Resiliência: a capacidade de dar a volta por cima

Neuropsiquiatra conta em livro como superou os traumas do nazismo

Foto: João Augusto, Body for Sure

Quanto tinha apenas seis anos, o neuropsiquiatra francês de origem judaica Boris Cyrulnik perdeu os pais, vítimas da violência nazista. Ele próprio foi levado aos campos de concentração. Mas com artimanha comum às crianças, conseguiu sobreviver. Ele se escondia no teto para ficar fora da vista dos soldados e, assim, escapou da morte.
Cyrulnik não apenas superou a perda dos pais e o horror do período nas prisões alemãs como vem dedicando seu trabalho a estudar a capacidade que o ajudou a resistir, chamada de resiliência. Sua experiência agora está no livro Autobiografia de um Espantalho, que ele autografou na semana passada, quando esteve em Porto Alegre para palestrar na 9ª Jornada Gaúcha de Psiquiatria, promovida pela Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. Cyrulnik considera a obra como um livro de apoio para pacientes e especialistas.

– A experiência e os estudos de Cyrulnik deram apoio teórico há muitas iniciativas que ajudam pessoas a enfrentar problemas – diz a terapeuta familiar Sylvia Nabinger.

A seguir trechos da entrevista que Cyrulnik concedeu.

Como você ficou emocionalmente após a guerra?
Boris Cyrulnik – Minhas emoções estavam congeladas. Fiquei frio. Essa é uma reação que reduz o sofrimento da pessoas. Por outro lado, traz um prejuízo grande. Ao congelar, o paciente deixa de perceber a necessidade de enfrentar o passado.

É como se a pessoa se conformasse com o trauma?
Cyrulnik –
Exatamente. Mas não pode ser assim. A prioridade deve ser sempre enfrentar o trauma. Nunca esquecê-lo ou desviar a atenção. Por isso, é muito importante falarmos sempre dos benefícios da resiliência.

Quais as dificuldades das crianças e jovens hoje para superar trauma?
Cyrulnik – É fácil entender uma guerra, uma perseguição ou um terremoto. Nesses eventos, a pessoa sabe o que aconteceu. As coisas são claras. Em tempos de paz, tudo é diferente. É mais difícil perceber o problema. Isso porque a mente fica desgastada com o acúmulo de pequenos acontecimentos, como a falta de afeição, carinho e amor de uma mãe para os filhos, por exemplo. Forma-se um trauma silencioso, que fica camuflado ao longo da vida.

No Brasil vivemos um problema sério nas escolas: o bullying. É uma violência evidente. Ela também pode trazer traumas?
Cyrulnik – Sim. E não é só na parte física. As crianças são ameaçadas se contarem o que aconteceu para os pais ou professores. Por isso, escondem o problema. No entanto, a resiliência ocorre quando a pessoa fala, se expressa, conta o sofrimento para as outras pessoas. Não se pode esconder nada.

Isso deve ser feito com um profissional?
Cyrulnik – O profissional é uma peça importante no processo de resiliência, mas não só isso. A pessoa precisa buscar amigos, um padre, familiares. Alguém com quem possa formar uma base sólida, uma estrutura em que se sinta bem, seguro. Sozinho não se consegue. Eu fui ajudado por outras pessoas. Só assim entendi e superei o trauma.

Autobiografia de um espantalho – Histórias de resiliência: o retorno à vida
Autor: Boris Cyrulnik
Editora: WMF Martins Fontes
Páginas: 224
Preço:  R$ 34

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