Sites que ajudam homens e mulheres a encontrar amantes ganham espaço no Brasil

Fenômeno nos EUA e na Europa, portais são voltados para quem quer fugir do sexo rotineiro, sem abrir mão do casamento

Sites são voltados para quem quer fugir do sexo rotineiro
Sites são voltados para quem quer fugir do sexo rotineiro Foto: Jefferson Botega

Na tela do computador, por uma porta entreaberta é possível ver um casal em vias de se conhecer como vieram ao mundo. Acima deles, paira o símbolo do sagrado matrimônio: uma aliança de casamento substitui a letra “O” do logo do site. Abaixo, uma provocação em inglês: “A vida é curta, tenha um caso”. E para quem ainda hesitar, está lá o lembrete: “há 1.139 associados perto de você online agora mesmo”.

O assunto ali é sexo para casados – mas não com seus maridos e esposas, e sim com um amante disponível entre os membros da Ashley Madison, rede internacional de sites para infidelidade que chega ao Brasil em agosto. Será a segunda franquia internacional do gênero a desembarcar no país neste ano. A primeira foi a Second Love, inaugurada em maio, que se somou aos sites nacionais, como o Só Casados e o Pulando Cerca: prova que a traição como filão de mercado online parece estar só esquentando. E não só para casais héteros: além desses serviços oferecerem a opção de buscar parceiros do mesmo sexo, o Só Casados, por exemplo, criou um site só para o público bissexual. Há ainda serviços complementares, como o Alibi Network, site americano destinado a tornar mais convincentes as desculpas dadas a cada escapadela: você diz que foi a um congresso, e eles providenciam o material do suposto evento. Ou seja, infidelidade com requintes de organização como jamais se viu.

Fenômeno que se estende dos Estados Unidos à Europa, os sites são voltados para quem quer fugir do sexo rotineiro, sem abrir mão do casamento. Em vez de se expor à procura de amantes em um bar, no trabalho ou na roda de amigos, as redes sociais para casados afirmam que é possível trair com mais segurança, combinando tudo virtualmente, sob o anonimato de um pseudônimo. Sigilo absoluto e praticidade são as palavras de ordem: como todos sabem por que estão ali, não há necessidade de mentir que o casamento está em crise ou fazer promessas. Valeria apenas, digamos, gozar o momento.

– No meu perfil, coloquei: “só me relaciono com mulheres casadas”, justamente para não ter cobrança – conta Argentino43, pseudônimo utilizado por um morador da Capital no site Pulando Cerca, com base no Estado. – Posso ser objetivo e sincero, e depois cada um retorna para sua vida.

Ironicamente, os sites para infidelidade vêm no rastro das páginas de namoro que se multiplicam na internet. No mercado de sites de relacionamento, empreendedores perceberam um nicho a desbravar: a gerente-geral e porta-voz da Ashley Madison no Brasil, Jas Kaur, e Sigurd Vedal, o verdadeiro nome por trás da rede internacional Victoria Milan, citam uma pesquisa atestando que 30% dos participantes de agências virtuais para solteiros seriam comprometidos em busca de uma relação paralela. Ali estava um novo filão.

Na rota de expansão das franquias internacionais, o Brasil se impôs. Com pouco mais de um mês da rede Second Love no país, a porta-voz Anabela Santos afirma que a recepção foi promissora e a expectativa é de crescimento nos próximos meses. Jas Kaur diz que o Brasil surpreendeu antes mesmo de o site aportar aqui: a Ashley Madison identificou muitos usuários de sites da rede, em outros países, conectados a partir de computadores no Brasil, a ponto de os brasileiros representarem o maior número de visitantes da América Latina. Somam-se a isso a fama da volúpia dos trópicos e dados de pesquisa, como o estudo do Instituto Tendencias Digitales, realizado em11 países latino-americanos, apontando o Brasil como recordista local de infidelidade – 56,4% das mulheres e 70,6% dos homens entrevistados dizem já ter traído ao menos uma vez.

– Diz-se que é muito mais fácil trair no Brasil e na América Latina, porque a traição é tratada de forma diferente, especialmente quando são homens traindo. É um estereótipo cultural, também presente entre franceses, espanhóis e italianos, que incorpora a noção de que é complicado viver durante anos com uma pessoa sem nunca ter experimentado um caso extraconjugal – explica Kaur, indiana que viveu 19 anos no Brasil.

