Recordista de memória diz que não há esquecidos, mas pessoas que não exercitam a mente

Veja truques para acabar com os "esquecimentos" mais comuns

Inteligência estaria relacionada à beleza de homens e mulheres
Inteligência estaria relacionada à beleza de homens e mulheres Foto: Stock Photos

Você é daqueles que esquece o nome de um cliente e ao encontrá-lo no shopping faz de tudo para que ele não venha lhe cumprimentar? E a chave do carro? Já perdeu algumas vezes pela casa? Conta de telefone, então, quantas vezes já esqueceu de pagar na data certa? Se alguma dessas situações já tirou você do sério, não pense que está ficando desmemoriado. A pergunta certa a se fazer é: o que você faz para se lembrar de nomes, objetos e compromissos?

É com esse questionamento que o primeiro recordista brasileiro de memória, Renato Alves, 38 anos, desperta a atenção daqueles que participam das palestras de memorização ? ramo em que trabalha há 20 anos. Formado em computação e especialista em ciências cognitivas e filosofia da mente, Renato não demonstra superpoderes quanto à memória. Ele apenas revela que, se prestarmos atenção, podemos guardar na memória tudo aquilo que nos interessa.

Para provar que não há esquecidos, mas pessoas que não exercitam a memória. Em entrevista, Renato esclarece algumas dúvidas, dá dicas e avisa: não é bom se lembrar de tudo. “Aprender a selecionar o que se quer guardar na memória é o mais importante.”

No seu curso, você conta ao público que assim que percebeu não ter uma boa
memória, você começou a exercitá-la. Como foi esse processo?
Achava que tinha uma memória ruim, assim como a maioria das pessoas que vêm ao meu curso. Minha memória não era tão boa e percebi isso na escola. Mais tarde, fui descobrir que tinha um problema de deficit de atenção, já na época da pós-graduação em filosofia, quando pesquisei a área de DDA, hoje conhecida como TDH. E isso atrapalhava os meus estudos. Minha rotina na infância era: não gostava de estudar, mas se me dessem uma cartolina e um vidro de cola, fazia naves espaciais e qualquer tipo de maquete. Até que, aos 16 anos, um amigo me presenteou com um livro de memorização. Acho que todo mundo deveria ter contato, pelo  menos uma vez na vida, com técnicas mnemônicas (de memorização). Foi aí que percebi que não existia memória ruim e que é possível exercitá-la. Acho que daí veio a vocação para pesquisador nessa área.

Podemos falar que uma pessoa “esquecida” é alguém que não exercita a memória?
O que falta é conhecer a memória e saber quais são os mecanismos que facilitam esse processo. Não é útil querer memorizar tudo ao mesmo tempo. O ideal é focar naquilo que lhe interessa. Exemplo: duas pessoas são orientadas, ao entrar na sala: uma deve prestar atenção em tudo ao redor e a outra, simplesmente ficar sentada. Ambas têm uma ótima memória, só que a orientação dada para cada uma determinará aquilo que será registrado.

Até que ponto mídias sociais, ferramentas tecnológicas e inúmeros veículos de
comunicação podem trazer problemas à memória? A “falta” de memória estaria associada à falta de concentração?
Memória e concentração estão intimamente ligadas. A memória depende da concentração. A concentração é o interesse sobre algo que quero memorizar. Primeiro você se concentra, depois você memoriza. Só que neste século, em que há um bombardeio de informações, você quer se concentrar em tudo ao mesmo tempo e acaba perdendo a chance de registrar uma informação. Estudando ciência cognitiva percebi como estamos criando uma dependência dos meios eletrônicos. Não sei atribuir de quem foi essa frase, se de Sócrates ou de Platão. Diz o seguinte: a partir do momento que a humanidade inventou o papiro para facilitar a escrita, acabou a memória humana. Quer dizer que, a partir do momento em que você pode transferir para um papel suas memórias, você sente que não precisa guardar informações. Com a tecnologia, tudo o que a gente quer, registra em uma ferramenta, como um celular. Num show, usamos a câmera para filmar; numa viagem, não damos um passo sem fazer uma fotografia. Agora, pergunto: e na sua memória? O que ficou? E a experiência que viveu? Deveríamos guardar espaço para contemplar o que estamos vivendo, mesmo que também tiremos uma foto. Assim, não teremos o impacto negativo da tecnologia sobre a nossa memória.

E qual é o grande desafio, hoje, para guardarmos tantas informações?
O que determina ou não o que é importante para se guardar na memória é o seu objetivo. Carreira, interesses, necessidades. Um concurseiro, por exemplo, tem como objetivo passar no concurso. Então, ele sabe o que é importante frente à avalanche de informações que recebe todos os dias. Se você prestar atenção no que realmente contribui para seu objetivo, o pouco que ficar de tudo que você ver, ler e aprender ainda será muito. Porque mesmo quando isolamos um único tema, a quantidade de informações sobre aquele tema ainda será grande e haverá uma segunda seleção sobre ele. O resultado fará a diferença. O excesso de informações não faz um profissional melhor, uma mãe ou um pai melhores. Aprender a selecionar o que se quer guardar na memória é o mais importante.

Três dicas rápidas para se exercitar

Celular
Para quem esquece a chave do carro ou o celular
Mantenha um espaço ou um recipiente na entrada de casa para acomodá-los. O local deve ser de fácil acesso para que fiquem sempre à vista.

Carro
Para quem esquece de fechar a janela, a porta de casa ou de ativar o alarme do carro: fale, mentalmente “Estou fechando a janela”, “estou ligando o alarme” para direcionar a atenção ao realizar atividades corriqueiras.

Pessoa
Para quem esquece o nome de clientes ou de pessoas próximas
Ao ser apresentado a uma pessoa, fale o nome dela por seis vezes ao longo da conversa. Outra técnica interessante é associar características da pessoa a quem você foi apresentado com algum amigo ou parente de mesmo nome. Por exemplo: “Juliana (prima) tem sardas. Essa outra Juliana que acabei de conhecer também tem.”

Leia mais
Vídeos recomendados
Comente

Hot no Donna