Sucesso nos EUA, série “Girls” retrata uma geração com muita liberdade e pouca perspectiva

Seriado da HBO estreia nesta segunda-feira às 22h no Brasil

Sem glamour, sem emprego e sem dinheiro, Marnie, Jessa, Hannah (Lena Dunham, de xadrez) e Shoshanna vivem a diversão e as angústias de ser jovem em Nova York
Sem glamour, sem emprego e sem dinheiro, Marnie, Jessa, Hannah (Lena Dunham, de xadrez) e Shoshanna vivem a diversão e as angústias de ser jovem em Nova York Foto: HBO

Lena Dunham: guarde este nome. Esta jovem gordinha, tatuada, nascida e criada em Nova York, estrela, escreve, produz e dirige Girls, o seriado da HBO que estreia no Brasil nesta segunda-feira, às 22h. Só pelo buzz que a série causou nos Estados Unidos, já rendeu duas indicações ao Emmy (o Oscar da televisão) deste ano. A produção já teve o aval do canal para a segunda temporada e transformou a jovem de 26 anos em sensação da noite para dia, com direito a apadrinhamento do produtor Judd Apatow, de O Virgem de 40 Anos.

Engana-se quem pensa que Girls, como o nome sugere, trata da vida de mulheres, numa espécie de versão jovem de Sex and the City. O programa vai muito além das desventuras amorosas de quatro mulheres. Ele retrata, de forma crua e divertida, como nenhuma série antes, um problema real que assombra a geração Y, nascida entre 1980 e 1990: nunca se teve tanta liberdade, tantas possibilidades e tão pouco dinheiro e perspectiva.

Na série, Hannah é chamada pelo pais para discutir um assunto importante: eles não vão mais sustentá-la. Girls lança um olhar cômico sobre as diversas humilhações e os raros triunfos da protagonista. Formada em literatura e sonhando ser escritora, ela vive em Nova York, não tem emprego fixo e pede dinheiro aos pais por acreditar que pode se tornar “a voz de uma geração”. Tudo isso ela também discute com as amigas, sempre num ritmo linear e sem muitas reviravoltas bem como na vida. Na série, as personagens são todas perdidas e sem rumo.

Hannah (protagonista interpretada por Lena), Marnie (Allison Williams), Jessa (Jemima Kirke) e Shoshanna (Zosia Mamet) buscam o sucesso que o mundo tanto espera delas: elas são jovens, inteligentes e felizes. Mas ainda falta uma carreira.

– A protagonista sonha em publicar seu próprio livro e quer um emprego no qual possa conciliar paixão e trabalho. Para ela, típica integrante da geração Y, é o prazer que determina a realização profissional. Essa dificuldade de se realizar no emprego é um dos principais problemas desta ansiosa geração – aponta Filipe Techera, da Box 1824, empresa especializada em pesquisa de comportamento e tendências.

Parece até piada do tipo “classe média sofre”, mas uma pesquisa recente publicada pela revista Esquire mostra que um em cada quatro jovens nos Estados Unidos voltou para a casa dos pais depois de formado. E apenas 54% dos americanos entre 18 e 24 anos estão empregados, a menor taxa desde que o índice começou a ser divulgado. Não é preciso ir tão longe: todo mundo tem um irmão, primo, sobrinho, filho ou vizinho formado e completamente sem rumo. Ou pior ainda: é um deles.

Girls virou um fenômeno de público exatamente pela identificação que desperta em um telespectador que ainda não tinha se visto retratado na televisão de maneira tão realista e cativante.

– Desde passar por estágios não remunerados até abrir mão de um bom salário para poder ter liberdade de horários e realizar seus sonhos: a série mostra de maneira muito autêntica como está difícil para o jovem ganhar dinheiro num mundo pós-crise econômica – analisa Techera.

O grande trunfo é justamente mostrar uma geração que não tem medo de se expor demais. Lena, uma espécie de versão feminina de Woody Allen, escreve, interpreta e consegue se sair bem e arrancar riso em todas as funções. As piadas autodepreciativas e cáusticas de Hannah – pelo menos nesta primeira temporada – são todas baseadas em experiências reais da própria autora.

O realismo absurdo das situações e a falta de atenção para o politicamente correto, seja nas cenas com uso de drogas ou nas cenas de sexo, às vezes tão constrangedoras e cruéis como só a vida real consegue ser, diverte e já ganhou fãs como o ator James Franco. O astro de 127 Horas publicou um texto no site Huffpost, explicando por que, mesmo “mal representados” na série, até os homens se renderam ao encanto espontâneo do quarteto.

– É claro que é bem mais divertido ver pessoas sendo irresponsáveis e cometendo erros do que levando vidas estáveis – escreveu.

Apesar de, na maioria das vezes, as meninas mostrarem um certo comodismo até irritante, enquanto as dívidas e as incertezas se acumulam, elas estão dando voz para milhares de jovens ao redor do mundo que, assim como elas, correm atrás de seus sonhos, cometendo um erro de cada vez.

Veja o trailer da primeira temporada:

Quem são essas garotas?

>>Antes de Girls, Lena Dunham escreveu, dirigiu e atuou em Tiny Furniture (2010), filme sobre uma garota sem emprego, sem namorado e sem ideia do que fazer da vida que é obrigada a voltar para a casa dos pais após terminar a faculdade. A mãe e a irmã de Lena fazem os papeis de mãe e irmã da personagem principal do filme. Alex Karpovsky, Jemima Kirke (Ray e Jessa, em Girls) também estão na produção.

>>Fique ligado no final dos episódios. As músicas costumam arrematar a história. A trilha sonora conta com artistas como Robyn, Belle and Sebastian, MGMT, Best Coast, LCD Soundsystem e The Knife.

>>A segunda temporada do seriado já foi confirmada pelo canal HBO e deve estrear em 2013.

>>Jemima Kirke, que interpreta a britânica Jessa, é amiga de Lena desde o Ensino Médio.

>>A destrambelhada Shoshanna, interpretada por Zosia Mamet, não seria personagem permanente da série inicialmente, mas acabou integrada ao quarteto central.

>>Para alegria dos inúmeros fãs, Lena vive respondendo a perguntas, antecipando novidades e publicando fotos de bastidores em seu perfil no Twitter, o @lenadunham.

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