Quer uma babá? Entre na fila

As mães descobrem uma nova realidade: se antes eram as auxiliares que precisavam das patroas, hoje as babás parecem ter virado o jogo

Aloete Mello cuida da garotinha Mariana
Aloete Mello cuida da garotinha Mariana Foto: Ricardo Chaves

Encontrar uma babá hoje não se resume mais à maratona em busca de uma profissional experiente e de confiança. Isso é só o começo. O desafio agora é oferecer salário e condições de trabalho melhores que os da concorrência e – o principal – achar uma babá disponível.

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Mãe de segunda viagem, a servidora pública Roberta Germano, 32 anos, decidiu se antecipar. Em novembro, ligou para a babá que havia cuidado da primeira filha do casal: – Sílvia, decidimos abrir os trabalhos para ter um bebê e vou precisar de ti lá pelo meio do ano que vem.

Em dezembro, uma nova ligação:

– Estou grávida! Reserva quatro noites a partir de agosto para mim!

No oitavo mês de gestação, Roberta espera a chegada de Luiz Otávio, sabendo que Sílvia Agliardi e a colega Aloete Miller, que se reveza com ela nos plantões noturnos, estarão lá. Ela não é a única grávida precavida – há gestantes que, para não perder a babá que encontraram, começam a pagar o salário antes de o nenê nascer.

Eis a novidade com que a família de classe média terá que se habituar: se antes eram as babás que precisavam das patroas, hoje elas parecem ter virado o jogo. Com a economia aquecida, vagas em diferentes setores e maior acesso ao ensino superior, empregadas domésticas estão buscando novas oportunidades de trabalho. As quatro agências de babás da Capital e da Região Metropolitana contatadas nesta reportagem têm fila de espera de mães, uma disputa que inflacionou os salários das profissionais com experiência e referências: se há quatro anos elas pediam remuneração em torno de R$ 600, hoje não trabalham por menos de R$ 800 ou R$ 1 mil. Mas muitas já ganham mais que o dobro desse valor.

A dupla Sílvia e Aloete está nessa turma. Elas cobram R$ 140, cada, pelo plantão noturno de 12 horas que garante o sono tranquilo das mães nos primeiros meses de vida do bebê – o que equivale a mais de R$ 3 mil mensais por seis dias de trabalho por semana. Conhecida pela experiência com pré-maturos e crianças especiais, Aloete, ou Bete, como mães e crianças a chamam, divide-se entre cinco plantões semanais para duas famílias e a pequena Mariana Casaccia Mariotti, de 10 meses, de quem cuida por meio período, de segunda a sexta. Tal jornada lhe garante pelo menos R$ 4,5 mil por mês. O arranjo é tão lucrativo que nem Sílvia nem Bete o trocariam por um emprego em turno integral, como muitas mães lhes pedem. Sílvia comprou casa na praia e um carro zero e vai formar uma filha engenheira civil, e Aloete, 39 anos, tem apartamento montado no bairro Jardim Botânico e paga colégio particular para a filha, a quem pretende presentear com um carro este ano.

– É tão boa a remuneração que não vale a pena nem trabalhar em hospital – diz Sílvia, 46 anos, que tem formação como auxiliar de enfermagem. – A gente dá o preço. Fica caro para algumas mães, mas tem outras à espera.

– Se a família busca qualidade, precisa saber que as duas coisas andam juntas, a qualidade e a questão financeira – completa Aloete, que, antes de ser babá, trabalhava como numa clínica odontológica como técnica em instrumentação cirúrgica. – É importante ganhar bem, mas também ver as famílias satisfeitas.

