Sibutramina passa da tarja vermelha para a preta

Medicamentos com a substância serão mais controlados no Brasil

Substância agora só será vendida com receita médica
Substância agora só será vendida com receita médica Foto: Charles Guerra

Vai ficar mais difícil comprar os medicamentos que contêm sibutramina. Uma resolução da Anvisa na terça-feira muda a tarja dos medicamentos de vermelha para preta. Eles eram vendidos com receita branca (de controle simples – C1) e, agora, passam a ser comercializados com a receita azul (de controle especial – B2).

Reductil, Plenty, Saciette, Biomag, Vazy, Slenfig, Sibutran e Sigran são alguns remédios que contêm a substância. Segundo o endocrinologista Márcio Mancini, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Síndrome Metabólica, o consumo aumentou de 10 a 20 vezes depois que foi quebrada a patente do produto em 2007, ou seja, outras empresas foram liberadas a fabricar medicamentos com essa substância.

A decisão foi tomada pouco mais de dois meses depois de a Europa suspender a venda da substância, com base em um estudo que ligou o remédio ao maior risco cardíaco em pessoas propensas. As empresas detentoras de registro do medicamento terão 180 dias para mudar as bulas e as embalagens.

– A sibutramina foi colocada em uma nova categoria para evitar que prescrevam de maneira inadequada, pelo que foi publicado na Europa, em janeiro, que deixou de autorizar a prescrição e a comercialização por causa de um estudo que mostrou que os pacientes com alto risco cardiovascular pioravam tonando sibutramina – explicou o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) em SC, Alexandre Hohl.

No caso de medicamentos incluídos na lista B2, só pode ser prescrita uma caixa por receita. Para Hohl, isso pode dificulta o tratamento da obesidade, que é uma doença crônica, obrigando o paciente a retornar todos os meses para pegar nova receita.

SC lidera o ranking de maior uso

Santa Catarina é o maior consumidor de sibutramina, substância usada em medicamentos para emagrecer e que passou a ter um controle mais rígido desde terça-feira. Especialistas dizem que há duas hipóteses para justificar os dados divulgados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa ): ou os catarinenses são muito preocupados com a imagem ou há um abuso na prescrição do remédio.

As informações, relativas a 2009, são do primeiro relatório do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC). Além da sibutramina, Santa Catarina está entre os que mais consomem anfepramona, femproporex e mazindol – anfetaminas usadas para emagrecer (veja infográficos ao lado).

Os númerosss são altos também porque há no Estado muitas farmácias e drogarias cadastradas no SNGPC. O estudo sugere um abuso na hora de prescrever a medicação. Entre os 10 médicos que mais receitam sibutramina, por exemplo, está um especialista em tráfego.

– O médico do tráfego avalia as condições dos pacientes que vão tentar uma carteira de motorista. Embora não seja proibido, não é coerente que um médico prescreva um medicamento que não está diretamente relacionado ao seu campo de atuação – explicou a farmacêutica Márcia Gonçalves, coordenadora do SNGPC.

Estética estimula o alto consumo

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) em Santa Catarina, Alexandre Hohl, o Estado não tem grandes problemas com a prescrição médica:

– Temos uma medicina consciente. Há um caso ou outro de maus prescritores. A maioria prescreve muito bem, até de outras especialidades.

Outra hipótese para o alto consumo do medicamento pode estar associada ao cuidado do catarinense com a imagem. Na Clínica Biocentro, em Florianópolis, cerca de 400 clientes procuram, todo mês, o endocrinologista Rodrigo Caldeira de Andrada Costa. O especialista calcula que de 30% a 35% estão interessados em emagrecer.

– Não sei por que Santa Catarina tem alto uso de medicamentos para emagrecer. Talvez porque a população esteja mais preocupada com a estética ou por ter um poder aquisitivo maior para fazer este tipo de tratamento – opinou.

A diretora Estadual de Vigilância Sanitária Raquel Bittencourt solicitou informações sobre os médicos, farmácias, drogarias e municípios que prescrevem o medicamento para planejar uma fiscalização. Os dados serão recebidos na semana que vem. Ela concorda com o endocrinologista Costa.

– Há muita prescrição do medicamento porque as pessoas estão muito preocupadas com a imagem.

A diretora lembra de um estudo para mostrar essa visão. Há quatro anos, uma pesquisa realizada em Florianópolis mostrou que quem menos receitava remédios para emagrecer eram os endocrinologistas, justamente o especialista no assunto.

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