“Senti que tinha presenciado algo muito raro e bonito”

O fotógrafo Ricardo Wolffenbüttel conta sobre a energia da família surfista

Foto: Ricardo Wolffenbüttel

Me despedi apressado depois de fazer a última foto de uma escritora para a edição especial sobre o aniversário de Floripa. Ela tinha escolhido como lugar preferido da cidade a praia em frente ao palanque no Campeche. Ao olhar aquele mar verde em uma manhã ensolarada de quinta-feira, pensei que eu também teria escolhido aquele pedaço da Ilha como o preferido.
Já saindo, virei para o mar e vi um homem e uma criança surfando uma onda na última arrebentação. Parei. Na hora a cena me chamou a atenção, primeiro pelo inusitado, a criança era pequena e estava lá no fundo, depois pelo sincronismo nos movimentos. Coloquei a câmera no rosto e aproximei o zoom. Vi a pequena surfista abraçada no pescoço do homem.
Ele remou para entrar na onda e ela ficou grudada. Ele ficou de pé no longboard, ela pulou para a frente da prancha já posicionada. Os dois deslizaram e eu comecei a fotografar. Na primeira sequência, os dois caíram depois que a prancha perdeu velocidade. Rapidamente a menina grudou no pescoço do homem como um filhote de macaquinho e os dois voltaram para o meio da crowd.

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Enquanto a dupla esperava as ondas, uma surfista se aproximou e todos eles remaram juntos. Brincaram, riram e a menina desceu da prancha do homem e segurou-se na prancha da mulher. Veio a série de ondas maiores, os dois remaram, com a mesma técnica desceram a onda, agora com mais velocidade. A onda emendou em outra, que os trouxe até a beira. Pude ouvir os gritos de vibração da mulher, ao fundo, e consegui capturar uma sequência de fotos.
Quando eles pularam da prancha fiz sinal para virem na minha direção. Sorrisos largos. Renato segurando Iasmim num braço e o pranchão no outro, Estrela logo atrás. Nos apresentamos e a energia daquela família de surfistas me contagiou. Propus uma reportagem elaborada com equipamento mais adequado. Renato me explicou que dava aulas de surfe e asa-delta. Desde cedo acostumou a filha com o mar. Peguei o telefone dele e antes de sair fiz mais umas fotos da pequena surfista, agora sozinha, deslizando depois de empurrada pelo pai na onda da beirinha.
No caminho de volta à redação, conferindo as fotos no visor da câmera, senti que tinha presenciado algo muito raro e bonito, em uma época em que pais e filhos convivem mais com telas de aparelhos do que entre si, e os programas em família se resumem a um big-lanche qualquer. Poucos dias depois, no domingo seguinte, dia 24 de fevereiro, chega a informação de que um piloto de voo livre havia sofrido um acidente.
Fui para casa no final do plantão enquanto colegas apuravam essa notícia no plantão. Na segunda-feira, lendo o site do DC, vi a foto do pai surfista ao lado da notícia sobre um piloto falecido em um acidente. Renatinho tinha morrido. No mesmo instante, os vinte minutos agradáveis de convívio na praia transformaram-se em um sentimento de revolta. Olhei diversas vezes a sequência de fotos, elas não eram mais leves nem alegres. Tinha a sensação de que elas não me pertenciam mais. Esperei uns dias e comecei a procurar Estrela e Iasmim. Precisava devolver as fotos. O telefone que eu tinha estava mudo.
Alguns dias depois do acidente, toca o telefone na mesa onde estou na redação. Eu atendo, é Estrela, me contando que só me encontrou porque Iasmim lembrou meu nome. Ela me falou do acidente e me perguntou das fotos. Disse que estavam comigo. Conversamos e eu enviei algumas por e-mail. Antes de desligar, ela me disse que existia alguma razão para eu estar naquela praia naquele dia.

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