Quando comprar traz consequências inesperadas – e indesejadas

Especialistas afirmam que acidentes de consumo constituem sério problema de saúde pública

Muitas vezes, as crianças se tornam consumistas por falta de limites da família
Muitas vezes, as crianças se tornam consumistas por falta de limites da família Foto: Jefferson Botega

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Adquirir um produto e, ao usá-lo, acabar machucando a si mesmo ou a outras pessoas. Especialistas afirmam que os chamados acidentes de consumo, que ocorrem mesmo se o consumidor segue corretamente as instruções dos fabricantes, já constituem um sério problema de saúde pública.

– É assim que são chamados os efeitos negativos que ocorrem quando um cliente utiliza corretamente um produto ou serviço, mas tem sua saúde ou segurança colocada em risco – explica o diretor substituto da Diretoria de Qualidade do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), Paulo Coscarelli. – Esses acidentes não têm origem certa. Recebemos desde relatos de problemas com produtos de marcas bem estabelecidas até acidentes relacionados a utensílios pirateados.

O diretor do Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), José Roberto Ferraro, explica que acidentes de consumo são um problema de saúde pública.

– As consequências podem ser gravíssimas e levar até à morte – alerta, acrescentando que as principais vítimas são as crianças. – Em um levantamento que fizemos em parceria com outros dois hospitais universitários, constatamos que 60% das vítimas são crianças. É o caso do brinquedo que solta peças com muita facilidade ou de roupinhas que podem sufocar o bebê. Por serem mais vulneráveis, o risco de um acidente ter consequências graves é bem maior.

O médico acredita que a notificação compulsória poderia ajudar a minimizar o problema:

– Hoje, se um médico detecta um caso de sarampo, de dengue ou de Aids, por exemplo, ele é obrigado a notificar os órgãos competentes. Se, porém, recebemos uma pessoa que queimou a mão por causa de uma panela de má qualidade ou cortou o dedo devido a uma embalagem de ervilhas malfeita, essa notificação não é obrigatória.

Para ajudar a diminuir o problema, o Inmetro criou, há três anos, um canal de comunicação com os consumidores, que podem notificar o órgão sobre eventuais acidentes que tenham sofrido.

– Não se trata de uma reclamação, que vá gerar um processo ou responsabilização por danos. Os registros servem para ajudar a orientar nossas ações. Quando uma pessoa reclama de um determinado produto, vamos atrás do fabricante apurar as responsabilidaes – explica Coscarelli. – Quando não se trata de um produto de nossa responsabilidade, como os alimentos, por exemplo, nós avisamos o órgão responsável. No caso, a Vigiância Sanitária.

Ainda não existem estatísticas de vítimas de acidentes de consumo no Brasil.

– Nos Estados Unidos, onde esse monitoramento é feito há mais de 30 anos, o prejuízo causado por esse tipo de situação é de US$ 700 bilhões de dólares por ano – conta Cascorelli.

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