A mãe de Mariana, a dentista Giovana Casaccia, 36 anos, nem se imagina sem Bete: – Não é um custo barato. Ela realmente tem um valor diferenciado, mas vale a pena porque a Bete também é diferenciada. E a gente sempre quer o melhor para os filhos. Todo mês Sílvia e Bete são obrigadas a recusar propostas de outras famílias em um mercado em que a oferta de babás experientes não dá conta da procura. No site da franquia gaúcha da rede de agências Kanguruh, mães passam o dia conferindo os novos currículos e fotos de candidatas a emprego e, não raro, realizam leilões para ver quem leva uma babá para casa:

– Elas ficam oferecendo valores mais altos, e uma mesma babá chega a receber três ofertas – conta a psicóloga Sônia Godinho, proprietária da filial gaúcha. _ A procura é muito grande e não apenas no Estado. Há famílias que não conseguem babás no Rio, em Santa Catarina e em São Paulo e vêm procurar aqui. Já mandei profissionais para lá por salário de R$ 3 mil.

Em São Paulo, a escassez é tamanha e os salários estão tão altos, que virou moda importar babás do Paraguai e da Bolívia (leia entrevista na página XX). Diante desse cenário, já se especulou até que as babás são uma profissão em extinção, mas os especialistas tranquilizam os pais dizendo que não – não desaparecerão. Mas há, sim, uma mudança em curso: elas caminham para se tornar um artigo de luxo, para poucos, como já se vê nos Estados Unidos e na França.

Existem hoje 7,2 milhões de empregados domésticos no Brasil, dos quais 93% são mulheres – boa parte delas babás. No total, o setor representa 7,3% da força de trabalho no país, percentual que pouco variou nos últimos três anos, ao contrário da demanda que cresce na medida em que mais mães trabalham e por mais horas. O perfil dessas profissionais tem se transformado: com nível de escolaridade crescente, muitas estão migrando para outras profissões, especialmente as mais jovens. Em 2000, 10,5% das empregadas domésticas em Porto Alegre tinham entre 18 e 24 anos. Quando se repetiu a pesquisa em 2009, esta faixa etária sequer alcançou um número estatisticamente significativo.

O número de diaristas tem crescido, automaticamente diminuindo a proporção das que querem trabalhar em turno integral para uma única família. E, apesar da enorme procura, mais difícil ainda é encontrar quem aceita morar no emprego, principalmente nas regiões metropolitanas. Para solucionar o impasse, Juarez Gonçalves dos Santos, da agência de empregados domésticos Agencce, a percorre regularmente cidades do Interior em busca de interessadas. Depois, anuncia as selecionadas com destaque no site da agência, com o aviso “Para morar “. Mas, diz Santos, nunca há candidatas suficientes para todos os clientes.

Ao avaliar o cenário que se apresenta, o consultor em recursos humanos José Pastore alerta:

– Se você tem uma empregada doméstica, cuide bem dela ou vai ser difícil mantê-la. E quanto à babá, a situação é ainda mais crítica.

As exigências das babás também mudaram, e não apenas em relação a salário. A principal demanda é romper com uma tradição que se arrasta desde o Brasil Colônia, em que os empregados da casa viviam em função da vida do patrão, sem horário para sair. Mas não só isso: sabe aquela empregada 2 em 1 que cuida da casa e das crianças? Pois essa também está em falta: elas querem ser exclusivamente babás e fazem questão de que se assine a carteira de trabalho como tal, justamente porque gozam de status diferenciado na casa. Afinal, cuidam do bem mais precioso dos patrões, como explicou uma advogada de 44 anos da Capital, que não quis se identificar para não causar constrangimentos, já que paga para sua babá mais do que para seu motorista e sua empregada: gasta R$ 2 mil por mês entre salário e escola particular para a filha de quem cuida da sua própria filha.

– As babás perceberam que o mercado está favorável e colocaram limites – afirma Alana Porto Alegre, que há 12 anos mantém a agência Babá Service na Capital e já desistiu de empregar babás que morem no emprego ou babás-domésticas. – Às vezes, é difícil até encontrar quem trabalhe das 8h às 19h, para chegar à faculdade.

Hoje, assim como as patroas escolhem as babás, também (ou mais) as babás escolhem as patroas. Foi assim com Reginara Seixas da Rocha, 38 anos. Ela buscou uma agência em janeiro e participou de mais de seis entrevistas. Avaliou cada família para escolher não só a melhor oferta, mas também o tempo de que disporia para ficar com suas duas filhas:

– Tinha patroas em que eu me encaixava no perfil delas, mas elas não se encaixavam no meu.

