Sexo também é tema em universidades e entre pensadores

Estudos em sexualidade colaboram decisivamente para desconstruir tabus

Foto: Stock Photos, Divulgação

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Aquilo que se faz entre quatro paredes é também tema de pesquisa nas universidades, de debates em fóruns especializados e matéria-prima de pensadores – o sexo.

Os estudos em sexualidade colaboram decisivamente para desconstruir tabus – a prática da masturbação já foi um deles, por exemplo – e para guiar programas de saúde pública. Saber que aquilo que se deseja e pratica não é tão diferente daquilo que outros desejam e praticam faz com que as pessoas não se sintam desviantes, destacam especialistas na área.

Na entrevista a seguir, o psicoterapeuta sexual, pesquisador e diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, Oswaldo Martins Rodrigues Jr., avalia as contribuições nessa área no Brasil e no Exterior.

Donna – Qual a importância e o impacto dos estudos e reflexões sobre sexualidade?

Oswaldo Martins Rodrigues Jr. – Informações sobre a vida sexual de uma população permitem às pessoas se reavaliarem e, assim, diminuírem mal-estares produzidos por diálogos internos de autocomiseração. Divulgar estudos é uma necessidade de uma sociedade para que ela determine os novos rumos e a saúde de seus membros. Acesso à informação advinda de estudos científicos é um dos Direitos Sexuais advogados pela WAS (Associação Mundial para a Saúde Sexual) e usados pela Organização Mundial de Saúde como base de seus documentos referentes à saúde sexual nesta última década. A apresentação de pesquisas não pode ser entre quatro paredes, por isso é necessário que se apresentem estas informações pelos jornais, revistas, rádio e TV. Que a discussão, baseada cientificamente, seja feita nas escolas e apresentadas pelos pais a seus filhos. Esta aproximação do tema permite aos indivíduos superarem suas dificuldades individuais.

Donna – Quais são os principais pensadores e pesquisadores sobre sexo no Brasil em sua opinião?

Rodrigues Jr. – Pesquisadores são alguns que pouco aparecem. Alguns já foram esquecidos e sequer são lembrados mesmo pelos que hoje estudam sexologia. Um exemplo importante é Hernani de Irajá, médico nascido em Santa Maria, que viveu no Rio e publicou mais de 30 livros, sendo um terço sobre debates a respeito da sexualidade, entre 1917 e 1967. Alguns, que aparecem mais, podem mais facilmente serem reconhecidos: os urologistas Sidney Glina (SP) e Luiz Otávio Torres (MG), a psiquiatra Carmita Abdo (SP), a psicóloga Maria Alves de Toledo Bruns (Ribeirão Preto, SP). A maioria dos pesquisadores apenas aparece nos fóruns de discussão em congressos especializados, e raramente são divulgados pela mídia não especializada, mesmo porque são dezenas e dezenas e não estão na linha de frente de divulgação científica. Grupos de pesquisas começaram a ser criados junto de universidades há cerca de 10 anos de uma forma mais coesa e com financiamentos dentro da universidade. Antes disso, os grupos eram informais, como ainda existem e se autossustentam, embora os membros sejam ligados às universidades que os pagam enquanto professores. Um importante grupo é o CLAM, é um projeto do Instituto de Medicina Social da UERJ. Um problema que aflige os pesquisadores sobre a sexualidade é que não é um caminho fácil de se seguir na academia. As universidades não absorvem facilmente estes estudos por não ter orientadores que possam auxiliar nos debates, orientar as pesquisas ou avaliar corretamente os produtos. Fora as questões de valores pessoais que atrapalham as avaliações desses estudos e pesquisas acadêmicas.

Donna – O Relatório Kinsey (1948 e 1953) e o Relatório Hite (1976 e 1981), respectivamente dos pesquisadores Alfred Kinsey e Shere Hite, são marcos no estudo da sexualidade que se tornaram conhecidos do grande público na época de sua publicação. Além deles, que outros nomes-chave o senhor destacaria no cenário internacional?

Rodrigues Jr. – Antes deles, muitos europeus, indianos e japoneses dedicaram-se ao estudo cientifico da sexualidade. A própria Shere Hite foi muito controversa quando publicou seu primeiro Relatório Hite, ainda na década de 1970, pois usou informações remetidas a um periódico leigo, mesmo que as respostas fossem compostas de milhares de cartas descritivas do comportamento sexual de americanas. Além de um passado de modelo de passarela não contribuir com uma figura cientifica que se imagina nas ruas…

William Masters e Virgina Johnson foram muito importantes, contribuindo com o conhecimento a respeito das bases fisiológicas e a confirmação de que as técnicas psicoterápicas desenvolvidas concomitantemente ao inicio de seus estudos eram válidas para o tratamento de problemas sexuais. O casal inicia estudos em 1953 e só os tornam públicos ao mundo leigo em 1966, após dezenas de publicações em periódicos científicos.

Na sequencia a psiquiatra Helen Kaplan aparece com estudos e divulgações que disseminam mais a necessidade de se tratarem os problemas sexuais.
No mundo da língua portuguesa, temos, na universidade do Porto, Antonio Palha e, na Universidade de Trás dos Montes, Pedro Nobre. Em Angola, surge um novo nome, Nvunda Tonet, da Universidade Oscar Ribas, apresentando a psicologia para os cuidados com a vida sexual junto a uma população que desconhece estas vertentes.

No Brasil os nomes foram conhecidos por serem divulgadores científicos, a exemplo da socióloga Maria Helena Matarazzo, ou a psicóloga Marta Suplicy nas décadas de 1970 e 1980.

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