“Só peço que me perdoem”, diz babá presa acusada de agredir casal de gêmeos em Caxias do Sul

Cristiane de Azevedo Boeira, 35 anos, está presa preventivamente desde quarta-feira passada

Em entrevista exclusiva, a babá Cristiane de Azevedo Boeira, 35 anos, acusada de agredir um casal de gêmeos, hoje com 11 meses, falou ao Pioneiro na quarta-feira na Penitenciária Regional do Apanhador.

Tentando gesticular apesar das algemas e enxugando as lágrimas enquanto se defendia das denúncias, a babá alegou não lembrar das agressões e se disse se sentir horrível.

Em vídeo, veja a entrevista de Cristiane

Confira abaixo os principais trechos da entrevista, que teve a concordância do defensor da babá, da Justiça e da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe):

Pioneiro: Por que a senhora agredia os gêmeos?
Cristiane de Azevedo Boeira:
Não sei dizer. Não cheguei a ver (as imagens). Eu não tinha consciência do que estava fazendo. Olha há quanto tempo eu ficava com eles (cerca de seis meses) e não machucava eles tanto tempo, eu gostava deles.

Pioneiro: O que passava pela sua cabeça quando percebia as agressões?
Cristiane:
Eu não fazia ideia daquilo ali, não me passava nada pela cabeça…

Pioneiro: Por quê?
Cristiane:
Talvez pelo estresse que eu vinha enfrentando. Todo o tempo de jornada de trabalho que eu tinha… Todos diziam para mim “para um pouco, não fica tanto (nas casas), não trabalha tanto”.

Pioneiro: Que jornada de trabalho a senhora tinha?
Cristiane:
Eu trabalhava em outra casa (além da residência dos gêmeos, cuidava de outro casal de gêmeos na segunda, quarta, sexta e final de semana). Também controlava outras meninas (babás) que eu tinha colocado para trabalhar em casas de família.

Pioneiro: A senhora sabia que câmeras tinham sido instaladas na casa?
Cristiane:
Sabia que uma vez um senhor tinha ido instalar lá.

Pioneiro: A senhora viu as imagens das agressões?
Cristiane:
Não, porque quando aconteceu isso (prisão) eu vim direto para o presídio.

Pioneiro: A senhora conversou com os pais das crianças? O que disse a eles? Cristiane: Não conversei com eles.

Pioneiro: Trabalhava há quanto tempo na casa?
Cristiane:
Há uns cinco meses.

Pioneiro: A senhora disse não ter visto as imagens. As gravações mostram que em pelo menos cinco ou seis dias, em um intervalo de cerca de um mês, a senhora maltratava e agredia as crianças. Os braços eram retorcidos, eram jogadas num sofá no quarto e as cabeças delas eram batidas violentamente uma contra a outra, entre outras agressões. Não lembra de nada disso?
Cristiane:
Não me recordo do que fazia (pausa)… não lembro mesmo (pausa)… Eu dava carinho para eles (gêmeos), mas essas coisas (agressões) eu não tinha noção do que fazia.

Pioneiro: Que sentimento a senhora tem pelos gêmeos?
Cristiane:
Gosto deles, tenho carinho. Eu viajei com eles (chegou a ir a Punta Del Leste, no Uruguai com o casal e as crianças). A família viu que eu ficava com eles e cuidava bem.

Pioneiro: A senhora está arrependida?
Cristiane:
Estou. Se eu pudesse, não teria feito nada. Não tinha intenção de fazer nada daquilo.

Pioneiro: Se pudesse voltar no tempo, o que teria feito diferente?
Cristiane:
Tudo diferente.

Pioneiro: Em que sentido?
Cristiane:
Em tudo. Está acontecendo a destruição da minha família, a minha destruição (choro). Agora eu não sou mais ninguém. Sou um lixo, me sinto horrível.

Pioneiro: A senhora tem uma menina de um ano e oito meses (além de um rapaz de 18 anos), que está sendo cuidada por seu marido e por sua mãe…
Cristiane: Tenho.

Pioneiro: Se a senhora soubesse ou se visse imagens de alguém maltratando a sua filha, o que pensaria?
Cristiane:
Pensaria que (pausa)… Não sei bem. Teria de ver o motivo pelo qual a pessoa fez aquilo. Tentaria perdoar pensando no carinho a pessoa deu, no restante das coisas boas que fez.

Pioneiro: Existe motivo para perdoar alguém que maltrata ou agride crianças?
Cristiane:
Acho que pelas outras qualidades que vinha fazendo (no cuidado dos bebês), pela demonstração de carinho… Olha quanto tempo eu passava com eles (12 horas todas as terças e quintas)… Estou arrependida.