Uma mãe enfatizou que salário não seria problema, desde que Reginara trabalhasse sem hora para sair, inclusive nos feriados. Ela recusou.

– Vi logo que era uma patroa da antiga.

Desde fevereiro, Reginara cuida de uma menina um ano e oito meses, de segunda a sexta, das 14h às 21h, e das 9h às 18h no sábado. Somando horas extras e viagens (em meio ano já passou uma temporada na Itália), chega a ganhar R$ 1,8 por mês, além de convênio médico, benefícios e respeito ao tempo ao lado das filhas.

A trajetória de Reginara ilustra as mudanças e os extremos no mercado de babás: ela, que hoje ganha um salário polpudo e faz planos de adquirir um segundo imóvel, deixou a escola aos 13 anos para trabalhar por R$ 50 ao mês e só teve carteira assinada aos 21. Em um cenário nacional, a supervalorização das babás corresponde especialmente a mães que exigem profissionais cada vez mais preparadas e pagam por esse diferencial – um futuro ainda distante para um grande contingente de babás no Brasil e em muitos outros países. Não à toa a Organização Internacional do Trabalho (OIT) escolheu o trabalho doméstico como tema da conferência realizada em junho, na Suíça.

– Vêm ocorrendo muitas mudanças no perfil da empregada e na configuração desse mercado, mas ainda é uma profissão que sofre déficit de regulamentação e a não observância de direitos – destaca Márcia Vasconcelos, coordenadora do Programa de Promoção da Igualdade de Gênero e Raça no Mercado de Trabalho da OIT Brasil. – É um trabalho invisibilizado na sociedade, mas que sustenta a esfera produtiva.

Com cada vez mais oportunidades de trabalho, as mulheres só vão ficar nesse mercado se valer a pena, avalia a economista do Dieese Patrícia Lino Costa: ou seja, com boa remuneração, carteira assinada e benefícios. Nesse aspecto, o inflacionado mercado de babás das classes média e alta pode representar a vanguarda de uma mudança em maior escala. A psicóloga Bianca Mattos, que administra a agência de RH Público Alvo, já perdeu muitas babás para empregos socialmente mais reconhecidos, assim como tem visto bater à sua porta muitas pedagogas que preferem trabalhar para uma família, que paga melhor que as pré-escolas, acredita que o caminho que se apresenta para patrões, babás e empregadas é somar ofertas atrativas a um novo olhar sobre quem cuida da casa e dos filhos, quando pais e mães saem para trabalhar.

Reginara se emociona ao contar o quanto se sente respeitada pela família onde trabalha. Na entrevista, ela repete, orgulhosa:

– Eles me dizem “Nós somos uma equipe”.

Tudo por uma babá

:: Há “roubo” de babás em Porto Alegre. Olheiros (leia-se mães ou avós de crianças sem-babá) assediam empregadas alheias em festas infantis, na vizinhança ou pracinhas – o Parcão e a Praça Bela Vista, em Porto Alegre são os preferidos. Não raro chegam às agências, mães chateadas por a vizinha de condomínio ter levado sua babá embora.

:: As queixas de babás em relação às patroas, de que regulam o que elas comem no trabalho, por exemplo, praticamente sumiram das agências de serviço doméstico. Ao contrário, há uma piada que circula entre as mães: a babá lista todas as suas condições para aceitar o trabalho, e elas respondem “Faço o que você quiser”.

:: Com mercado tão aquecido, as babás trocam de emprego com mais frequência. Se antes a expectativa era de que a profissional acompanhasse a primeira infância da criança, agora é preciso se adaptar ao novo cenário, como explica a psicóloga Alana Porto Alegre, da agência Babá Service:

– Com esse mercado, ser feliz em termos de babá por um ano já é muito bom. As mães acham pouco, mas, se tiverem uma boa babá pelo primeiro ano do filho, já é um ganho. Hoje, é raro elas ficarem muitos anos no emprego.

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