#tamacho: com bom humor e zero de machismo, eles bradam sua masculinidade no Twitter

ONG virtual foi criada para defender "minoria em extinção"

ONG quer resgatar a autoestima masculina, liberar a cerveja e o futebol com os amigos, promover a inclusão sexual dos pançudos, carecas e desprovidos de beleza
ONG quer resgatar a autoestima masculina, liberar a cerveja e o futebol com os amigos, promover a inclusão sexual dos pançudos, carecas e desprovidos de beleza Foto: Zé Dassilva

Até que enfim eles se rebelaram. Após cinco décadas dos sutiãs queimados, orgulho gay, criminalização do racismo, atualização de leis para proteger crianças, idosos, bichos e árvores, é a vez de os homens bradarem sua masculinidade. Querem o direito de bater no peito e vociferar: sou macho. Sem vergonha, sem ser tirado para machista ou violento. Eles são héteros, pagadores de conta e monogâmicos (ui! As mulheres estão adorando isso).

Autointitulam-se uma minoria em extinção que criou uma ONG virtual para defender a própria espécie. Com vocês, o #tamacho.

Coloque o símbolo do jogo da velha seguido das sete letrinhas no Twitter ou no Google e você verá a revolução masculina em curso. A ONG virtual criada pelo chargista do DC, Zé Dassilva, ficou por dois dias seguidos entre os trend topics do Twitter no Brasil, à frente de #Flaflu, #faustão, #niverLuanSantana e #patriciapoeta.

Tudo começou na noite de 12 de março. Desfile das campeãs do Carnaval na Sapucaí. Camarote da Brahma bombando. E o Zé, em casa, cuidando da filhota. Por onde andava a esposa dele? Sim. Ela curtia o festerê na avenida e no camarote disputado. “Que marido fofo” dirão as mulheres apressadinhas. Mas Zé já tinha estado nos desfiles da segunda-feira. E, ela, em casa, com a pequena. Ou seja, tamacho não é machista. Só quer liberté, igualité e cervejé. É o slogan criado por eles e apreciado pela revista Playboy no blog O Mundo Segundo Tio Dino.

Naquela noite, Zé usou os 140 caracteres de seu @zedassilva para reclamar no Twitter que os héteros monogâmicos e “pagadores de conta” são uma minoria, que mesmo habituado à independência feminina, o grupo está desmoralizado. Foi dormir, e o negócio pipocou nos dias seguintes. Rio, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e, claro, Santa Catarina. Há exemplares de todo o canto mostrando que seguem firmes rumo à luta contra a extinção. Alguns aliviados por saírem do armário: “Esse projeto Tamacho é a realização de um sonho. Obrigado!” tuitou um ativista de Santos (SP).

Não demorou para surgir o estatuto dos tamachos: “a ONG Tamacho nasce como associação civil, de direito privado, de caráter avacalhativo, de duração indeterminada, mesmo com ereção prejudicada, regida pelo presente estatuto meia-boca (porque tamacho não segue modelo, mas tenta pegar o telefone) e pelas demais disposições legais que lhe forem aplicadas. Nunca de costas”.

Os objetivos são resgatar a autoestima masculina, liberar a cerveja e o futebol com os amigos, promover a inclusão sexual dos pançudos, carecas e desprovidos de beleza e estimular debates sobre a última Playboy. Há alguns workshops previstos, como o de abordagem tática. Com quem? José Mayer.

Desesperadas que andam pela escassez de pegada no mercado, as mulheres rapidinho simpatizaram com a causa e tuitaram: “quero um tamacho pra mim. Estou à procura de um há 30 anos.

Eis a resposta do Zé à histeria feminina: “depois da caça predatória das últimas décadas, só há espécies criadas em cativeiro”.

:: ENTREVISTA

Tamacho criador solta o verbo

Chargista do DC, jornalista e roteirista de Malhação, da Globo, Zé Dassilva é o criador do Projeto Tamacho. O nome da ONG é um trocadilho com o Projeto Tamar. Foi ideia da colega Gabriela Amaral, também roteirista de Malhação. Abaixo, uma entrevista com o tamacho idealizador.

A pergunta que não quer calar: #tamacho é machista?

Zé Dassilva ? Não, e isso está explícito no nosso lema: “liberté, igualité e cervejé”. O que propomos é a valorização do homem hétero, monogâmico e pagador de contas. Sem preconceitos ou combate às outras minorias. Isso tem sido reconhecido por quem não é um tamacho: muitos gays apoiam nossa causa e muitas mulheres querem saber onde achar um tamacho.

Vocês pretendem queimar cuecas como as mulheres já fizeram com sutiãs?

Dassilva ? Só as cuecas velhas.

O #tamacho se apaixona pela mulher que…

Dassilva ? Respeita o período de defeso do futebol e da cervejinha com os amigos.

Qual o melhor presente de aniversário para um #tamacho?

Dassilva ? Por ser um pagador de contas, o tamacho está acostumado a prover e fica melindrado ao receber presentes.

Uma frase numa DR.

Dassilva ? A ONG Projeto Tamacho incentiva o diálogo, mas abomina a DR.

