Saiba mais sobre a importância do poncho

Prática para o homem do campo, peça da indumentária gaúcha também é usada na cidade

Ponchos são destaque em ZH Donna desta semana
Ponchos são destaque em ZH Donna desta semana Foto: Ricardo Chaves

Para explicar a importância do poncho, Joana Bosak lembra que, além de combater o frio, o poncho espalhado sobre o cavalo protegia a montaria e, depois, podia servir de travesseiro e até de “barraca”. Por isso, seria um dos poucos elementos que o homem do campo – o gaúcho, portanto – não poderia deixar de ter para ser considerado como tal.

A relevância da peça estava, nesse caso, associada a um tipo de vida. São apontamentos atribuídos a Luiz Celso Hyarup que lembram a preferência do homem do campo por roupas funcionais, mais adequadas ao cotidiano nômade. Enquanto isso, quem mora na cidade passa a receber a influência de costumes europeus – incluindo aí as roupas.

Quando o peão, no final do século 19, se estabiliza, a indumentária se enriquece. Mudam os modos e as necessidades. E se para alguns isso não ocorreu, o uso do poncho poderia ter ficado relacionado a uma certa diferença social. Para Claudio Knierim, diretor técnico do Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, um tanto dessa estranheza que a peça provoca viria daí:

– O poncho pode ter o signo da pobreza. É uma roupa simplória: praticamente, um cobertor com um buraco no meio, usado pelo pessoal do campo, aquele bando de homens a correr gado, sem acesso aos confortos europeus.

A professora e pesquisadora Véra Stedile Zattera, especialista em Vestuário Tradicional e Costumes, lembra que, de fato, ele teria sido uma indumentária mais usada nos séculos 800. No momento em que o citadino começa a ter condições de adquirir um sobretudo, ele compra, porque combina mais em cima do terno, da fatiota. Então, nos séculos 900, a procura por ponchos é menor, mas continua procurado até hoje. Para Véra, se há alguma resistência ao uso é fenômeno restrito a Porto Alegre.

– Dá a impressão de que a cidade não aceita o campeiro. É um preconceito da cidade contra o interiorano. É uma peça usada por todas as camadas sociais, principalmente no campo – avalia ela, cujos ponchos pessoais ajudam a formar uma mostra histórico-cultural com mais de 2 mil peças, a Documenta, doada à Universidade de Caxias do Sul em 2006.

Conta Véra que até agora, neste inverno, não sentiu falta deles, até porque os acha mais úteis lá, na Documenta, pelo valor que têm para os estudantes de moda da universidade:

– Mulher é complicado, você sabe como é. Quer combinar, aí tem de ver a cor do poncho. Tenho um cor de camelo, de 1880, comprei em um antiquário. É muito elogiado. Sempre que combina, largo ele por cima. O bichará eu uso pouco, só quando vou à fazenda.

Quanto mais se avança em direção à fronteira com o Uruguai e a Argentina, mais provável vai sendo encontrar homens e mulheres vestidos com as capas de uso controverso na cidade grande. Para camperear, é obrigatório. Segundo a pesquisadora Véra, o formato do poncho ou pala se adapta muito bem aos movimentos exigidos na lida. Para o estilista Rui Spohr, a intrínseca relação entre a peça e o campo vai além das necessidades práticas. Há um equilíbrio entre as formas:

– Não é uma peça fácil de usar devido ao grande volume. Acho que, na cidade, pode se tornar um estorvo, num ônibus, numa lotação. Agora, no campo, naquele horizonte todo, ele se encaixa bem. Quando existe espaço, ele fica bem. Tenho notado mulheres que os usam em feiras, tipo Expointer, com bota e legs, acho extremamente charmoso.

O escritor Luiz Antonio de Assis Brasil associou a sua desistência do uso do poncho a esta dificuldade de lidar com o grande volume.

– Já tive um poncho, por pura ostentação e luxo. Acabou como cobertor. Ele agia como uma armadura imobilizadora. Possivelmente, eu não soube usá-lo – suspeita.

Véra Zattara concorda somente quando o modelo é de lã pura.

– Um bichará pode chegar a pesar seis quilos. Para as mulheres, há mais dificuldade de andar com ele por aí – afirma.

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