Rico universo feminino é marca de Woody Allen no cinema

Cineasta se aprofunda nas necessidades e frustrações da mulher

Scarlett Johansson (na foto, em Match Point) é uma das musas de Allen
Scarlett Johansson (na foto, em Match Point) é uma das musas de Allen Foto: Divulgação, Playarte - BD, 10/02/2006

Muitas vezes chamado de egocêntrico, Woody Allen desenvolveu em seus filmes no entanto inesquecíveis personagens mulheres que, através de atrizes como Mia Farrow, Diane Keaton, Scarlett Johansson e agora Naomi Watts, compõem uma verdadeira galeria do cinema.

Watts, que estará no novo projeto londrino do gênio nova-iorquino junto a Antonio Banderas e Anthony Hopkins, poderia ter pertencido décadas atrás ao padrão da loira hitchcockiana, mas agora nos leva a questionar se existe um padrão de musa “alleniana”.

O cineasta americano não se caracterizou por explorar a sensualidade de suas atrizes como o mestre do suspense, nem por render a elas homenagens estéticas como Pedro Almodóvar, mas sim por se aprofundar, quase sempre através de suas relações sentimentais, nas necessidades e frustrações da mulher da burguesia intelectual.

Não se pode esquecer que seu filme mais premiado teve nome de mulher na versão original “Annie Hall” (1977) (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” em português) e que um de seus trabalhos mais reflexivos se chamou “A outra” (“Another Woman”, 1988). Também é preciso lembrar que outros levaram no título referências diretas a protagonistas femininas, como “Simplesmente Alice” (1990) e “Melinda e Melinda” (2005).

Seu primeiro filme tido como sério, “Interiores” (1978), foi liderado por portentosas interpretações de Diane Keaton e Geraldine Page e, sobretudo, que durante muitos anos, seu cinema foi evoluindo com suas parceiras na vida real, Keaton e Mia Farrow.

“Minha vida amorosa é terrível. A última vez que estive dentro de uma mulher foi quando visitei a Estátua da Liberdade” é uma de suas várias frases célebres.

Os que o acusam de misógino também têm seus argumentos: dois de seus filmes mais bem-sucedidos, “Manhattan” (1979), “Hannah e suas irmãs” (1986) ou o mais recente “Vicky Cristina Barcelona” (2008) giravam em torno de um mesmo homem com várias mulheres. Mas o certo é que nesses três filmes Allen extraiu o melhor de Mariel Hemingway, Diane Wiest e Penélope Cruz.

Diane Keaton, que também aparecia em “Manhattan”, foi a primeira grande musa de Allen e manteve um perfil de mulher intelectualmente desafiante e difícil de assustar. Como uma Katharine Hepburn dos anos 70, Keaton revolucionou com sua estética ao público e ganhou um Oscar por “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”. Pessoalmente, foi a relação menos turbulenta de Allen, até o ponto de anos mais tarde participar de “A Era do Rádio” (1987), junto ao novo amor do diretor, Mia Farrow. Já nos anos 90, aceitou um oitavo trabalho com ele: “Um misterioso assassinato em Manhattan” (1993).

Farrow adotaria, ao longo de 13 filmes, um perfil mais vulnerável. A atriz de “O bebê de Rosemary” (1968), após dois casamentos – com Andre Previn e Frank Sinatra – se apaixonou por Allen e fez interpretações magníficas, como em “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985).

Farrow influiu notavelmente na carreira de Allen, a quem impulsionou a realizar um de seus projetos mais atípicos e prestigiados, “Zelig” (1983), enquanto sua crise matrimonial foi a base para uma das produções mais complicadas do gênio nova-iorquino: “Maridos e Esposas” (1992). O desenlace real foi, como é bem sabido, muito mais folhetinesco que o do próprio filme.

Woody Allen presenteou a Gena Rowlands, que tinha sido musa e mulher de John Cassavetes, seu melhor papel longe do marido, em “A outra”. Foi um de seus filmes com mais referências clássicas a Bergman, sobre os freios emocionais que surgem em uma brilhante professora de filosofia para não mostrar sua vulnerabilidade nas altas esferas intelectuais dominadas pelos homens.

Na última etapa de sua carreira, e após tentativas fracassadas com Mira Sorvino, Helen Hunt e Cristina Ricci, Allen optou por uma musa de sexualidade muito mais explícita, mais loira e mais jovem: Scarlett Johansson. Apesar de seu papel em “Match Point” (2005) ter sido inicialmente oferecido a Kate Winslet, o entendimento entre ambos foi tal que voltaram a trabalhar em “Scoop” (2006) e “Vicky Cristina Barcelona”, no qual explorava as diferentes posturas das mulheres frente ao amor.

Johansson, Rebecca Hall, Penélope Cruz e Patricia Clarkson encarnavam, respectivamente, a apaixonada, a cerebral, a neurótica e a descrente. As três primeiras, às custas de Javier Bardem.

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