Quando é difícil falar

Relatório do Reino Unido cria Programa de Informação sobre a Gagueira e chama a atenção para os cuidados que se deve ter com essas crianças

“Qual é o seu nome?” parece uma questão simples. Mas, poderia levar meu filho Max a entrar em conflito consigo mesmo. Desde que ele tinha oito anos, eu assisto sua luta para falar – com a boca aberta, sapateando e tentando forçar as palavras para fora.

As pessoas com gagueira encontram dificuldades para conversar, contar histórias, fazer piadas, expressar uma opinião – todas as coisas que constroem nossa identidade social. Os pensamentos se formam em seus cérebros e ficam presos na boca. Eles podem ser inteligentes, engraçados, pensar rápido e opinativos, mas o que você vê é alguém que parece ter engolido a língua. Essa incompatibilidade pode minar a autoestima de uma criança, especialmente, na agitação de um pátio de escola.

Embora a comunicação seja absolutamente essencial para todas as áreas de nossas vidas, Max e muitas outras crianças têm ido à escola sem nunca falar com um grupo, realizar apresentações ou tomar parte em qualquer atividade escolar.

A gagueira é uma das disfunções mais comuns de ordem discursiva, afetando cinco em cada cem crianças. No entanto, uma pesquisa recente realizada por Centro Michael Palin para crianças gagas (o pai do ator sofria de gagueira) mostra que muitos professores não sabem como lidar com o problema.

Em 2007, o governo pediu a John Bercow, deputado britânico e agora presidente da Câmara dos Comuns do Reino Unido, que fiscalizasse serviços para crianças com deficiências de discurso, linguagem ou comunicação. Em seu relatório, publicado em julho de 2008, Bercow descreveu que o encontro foi “frustrante” para pais e profissionais “endurecidos diante das experiências ruins”. Ouvir as crianças foi algo “preocupante”, “áspero” e “desconfortável”.

Ao longo de sua pesquisa, ele acompanhou o secretário de escolas para a Inglaterra e País de Gales, Ed Balls, ao Centro Michael Palin, que oferece tratamento a crianças de todo o Reino Unido. A dupla ficou consternada ao ouvir um grupo de adolescentes descrever suas experiências na escola.

O Departamento para Crianças, Escolas e Famílias (DCSF) encarregou o Centro de produzir evidências baseadas em recursos para aumentar a conscientização entre os profissionais do ensino. O resultado é o Programa de Informação sobre a Gagueira, que está sendo desenvolvido em todo território inglês.

Como funciona

– Pesquisadores pedem a grupos de crianças e jovens entre 2 e 18 anos que sofrem com a gagueira para selecionarem as mensagens que mais gostariam de levar aos professores.

– Depois, separam os resultados em grupos de ensino e em dois DVDs – um para coordenadores de necessidades especiais e especialistas e outro para os docentes em geral.

– Os DVDs são apresentados pelas crianças, e aqueles que assitem se comovem. Um após o outro, eles falam gaguejando sobre como são ignorados e esquecidos.

Confissões em sala de aula

O resultado deste programa se vê na fala das crianças, que acabam confessando seus medos.

– Eu não contei ao meu professor porque senti muito medo, e acho que isso me faria sentir melhor. Isso me deixa muito triste. Algumas vezes, eles tentam me ajudar de forma errada, como “anda logo com sua frase”. Às vezes, eles acham que estou simulando minha gagueira – desabafa Philip Bennett, oito anos.

Alguns dizem que são considerados menos inteligentes do que os outros. Ricky Vachhari, 18 anos, é um deles:

– As pessoas tendem a pensar que eu poderia ser mentalmente mais lento ou incapaz, mas não sou. Quando eu era mais novo, normalmente, ficava muito frustrado. Não acho que a gagueira seja minha principal característica. Sou uma pessoa normal de 18 anos, apenas tenho um impedimento de ordem discursiva.

Os professores precisam ter paciência, se envolver com as crianças e tentar ver além da sua fala. Alguns professores reagem com tato e sensibilidade, mas outros não. Aos 17 anos, Tyrell Augustin explica que, mesmo com vontade de falar, não consegue dizer nenhuma palavra.

– As pessoas nem mesmo sabem que estou tentando falar, e quando eu consigo elas já saíram do lugar. Se os professores realmente entendessem a gagueira seriam capazes de lidar com isso apropriadamente, e os estudantes teriam oportunidades de falar.

Por que eles gaguejam

– Não se sabe por que as pessoas gaguejam, mas acredita-se que há muitos fatores. Há o componente genético, e algumas pesquisas mostram que pode haver um pequeno defeito na conexão neural no cérebro. Gaguejar, normalmente, começa entre as idades de dois e cinco anos, sendo muito mais comum entre meninos.

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