Sociólogo Domenico de Masi fala sobre ócio criativo, felicidade, tecnologia e globalização

Para italiano, sociedade precisa aproveitar os momentos de ócio para criar

Entrada no cheque especial se concentra entre os dias 1º e 10 do mês
Entrada no cheque especial se concentra entre os dias 1º e 10 do mês Foto: Julio Cavalheiro

Prestes a lançar o próximo livro, Felicità (Felicidade), o sociólogo Domenico de Masi esteve em Blumenau no início do mês para uma palestra voltada a professores universitários, do Grupo Uniasselvi. O italiano tratou o tema “Docência: criatividade e inovação para a geração do século 21”. Para ele, o ensino precisa ser mudado para que a sociedade consiga sobreviver na era pós-industrial.

Amigo pessoal de Oscar Niemeyer e Fernando Henrique Cardoso, publicou seis livros que tratam especialmente da maneira como aproveitaremos o tempo em uma sociedade na qual o ócio criativo se torna cada vez mais essencial.

Em entrevista, o sociólogo mostrou toda a didática que defende em suas palestras. Explica suas teorias e observações a respeito do mundo em que vivemos usando uma folha de papel, exemplos práticos e estimulando a participação do interlocutor, deixando claros os conflitos complexos da sociedade atual.

Trabalho intelectual, lazer e aprendizado interligados

Para De Masi, os indivíduos estão separados em três classes bem determinadas e divididas pela maneira como unem trabalho intelectual, lazer e aprendizado sem desmembrá-los. Na sociedade industrial, estas três atividades mentais conviviam separadamente. Hoje o trabalho tem um caráter mais intelectual e cada vez mais as atividades braçais são feitas por máquinas.

Nesse cenário, estamos divididos entre os que trabalham criando, se divertindo e aprendendo; aqueles que excercem tarefas técnicas; e os que não conseguem entrar em nenhum dos dois grupos anteriores mesmo que tenham formação.

De Masi alerta para a tendência de os trabalhos intelectuais prevalecerem, por isso a sociedade precisa aprender a saber dividir o tempo e aproveitar os momentos de ócio para criar. Ele mesmo está em constante processo de criação. Seu novo projeto, o livro Felicidade, lançado com o fotógrafo Olivieiro Toscani, famoso pelas campanhas polêmicas da Benetton, é um divertimento, como ele mesmo define.

Enquanto a nova obra não chega ao Brasil ? pela Editora Globo, sem data definida ? ele explica, bem-humorado, como funciona o ócio criativo na prática e as mudanças na sociedade.

ENTREVISTA

Como será a sociedade que vive na prática o ócio criativo?

De Masi – Na Itália, 70% da população desenvolve um trabalho intelectual, ou seja, trabalho, lazer e aprendizado vêm de um modo intricado. De vez em quando só trabalhamos, de vez em quando estudamos ou nos divertimos. Mas podemos juntar o trabalho ao estudo, quando aprendemos durante o trabalho. Há momentos que estudamos e nos divertimos, quando assistimos a um filme e vamos ao teatro, por exemplo. Mas há situações em que as três atividades também são feitas de uma forma única. Isso é o ócio criativo. Por exemplo, o que estamos fazendo durante essa entrevista é isso: trabalhando, aprendendo e nos divertindo. Isso já está sendo vivido na prática, ou melhor, as pessoas podem praticar isso hoje. Existe uma grande diferença em trabalhar sentindo prazer em relação a quem faz sem gostar. Ócio criativo é o contrário do fazer nada.

Como funciona o ócio no trabalho?

De Masi – À medida em que se sobe na pirâmide empresarial, percebe-se que quem está na base desenvolve menos ócio criativo que quem está na ponta, por exemplo, o presidente da empresa e o operário. Nas empresas, o ócio criativo é mais praticado pelos homens do que pelas mulheres porque os homens estão no topo da pirâmide. A tendência é que as funções da base da pirâmide sejam feitas por máquinas.

Como essas pessoas vão superar o desemprego?

De Masi – O desemprego depende de duas causas: tecnologia e globalização. Pensemos, por exemplo, na tecnologia. Quantas funções de trabalho são eliminadas pelo iPad? Os que plantam as árvores, os madeireiros, os que levam a madeira para a fábrica de papel, os que levam o papel na tipografia, os transportadores de jornal, os vendedores de jornais. São seis pessoas eliminadas, pelo menos. Onde foi produzido o iPad? Na China, em uma fábrica de 850 mil operários que fazem todos os iPads, Ipods e Iphones do mundo. O design é da Califórnia. Isso é a globalização. No Primeiro Mundo é feito o design, no Terceiro Mundo, a produção material. No Terceiro Mundo, não há laboratório de produção científica, não há Hollywood para produção de filmes, por exemplo.