Uma figura inspiradora (tamacho nato)

Dassilva ? Uma? Te dou várias! Chico Buarque, Humpfrey Bogart, Frank Sinatra, Norman Mayler, Ruy Castro, Luciano Huck, Wando, Jece Valadão…

Qual a data para o Dia do Orgulho Hétero? Por quê?

Dassilva ? Será em 21 de junho, data de nascimento de Nelson Gonçalves. Ao invés de passeata ocupando as ruas, nos reuniremos em mesinhas na calçada mesmo.

Vocês racham motel?

Dassilva ?  O habitat de um tamacho não é o motel, já que ele (por estar em extinção) ultimamente só se reproduz em cativeiro. Mas muitos ativistas relatam frequentar esses agradáveis ambientes no dia do aniversário de casamento.

Seios de silicone ou ao natural?

Dassilva ? Tanto faz. O que vale é a frase “mais vale um peito na mão do que dois no sutiã”.

Teu amigo depila o peito. O que você diz pra ele?

Dassilva ?  Particularmente eu não posso dizer nada. Já fiz lipo…

Qual o contra-ataque no caso de um revés feminista?

Dassilva ?  A simples fundação do tamacho já foi acusada de ser um ato machista. Por que nossa minoria não pode ter voz? Preconceito! Em 1980, Fernando Gabeira escreveu o livro Crepúsculo do Macho. Sim, vivemos um crepúsculo, mas a noite acabou. O dia raiou e o exército dos héteros pagadores de conta despertou!

O que um tamacho mais gosta de fazer num domingo à tarde?

Dassilva ? Ver futebol, ué! Pode ser estarrado no sofá ou no boteco.

E no sábado à noite?

Dassilva ? Satisfazer e ser satisfeito.

Ser em extinção, é? Onde as mulheres encontram um?

Dassilva ? Aqui, repito a frase de um ativista no Twitter: “não é a mulher que encontra, ela é encontrada por um tamacho.”

E como é que faz pra levar pra casa?

Dassilva ?  Levar um tamacho pra casa é o de menos. O que vale é levar pra casa e ajudar na preservação dele.

Todo hétero é monogâmico?

Dassilva ? Claro que não. Há relatos de membros tamacho que praticam a “monogamia de resultados”, mas não podemos patrulhar todos.

Se faltar grana pra pagar as contas, o cara deixa de ser tamacho?

Dassilva ? Não. Para cuidar desses casos, fundaremos a Casa de Assistência Jece Valadão, que abrigará héteros abandonados, falidos e perseguidos por seu predador natural: o advogado da ex-mulher.

Após o levante, não estão com medo de ficarem solteiros?

Dassilva ?  Muitas mulheres queriam exatamente isso: o levante!

Encontro de tamachos realizado no Centro de Florianópolis

:: Primeiro encontro da ONG

Celulares na mesa devidamente conectados às páginas de seus donos no Twitter. Copos de chope acompanham os smartphones. Alianças em quase todos os dedos. A camiseta é igual e estampa um tamacho saindo de um ovo, com um controle remoto na mão, um copo de cerveja na outra e uma ligeira barriguinha à mostra.

Só uma mulher naquela roda de papo em que piadas, risadas e cumplicidade não faltam. É o primeiro encontro dos tamachos, que ocorreu na tarde de um sábado, dia 2 de abril, no Mercado Público, em Florianópolis.

? Aqui tem conversa séria. Iniciamos uma conversa de negócios. Discutimos política internacional ?  afirma o empresário Otávio Cardoso, de Criciúma.

O designer Vicenzo Berti, 35 anos, tenta encarnar a seriedade. Fala da Líbia e do ditador Kadafi. Mas, na sequência, alguém solta uma piadinha leve:

? O máximo que a gente conseguiu discutir é que o Kadafi está muito longe ?  comenta o advogado Roberto Brandão, 29, de Minas Gerais.

A estudante Liliane de Souza acompanha o marido. Conta que foi até o Centro gastar o “cartão de crédito dele” e depois passou para conferir se o encontro era de verdade mesmo.

? Tem algumas amigas que reclamam de homem e já estão até jogando no outro time. Mas eu estou bem feliz com o meu tamacho. Ele me ajuda em casa. Lava louça, cuida das crianças e ainda toma cerveja comigo ? diverte-se.

Na mesa, não rola discriminação com Liliane. Há também alguns tamachos solteiros, o que, lógico, gera mais piada:

? Tamacho solteiro não existe. Se você verificar bem, vai ver que ele tem pelo menos um assunto sério ? dispara Vicenzo, enquanto manda uma mensagem para a esposa avisando que vai se atrasar.

O exemplar solteiro é o publicitário Dino Cantelli, autor do blog O Mundo Segundo Tio Dino, da revista Playboy. Ele também é a exceção que confirma mais uma regra da ONG: a monogamia tamachiana:

? Digamos que tenho dois assuntos sérios, e um fortemente sério. Eu entrei na ONG para me regenerar ? promete.

A conversa séria mesmo se desenrola no final do encontro. E, pasmem, meninas: eles dialogaram sobre os conselhos dos pediatras de seus filhos e, detalhe, o futebol foi assunto apenas em conversas rápidas e paralelas.

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