Na ordem do trair e teclar e só começar, não faltam críticas. Em abril, quando a rede Victoria Milan chegou à Espanha, fazendo publicidade com frases de efeito como “Reviva sua paixão. Tenha um Caso”, a voz dos indignados soou no Facebook, com reclamações na página da empresa, como: “Me dá asco o que vocês propõem. Que tipo de moral os move?”. No Brasil, até agora a polêmica não se fez ouvir, talvez pela sutileza com que os sites já existentes foram amealhando adeptos – o barulho pode começar com a milionária campanha publicitária em rádio, TV e mídia impressa anunciada pelo site Ashley Madison. Mas os profissionais da área já têm na ponta da língua as justificativas de por que o serviço que prestam teria, sim, uma função social.

– Nossos membros dizem que somos uma alternativa ao divórcio, que salvamos seus casamentos – afirma Sigurd Vedal, casado há 10 anos e, diz ele, feliz e fiel. – Ser infiel depende de muitas situações de vida particulares, e nós não desejamos julgá-los, ao contrário, ajudá-los. Se um affair torna seus casamentos e suas vidas melhores, ficamos felizes.

O mantra dos sites de traição é “não incentivamos a infidelidade, apenas ajudamos quem já estava disposto a trair”. Um levantamento feito em 2009 com os usuários do Second Love na Holanda reitera esse argumento: 80% dos entrevistados afirmam que já haviam tido affair anteriormente e 27% acreditam que o sexo no casamento melhorou depois. E os sites não são apenas para chegar às vias de fatos, como lembra Anabela Santos:

– Uma série de membros do Second Love quer somente conversar com outra pessoa, ter atenção extra que não encontra na sua relação atual.

Mas criadores e criaturas e não escapam à controvérsia. Embora reitere que seu site não convence ninguém a ser infiel, o administrador do Só Casados, morador do Paraná, prefere se manter tão anônimo quanto seus clientes.

– Se a pessoa é feliz em seu casamento, mesmo que fique conhecendo o site, não vai se cadastrar, simplesmente porque não tem motivo – destaca. – Prefiro não me identificar porque muitos, inclusive da minha família, não sabem que tenho esse site, e trata-se de um assunto polêmico.

Mesmo acreditando que a discussão em torno dos sites de traição não passa de falsa moral, o criador do Pulando Cerca também prefere ser conhecido apenas pelo pseudônimo, Kaio Cristopher. É que, sob o nome verdadeiro, ele mantém um site de namoros.

– Imagina o marido que foi traído, se separou e veio buscar o site de relacionamentos. Daí, sabe que também tenho o Pulando Cerca? Vai pensar que incentivo a traição, e não ficaria bem.

Autora do livro Por que Homens e Mulheres Traem, a antropóloga carioca Mirian Goldenberg não faz coro à acusação de essas redes desvirtuam casamentos (“Quem valoriza a fidelidade não vai trair nem com site nem sem site”), reconhece que um serviço que reúne pessoas para um fim explícito minimiza a recusa e a rejeição e facilita a vida de quem trai, mas também aponta, por estes mesmos motivos, a perda do encantamento num site com fins tão óbvios.

– Esse serviço elimina uma etapa que, para muita gente, casado ou solteiro, é fundamental: de encantamento, de sedução. Querem chegar direto aos finalmentes sem o jogo da conquista, como se o sexo fosse o principal valor, não a conquista – avalia Mirian.

A antropóloga não se surpreende, portanto, com o grande desafio que se impõe aos sites de infidelidade: atrair mais mulheres, já que a grande maioria dos cadastrados são homens (leia texto na página ??) – para elas, explica Mirian, a conquista, a chance de se sentir especial, muitas vezes motiva a traição muito mais do que o sexo. Já a psicanalista Diana Corso não vê grande novidade em sites para casados infiéis:

– Todo tipo de relação que temos na sociedade acaba gerando um site de relacionamentos, por que não um para a relação extraconjugal?

Redes sociais como essas, destaca Diana, fundariam a possibilidade de o traidor se sentir parte de uma comunidade, comungar com seus pares, e ter a ilusão de controle. Um dos trunfos alardeados por esses serviços, destaca, consistiria em uma ilusão: a crença em uma traição “segura”, em que o casamento estaria a salvo de riscos se tomadas as devidas precauções.

– Seguidamente, duas pessoas casadas se envolvem e pensam que é apenas um arroubo de desejo e, ainda assim, não conseguem evitar de se apaixonar – pontua Diana.

Os sites para traição dão garantias para o flerte virtual e os trâmites que antecedem a realização do desejo – estar nos braços de outro(a). Mas, não importam as medidas de segurança ou o que cada um tenha dito quando preencheu seu perfil, o que acontece depois de um encontro segue imprevisível. Como sempre foi.

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