O desemprego é crescente em todo o mundo porque os seres humanos aprenderam a produzir mais coisas com menos trabalho. Isso é civilização. Mas qual é a solução capitalista no mercado de trabalho? Cria-se um grupo de trabalhadores criativos privilegiados, por exemplo, 30% da população; outro de trabalhadores privilegiado executivos, 40% da população; depois vem os 30% formado por pessoas privadas de qualquer garantia – que nem estudam, nem trabalham. Aqueles que terminaram os estudos e não trabalham e os que já não trabalham mais. Na Itália, hoje, 2 milhões de pessoas estão nessa última situação. Elas são condenadas a consumir, mas são impedidas de produzir.

Mas como essas pessoas sobrevivem?

De Masi – Elas vivem com ajuda do governo, em países em que reina a real democracia. Na Itália e no Brasil, por exemplo, com a ajuda da família. Na Itália, os jovens ficam em casa quando adultos por alguns anos. Na América, saem de casa muito cedo. Para o mundo todo viver na terceira faixa é uma tristeza. O grupo de 30% na América muito tempo não existiu porque as pessoas saiam de casa aos 20 anos para trabalhar. Agora não há mais trabalho e eles ficam em casa.

Como sair deste terceiro grupo para chegar aos privilegiados?

De Masi – Há uma barreira fortíssima entre os grupos. Há uma diferença de intelecto entre os três grupos. O primeiro grupo é genial. Entre o primeiro e o segundo, poderíamos dizer que há uma barreira biológica. Mas entre o segundo e o terceiro não há diferença. Nenhum dos dois são criativos, os dois estudaram. Não é uma barreira biológica, mas legal. O que acontecerá com o terceiro grupo é a grande incógnita do milênio. Alguns entram em depressão, outros fazem voluntariado, poucos viram ativistas políticos, outros caem nas drogas e há os que acabam na criminalidade. Eles fazem trabalhos temporários, sem garantia nenhuma.

O seu novo livro se chama Felicidade. No Brasil, o governo tentou tornar a felicidade um direito garantido por lei. Isso demonstra como nós, brasileiros, ainda não temos noções de trabalho com lazer intricados?

De Masi – Interessante, mas é mais fácil impor a infelicidade que a felicidade. Meu livro é um divertimento. Eu fiz junto com um amigo (o fotógrafo Oliviero Toscani) que fez as fotografias e eu fiz os pensamentos. O livro será lançado no Brasil pela Editora Globo, mas ainda não sei quando.

O senhor chegou a encontrar a definição da palavra “felicidade”?

De Masi – São tantas as definições. Aristóteles faz uma lista de coisas que poderiam servir à felicidade: a boa saúde, ter amigos simpáticos, um bom trabalho. Para mim, o que seria felicidade? A fortuna de nunca ter relações com pessoas cretinas. Isso, infelizmente, o governo não pode impor. O governo deveria impor a migração de todos os cretinos (risos).

No futuro, diante das mudanças, a arte pode aumentar na vida das pessoas?

De Masi – Para poder fabricar os produtos que são consumidos por nós é necessária muita tecnologia e pessoas com formação técnica. Para fabricar um iPod é preciso um engenheiro e dentro dele há música. E para colocar a música lá é preciso de um músico. Portanto, quanto maior a tecnologia, mais necessário o trabalho humanístico. O celular é cheio de conteúdo humanístico, pois tem máquina fotográfica, música, informações.

A diferença de uma máquina industrial para uma pós-industrial é que agora a máquina atende a muitas necessidades de só um ser humano. Mas nós não temos essas necessidades. Um computador, por exemplo, pode calcular, desenhar, mas nós não sabemos como pedir essas funções a elas. Eu só o uso para escrever. Nós, seres humanos, temos poucas perguntas à máquina. Gastão Bacelar, um grande epistemólogo, disse que na sociedade industrial se dizia “dai-nos hoje nosso alimento cotidiano”. Já na sociedade pós-industrial, dizemos “dai-nos hoje a nossa fome cotidiana”. Temos comida, mas não temos a fome. Faltam os desejos e as necessidades fortes aos seres humanos. Queremos tudo, mas nada grande que dure muito.

:: Livros de Masi

? A Emoção e a Regra: os Grupos Criativos na Europa 1850 a 1950 (1997)

Discussões sobre as “ideias ocidentais” ocidentais que pairaram entre 1850 a 1950.

? A Economia do Ócio

Mostra como o ócio, quando maximizado, é capaz de aumentar a produtividade por meio da produção das ideias.

? O Ócio Criativo

É uma crítica ao modelo social centrado na idolatria ao trabalho. Para ele, o futuro pertence a quem sabe mesclar trabalho, estudos, atividades lúdicas e tempo livre.

? A Sociedade Pós-Industrial

Livro de ensaios de um grupo de estudos italiano capitaneado pelo sociólogo em busca de definições e análises sobre a sociedade pós-industrial.

? O Futuro do Trabalho

Analisa, novamente, a importância do trabalho, principalmente depois que a tecnologia passa a permitir tempo livre às pessoas.

? Criatividade e Grupos Criativos

Apresenta, à luz de diversas ciências, o fato de que a maior parte das criações humanas são resultados de processos coletivos e não obras de gênios individuais.

? As Palavras no Tempo

Em colaboração com Dunia Pepe, revisita temas como natureza, civilização e humanidade, comparando a atual ciência e as ideias iluministas.

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