Sabores distantes

Estabelecimentos se especializam em oferecer produtos regionais e exóticos para agradar o paladar variado dos clientes

A receita de Pavê de Robalo com Crosta de Camarão Seco da chef mineira Benê não seria a mesma sem os ingredientes certos
A receita de Pavê de Robalo com Crosta de Camarão Seco da chef mineira Benê não seria a mesma sem os ingredientes certos Foto: Júlio Cordeiro

Algo verdadeiramente irritante para quem gosta de cozinhar é tentar seguir uma receita e não encontrar um ingrediente necessário para o preparo. Nessas horas, algumas pessoas até lançam mão da criatividade para substituir os elementos que faltam, mas, em alguns casos, só resta mesmo desistir da tarefa. Afinal, certas receitas dependem de determinados produtos para não ficarem totalmente descaracterizadas. No caso da cozinha regional ou internacional, então, a triste cena é ainda mais comum. A boa notícia é que a oferta de casas especializadas em itens mais raros ou exóticos cresceu muito nos últimos anos, o que beneficia tanto amadores que se aventuram nas panelas quanto chefs.

Formada por pessoas de todos os cantos do país, Brasília abriga muita gente com saudade da comida típica de sua região. A cearense Cleide Mota de Andrade lembra que, quando chegou à capital, há mais de 20 anos, precisava “importar” ingredientes como queijo-coalho, feijão-de-corda, camarão-seco, rapadura e farinha. “É muito ruim querer comer uma coisa e só encontrar imitações nos mercados”, diz. A aposentada conta que chegava a fazer estoque dos produtos sempre que voltava de uma viagem ao Ceará.

A realidade mudou. Ela conta que há alguns anos não precisa lotar a mala de guloseimas. Encontra tudo aqui, ou melhor, quase tudo. O camarão, ela prefere trazer do Nordeste, por considerar o vendido no DF “muito aguado”. O resto, encontra com facilidade em feiras e lojas. “É bom ter acesso a esses produtos sem ter de ir tão longe. Além de não faltar nada, ainda encontramos nossos conterrâneos e trocamos figurinhas sobre nossa cultura”, comemora.

Um dos estabelecimentos que fazem a alegria de Cleide é a Casa Nordestina (DF). A loja, surgida como uma simples barraca na Feira do Paranoá, é hoje fornecedora de ingredientes típicos para renomados restaurantes. Segundo a proprietária, Marilene Monteiro de Carvalho, os pedidos cada vez mais constantes acabaram tornando seu negócio uma referência na cidade.

Na casa são vendidas delícias de diversos cantos do país, como a farinha de puba, especialidade maranhense, e os doces de caju e de buriti, tradições piauienses. Ali, é possível encontrar carne de charque, refrigerantes típicos, azeite de dendê, manteigas, doces, farofas, galinha-caipira, biscoitos, além de panelas de ferro e artigos de couro e de decoração. “Os clientes elogiam a variedade e, se falta alguma coisa, nós mandamos buscar imediatamente”, garante. Com essa política, Marilene passou até a vender erva-mate para o gauchíssimo chimarrão.

Oriental

Com mais de 100 produtos importados da China, da Coreia, do Japão, da Tailândia e de Taiwan, a Mercearia Mikami é uma das alternativas mais buscadas pelos imigrantes orientais em Brasília. Tendo as prateleiras recheadas de artigos típicos, a casa conquista clientes das embaixadas, chefs e cozinheiros de fim de semana. Segundo o proprietário, Jorge Mikami, a ideia é fornecer tudo o que os clientes precisarem. “Se a pessoa resolver fazer uma receita de yakissoba, por exemplo, já sai da loja com quase todos os ingredientes”, garante. O “quase” refere-se ao fato de o empresário não comercializar carnes e peixes.

Entre os produtos oferecidos estão 10 tipos de macarrão, molhos, pastas de peixes e de crustáceos, balas, doces, bebidas e frutas. Produtos exóticos para os ocidentais, como manjubinha, polvo e lula desidratatos, sucos de aloe vera e cervejas japonesas também podem ser encontrados. Em relação ao medo de que os produtos de origem japonesa possam apresentar algum risco à saúde devido ao acidente nuclear na usina de Fukushima Daiichi, Mikami explica que a casa conta com estoque para, no mínimo, um ano. “Além do mais, não compramos só produtos do Japão, e os que vêm de lá são produzidos no sul do país (área menos afetada pela tragédia)”, ressalta.

No Brasil há pouco mais de seis meses, Yuka Yoshizawa, de Tóquio, comemora a possibilidade de comprar produtos típicos de sua cidade em Brasília. “Assim, não preciso me adaptar a uma outra culinária”, diz. Ela, que está no país para estudar, conta que adora cozinhar e, no dia a dia, prepara os pratos japoneses aos quais está acostumada. Segundo Yuka, embora goste de muitas receitas brasileiras, ainda não sabe prepará-las. “Quando sinto vontade de comer algo do Brasil, eu procuro um restaurante próximo”, assume.

Cozinha gourmet

Conhecida em Brasília por vender artigos de luxo presentes na alta gastronomia, o La Palma surpreende com os aproximadamente 14 mil itens dispostos nas gôndolas. Destaque para o alho-negro, novo queridinho dos gourmets. “Eu tento suprir as necessidades gastronômicas da cidade”, conta o dono da casa, Rogério Muniz Netto. De acordo com ele, com o voo direto para Portugal, ficou mais fácil pesquisar novidades e tendências na Europa. Outros produtos que chamam a atenção dos clientes são a fumaça líquida, as trufas brancas e negras, as folhas de ouro comestível, além das variadas opções de manteiga, queijo e geleia. Sem contar os produtos comercializados unicamente pela empresa, como o queijo de pequi, que começará a ser vendido daqui a três meses. “Após pesquisas, chegamos a um queijo com sabor suave”, antecipa.

Para o gourmet Marco Veronese, a história da gastronomia de Brasília deve gratidão à La Palma e à Mercearia e Frutaria Yoshida, pois anos atrás a cidade não tinha muitas opções para os amantes da boa comida. “Foram essas duas lojas que inseriram os produtos importados e gourmets em Brasília”, diz. Ele conta que, no começo da cidade, era difícil encontrar até mesmo ervas e temperos comuns, como manjericão e alecrim. “A rúcula, por exemplo, só chegou aqui em 1978”, lembra. Veronese acredita que esse segmento é tão importante que, sem os mercados, os empórios e as delicatessen, nenhum restaurante sobreviveria. “São essas lojas quem salvam os restaurantes nas situações de emergência”, afirma.

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Em estufas

Com sabor adocicado, levemente defumado, notas frutadas e textura macia, por vezes até cremosa, o alho-negro não nasce preto, tampouco com a aparência com a qual chega às lojas. O ingrediente, cuja origem divide-se entre o Japão e a Coreia, ganha as especificações a partir do processo de fermentação realizado em estufas. A cabeça-de-alho inteira e com casca descansa na estufa sob umidade e temperatura alta por cerca de três semanas. A coloração escura vem da união dos aminoácidos e açúcares que produzem a melanoidina. Quando retirado da estufa, o alho é mantido em temperatura ambiente por mais uma semana. O processo todo pode levar até um mês. Quando pronto, recomenda-se não esquentá-lo.

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