Quem são e o que fazem os geeks, os nerds modernos

Apaixonados por tecnologia, eles são a versão descolada dos esquisitos nerds

Inquietação geek, dedicação nerd: Lucas quer ser o primeiro da turma de Jogos Digitais
Inquietação geek, dedicação nerd: Lucas quer ser o primeiro da turma de Jogos Digitais Foto: Charles Guerra

Certa inabilidade social e uma movimentação um tanto desengonçada. Características associadas aos nerds, mas que nada têm a ver com a moça confiante de cabelos platinados e fala rápida. Basta vê-la, lépida e um tanto inquieta, em casa, falando sem parar, entre o laptop, o PC e o smartphone, para que a imagem do antigo nerd monossilábico e de óculos fundo de garrafa se dissolva.

Ao mesmo tempo, a webdesigner Fernanda Parisi guarda, sim, traços dos antigos nerds: tem muito conhecimento sobre cultura pop – principalmente ligado à música e internet – dedicação excessiva ao trabalho e aos estudos e opção incondicional pelas conversas com amigos pela internet ao invés das mesas de bar. Soma-se a tudo isso um visual moderno, predileção por música emo antiga e alguns seriados americanos e pronto: aí está um autêntico exemplar geek.

Mas, afinal: foram os nerds que ficaram menos esquisitos ou nós que passamos a ver esses geniozinhos da informática como jovens descolados e ultramodernos?

O exemplo da Fernanda, 24 anos, diz muito sobre como surgiu essa nova “tribo”. Ela ganhou o primeiro computador aos sete anos, lá no início dos anos 1990. Dos 15 aos 21 anos fez um blog – e não o antigo diário de papel. Foi por meio dele que conheceu os melhores amigos e o namorado, que recentemente se tornou noivo e com quem divide o apartamento cheio de vinis e pôsteres de bandas de rock. Paradoxal? Pois o casal é um tanto. Ela, fera nos games, gosta também de artesanato – que aprendeu a fazer com a mãe – e de culinária (faz doces). Ele, coleciona discos de vinil e é um dos autores do site Tenho mais discos que amigos, com interface de autoria da noiva. E, diferente dos casais habituais, ela ama games, ele não.

– Minhas amigas dizem que sou uma enciclopédia da cultura pop. Às vezes, faço algum comentário sobre algo que tá rolando na internet, como um meme, e elas falam “ai, que nerd”. Mas para mim é tudo muito natural – comenta.

Para quem está longe de ser um geek, meme são ideias ou partes de ideias, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida de maneira viral e exponencial. Tem até uma espécie de ciência que estuda os modelos evolutivos da transferência de informação, que se chama memética.

Fernanda exemplifica:

– É o caso do “Cala a boca Galvão”. É como uma piada interna da internet que se espalha de um jeito muito rápido.


Tribos globalizadas

Desde que o mundo é mundo, adolescentes e jovens precisam se filiar a grupos de modo a largar a barra da saia dos pais.

– Esse fenômeno muda à medida que a sociedade vai evoluindo. Mas segue o mesmo padrão de agrupamento para poder se afastar e depois transitar mais livre. Essa nova tendência (dos geeks) reflete a globalização – explicou Maria do Rosário Stotz, psicóloga e professora de Unisul.

– Os melhores amigos não são mais aqueles que saem para tomar cerveja. Os encontros são visuais e não presenciais – diz ela.

Por mais que quisesse e gostasse de barzinhos, Fernanda não poderia encontrar as melhores amigas para uma cerveja nos finais de semana. Nova Zelândia, Manaus, São Luiz do Maranhão e Curitiba: esses são os paradeiros delas.

– As pessoas têm com a casa ou com a pátria uma relação diferente. São sujeitos do mundo, com amigos em qualquer lugar – diz Maria do Rosário.

As amigas são globalizadas e o visual também. Estilosa, Fernanda expressa no visual uma modernidade digna de qualquer antenada londrina ou paulistana.

– Há uns 10 anos, a gente via povos, como os japoneses, com um visual muito diferente, muito característico de lá. Hoje, os jovens já são bem modernos, muito parecidos com os jovens de outros países. A identidade e o agrupamento visual hoje se dão através das relações da internet – aponta a psicóloga.


Devoção pela tecnologia

A paixão pela tecnologia parece ser o ponto em comum entre os geeks. Por causa disso, certos cursos concentram maior número deles. Caso das turmas de Computação ou Jogos Digitais.

– Cada vez mais é possível observar que tem um pessoal que se destaca nos estudos, mas que é diferente daquele nerd antigo que só estudava. Ele convive com os demais, brinca, se diverte. E, em geral, eles não têm aquela característica visual de nerd. São mais “normaizinhos” – brinca o coordenador do curso de Jogos Digitais da Univali, Rudimar Dazzi.

Nesse grupo destaca-se Lucas Rovaris, um dos melhores alunos da segunda turma de Jogos Digitais. Conectado desde os 14 anos, Lucas tem uma história curiosa: saiu da roça, como ele mesmo diz. Os pais eram agricultores no interior de Turvo, Sul de SC. O que não impediu Lucas de se apaixonar, aos cinco anos, pelo remoto Atari. Ali o destino geek foi traçado:

– Gosto muito de tecnologia. Mas sei que, para trabalhar no que eu quero, tenho que me destacar. Estudo bastante em casa e também já trabalhei como game tester.

Para ele, inquietação é um dos adjetivos dessa tribo:

– Nós, geeks, não temos todas as respostas, mas buscamos ter todas as perguntas.

Trabalhar com desenvolvimento de games é coisa que Daniel Schreiner, 29 anos, já faz há algum tempo. E vai além: tem conhecimento específico sobre robótica e outros sistemas de software, além de jogos. Enquanto os outros meninos jogavam bola, Daniel, aos 15 anos, já ensaiava em programação. Foi ele que, entre outras funções, desenvolveu o sistema de motion control para a filmagem de Minhocas, do estúdio Animaking, instalado dentro do Sapiens Park, Norte da Ilha. Foi ele que bolou os braços robóticos que movimentam as câmeras do filme. Daniel realizou o sonho de muito geek por aí: trabalhar em um parque tecnológico supermoderno.

– Eu digo que trabalho na fantástica fabrica de chocolate. É um parque tecnológico dentro de um parque que fica na praia- diz o supervisor de sistemas do filme a ser lançado em 2011.

Assim como Fernanda e Lucas, o Daniel não vê muita diferença entre o que é trabalho e o que não é. Ou seja, sem essa de chegar em casa e esquentar o sofá: é o momento que tem para tocar outros projetos. Mas nada que o impeça de, nos finais de semana, com cerveja e amigos, frequentar outro estúdio: o de música. É que Daniel tem uma banda de jazz e blues. E ainda arranja tempo para a namorada. O hábito de manter muitas janelas abertas no PC dá nisso: geeks são seres multitarefas.

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