Pioneiro: Nas imagens as crianças não fazem “arte” alguma, não mexem em nada, não choram, não jogam comida fora, até brincam… Elas têm um comportamento normal e mesmo assim são agredidas. Por quê?
Cristiane:
A minha jornada de trabalho era (pausa)… eu chegava a dormir só umas três, quatro horas por dia, não mais que isso. Era bem estressante. Todos diziam para mim, até as senhoras onde eu trabalhava: “Cris, tira férias”, mas as senhoras (mães das crianças que eram cuidadas) precisavam também de mim, ela não tinham ninguém para contar.

Pioneiro: A senhora procurou algum tipo de ajuda médica?
Cristiane:
Eu sempre ia ao médico, no plantão. Sempre ia nos plantões, aí o doutor me dava remédios para o estresse e dizia “daqui uns 10 ou 15 dias acho que passa tudo”.

Pioneiro: A senhora estava consultando com algum psiquiatra ou psicólogo, algum especialista que trate de comportamento?
Cristiane: Não. Eu não tinha tempo, não tinha como. A minha jornada de trabalho não permitia.

Pioneiro: O que a senhora quer dizer aos pais dos gêmeos, que depositaram tanta confiança, entregando filhos com cinco, seis meses para serem cuidados? Cristiane: Para eles me perdoarem (choro), se algum dia puderem fazer isso. Não tive a intenção de fazer aquilo. Porque eu gosto das crianças, não tive intenção de fazer nada (choro).

Pioneiro: Se a senhora pudesse voltar no tempo, buscaria um tratamento mais rápido ou ouviria mais conselhos?
Cristiane:
Isso.

Pioneiro: A senhora se sente injustiçada?
Cristiane:
Não, se eu tiver que pagar pelo o que eu fiz (pausa)… mas eu não tive a intenção de fazer nada daquilo ali (choro).

Pioneiro: A senhora foi agredida após ser levada para a Penitenciária Industrial (o Pioneiro apurou que algumas presas espancaram Cristiane, que precisou ser medicada e por isso foi transferida para a cadeia do Apanhador)?
Cristiane:
Não.

Pioneiro: A senhora alegou ter caído?
Cristiane:
Sim, isso.

Pioneiro: Como está sendo a rotina na cadeia do Apanhador?
Cristiane:
Eu tenho ficado na cela (isolada, já que a cadeia abriga apenas homens), tenho lido.

Pioneiro: A senhora tem ido ao pátio pela manhã e à tarde fica na cela?
Cristiane:
Sim.

Pioneiro: Entrevistado pelo Pioneiro (com exclusividade, pelo repórter Guilherme A. Z. Pulita), seu marido disse não conhecer a pessoa que cometeu as agressões e alegou ter ficado horrorizado. Quem ele viu nas imagens?
Cristiane:
Não sei que pessoa ele viu. Sempre me dizia para parar, para tirar umas férias…

Pioneiro: Ainda com relação às agressões, a senhora lembra de ter tido intenção de machucar? O menino, por exemplo, teve a clavícula quebrada…
Cristiane:
Não tive intenção alguma de machucar ninguém.

Pioneiro: Quando uma criança faz algo errado, ela precisa ser educada de que forma?
Cristiane:
Com carinho, com amor. Depende o jeito, chamar a atenção de foram correta.

Pioneiro: E se ela não faz nada errado, a senhora acha injusto e covarde qualquer tipo de agressão?
Cristiane:
Sim, porque ela não fez nada, não tem como…

Pioneiro: A senhora acha que a família dos gêmeos vai conseguir retomar a vida normalmente e confiar em alguém para cuidar delas?
Cristiane:
Peço para me perdoarem pelo que fiz.

Veja as imagens das agressões:

Ouça o comentário do jornalista Paulo Sant’Ana sobre o assunto

>> ENTENDA O CASO:

Novembro

:: Os pais dos gêmeos instalaram câmeras no quarto dos bebês e na sala de casa no começo de novembro, por desconfiarem de marcas no corpo das crianças. Ingênuos, segundo a delegada Suely Rech, que investiga o caso, eles resolveram assistir as imagens somente após 23 dias de gravações. Imediatamente encaminharam o caso à polícia.

:: Cristiane de Azevedo Boeira, 35 anos, é a mulher que aparece nas imagens agredindo os bebês, hoje com 11 meses.

Quarta-feira (15 de dezembro)

:: A babá teve a prisão preventiva decretada e foi presa no mesmo dia.

:: Cristiane precisou ser encaminhada à Polícia Civil para fazer o registro de uma ocorrência. Segundo ela, por volta das 19h, estava deitada no beliche de uma cela e, ao se virar, caiu da cama e machucou as costas e a cabeça. Fonte ligada ao sistema prisional afirma que um grupo de apenadas agrediu Cristiane.

Quinta-feira (16 de dezembro)

:: A babá foi transferida para o Presídio Regional do Apanhador, por motivos de segurança.

Sexta-feira (17 de dezembro)

:: Em entrevista ao Pioneiro, o marido da babá, abatido, disse que aquela mulher do vídeo não é a pessoa que ele conhece.

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