal. Medo de escuro em um adulto que o faz ter de dormir de luz acesa e que pode prejudicar seu relacionamento com a companheira, já é algo que precisa de ajuda médica ? exemplifica.

O tratamento, diz ele, é psicológico, pois não existe remédio para isso.

? O medo é o sintoma, o efeito de um problema que precisa ser esmiuçado e resolvido ? explica.

Só na carona

O escritor Jair Francisco Hamms, 75 anos, não encara a direção de um veículo há 24 anos. O motivo: lá em 1986, ele dirigia na Avenida Beira-Mar, em Florianópolis, quando, num lapso, quase atropelou uma pessoa.

Naquele dia, Jair decidiu: dali para a frente não correria mais o risco de ferir alguém no trânsito.

? Se eu tivesse atropelado aquele rapaz, carregaria pelo resto da vida um sentimento de culpa insuportável.

Desde o incidente, a única pessoa em quem Jair realmente confia ao volante é a sua mulher, Lúcia.

? Com ela eu tenho muita segurança. Coisa que não sinto com nenhuma outra pessoa, como a minha filha, por exemplo.

Lugar fechado? Nem pensar!

O medo se torna doentio quando causa prejuízo em algum aspecto importante da vida ? na vida profissional, pessoal ou no lazer ? explica o médico Tito Paes de Barros Neto, do Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de São Paulo. Autor do livro Sem Medo de ter Medo, ele afirma que as pessoas precisam enfrentar seus temores.

A diarista Denoraci da Silva, 49 anos, sabe bem disso. Desde pequena tem medo de lugares fechados. Lembra que sua mãe fechava a porta do quarto das filhas na hora de dormir. Denoraci esperava todos irem para a cama e abria a porta de novo. Essa sensação de sufocamento fica ainda pior quando ela tem que colocar os pés em um elevador.

? Passo mal, me dá uma tremedeira nas pernas. Só subo em um se for obrigada. Aí, respiro fundo e vou. Mas detesto aquela sensação.

Denoraci decidiu enfrentar o seu medo. Trabalha em um apartamento que fica no 6º andar de um prédio, em Florianópolis. Começou a usar o elevador de vez em quando, mas continua se sentindo insegura.

Com os pés no chão

O fotógrafo, aventureiro e blogueiro profissional Paulinho Ferrarini há cerca de 25 anos não põe os pés em um avião.

? Nunca me senti muito à vontade quando entrava em uma aeronave. Uma sensação de impotência tomava conta de mim, pois minha vida estava na mão de duas pessoas fechadas na cabine de comando ? conta.

Ele não teve muita sorte com as viagens. Em três voos consecutivos, o avião teve que arremeter (subir de novo, quando estava completando o pouso).

? O procedimento é considerado seguro pelos pilotos, mas não para mim que, sem saber o que havia, tive a nítida sensação de que era o fim.

Nas últimas duas décadas e meia, Paulinho só viaja de carro, onde diz sentir-se mais seguro, no controle da situação. Hoje em dia viaja pelo Brasil inteiro fotografando para o blog Por dentro do Brasil.

? Até hoje muita gente me pergunta se eu sinto falta de ar no avião. Eu respondo: “Sinto falta é de terra mesmo”!

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