Tatuados relatam de que forma os desenhos na pele retratam a personalidade

Desde tempos ancestrais, desenhar a pele é uma forma de expressar identidade

Foto: Júlio Cordeiro

Quando completou 19 anos, a escritora, filósofa e colunista Carol Teixeira percebeu que aquele era o início de sua vida adulta. No entanto, sentiu que precisava de um ritual para marcar o início desse novo período, para que pudesse assimilar as mudanças e viver esse momento com toda a intensidade. Escolheu, então, fazer uma tatuagem. A primeira de muitas.

? Tatuei uma frase de Nietzsche, “Torna-te quem tu és”, no braço. E uma borboleta abaixo. Tem um significado muito importante, tem a ver com me tornar adulta, a percepção clara de que minha existência dependia de mim, de que o ‘tornar-me quem eu era’ estava nas minhas mãos. Cursava Filosofia e estava apaixonada pelo pensamento do Nietzsche _ afirma Carol, 33 anos.

Além da frase e da borboleta, Carol tem no corpo outras 16 tatuagens, que revelam, segundo ela, os traços de sua personalidade. Mais do que isso: possibilitam um meio de expressão dos seus sentimentos e anseios e compõem o mosaico da sua identidade.

? Sou muito intensa e tenho uma necessidade muito grande de expressão. Por isso escrevo livros e componho músicas. E a tatuagem vem como mais uma forma de me expressar, de transbordar. Transcende muito a questão estética. Tem uma função existencial. Tenho cada fase importante da minha vida marcada, do meu jeito. Tenho minha existência eternizada.

Por ter pensado minuciosamente em cada desenho que aplicou no corpo, Carol garante não ter arrependimentos. É reveladora a história da tatuagem que fez no dia do casamento, em que o tatuador esteve na cerimônia, tatuou uma espécie de aliança no dedo dos noivos e, ao final, os declarou marido e mulher. Com a separação, há dois anos, nenhum deles quis apagar a tatuagem que simbolizava a relação. Foi uma época da vida, uma fase marcada. E sempre será.

O cuidado que Carol sempre dedicou às pinturas em seu corpo não é regra entre os tatuados. Quem afirma é a professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC do Rio de Janeiro Maria Isabel Mendes de Almeida, autora do artigo Nada além da epiderme: A performance romântica da tatuagem. Segundo a professora, a maioria das pessoas abordadas por ela na pesquisa fazia tatuagens por impulso, decidia o desenho na hora e não refletia sobre o seu significado. O resultado era, com frequência, tatuados arrependidos.

? Nos Estados Unidos, onde a cultura da tatuagem é bastante arraigada, as pessoas tatuam símbolos e desenhos relacionados à sua vida. Aqui no Brasil é diferente. A maioria das pessoas faz apenas por moda ou por estética ? afirma Maria Isabel.

A professora comenta ainda que, para os brasileiros, o sentido de permanência que representa uma tatuagem é, em muitos casos, ignorado. Por isso as pessoas tatuam-se com traços da moda ou sem aplicar uma reflexão demorada no gesto. A consequência é a enorme procura pelos procedimentos para retirar tatuagens ou para transformar os desenhos originais em outros.

Basta lembrar da moda dos tribais, substituída pela febre dos ideogramas orientais. Isso sem mencionar, claro, a legião de homens e mulheres que tatuam nomes e declarações de amor para seus companheiros e, com o fim do relacionamento, precisam correr para desfazer a marca cabal de algo que prometia ser eterno e não foi.

? É difícil para nós, brasileiros, barganhar com o definitivo. Para nós, tudo é muito transitório. Como lidar com algo permanente em uma sociedade em que as emoções são passageiras?? questiona Maria Isabel.

À parte da imensa maioria que tatua o corpo conforme a tendência da moda, a professora destaca os poucos que, como Carol Teixeira e os demais personagens desta reportagem, fazem da tatuagem um meio de expressão e de construção da própria identidade. Ela destaca ainda o comentário mais frequente entre os adeptos da tatuagem: “É um vício”.

? Há uma tendência de sublimar a dor como algo que também dá prazer. Uma leitura possível seria a da busca de sensações em meio a uma realidade anestesiada. É um exercício de sensibilidade.

Marcar o corpo é uma prática ancestral. Estudos arqueológicos mostram que múmias de mulheres no Egito, cerca de dois mil anos antes de Cristo, apresentam vestígios de tatuagens na região da barriga. Durante o império romano, escravos e prisioneiros recebiam marcas no corpo para não serem confundidos com os integrantes das classes mais nobres.

Na Idade Média, o papa Adriano I proibiu as tatuagens de qualquer tipo, alegando ser coisa do demônio. Já na era moderna, as tatuagens continuaram protagonizando a história. A bordo do Beagle, Charles Darwin observou que quase todos os povos do mundo praticavam algum tipo de pintura permanente no corpo. Durante a II Guerra Mundial, Hitler mandou marcar os judeus com números nos campos de concentração. Até uma Barbie com tatuagens removíveis chegou a ser produzida, nos anos 1990.

Hoje, gente como Carol usa as tatuagens para expressar a si própria por meio dos desenhos no corpo. E para contar ao mundo de forma mais didática quem, afinal, é este ser humano todo pintado. Nascida em Porto Alegre e atualmente morando em São Paulo, ela conta que nunca enfrentou problemas em função das tatuagens.

? Como sempre vivi e trabalhei no meio artístico, nunca sofri preconceito ou tive que esconder tatuagens.

O que no passado poderia representar um problema – ainda hoje, concursos públicos para alguns setores das Forças Armadas, por exemplo, não admitem candidatos tatuados – é hoje parte decisiva da personalidade de Carol. E, melhor, sem arrependimentos.

? Tenho certeza de que não vou me arrepender. É algo belo e grandioso demais para se arrepender.

A vida toda na pele: “Vou me tatuar enquanto tiver força”

 

O amor pelos pais, a paixão pela cultura oriental, os amigos, os amores e suas desilusões, as perdas, as saudades. Nenhuma emoção escapa da pele do empresário Emerson Vital, de 42 anos. Quantas tatuagens ele tem? Inútil perguntar, nem ele mesmo sabe. Mas já fez algumas contas: tem 60% do corpo tatuado, trabalho que demorou aproximadamente 170 horas. Sabe contar em minúcias a história de cada um dos desenhos que tomam conta de seu corpo. E, importante, nem pensa em parar.

? Vou me tatuar enquanto tiver força. Se estou fazendo tatuagem, estou bem.

Emerson começou cedo. Aos 13 anos, ainda morando na periferia de São Paulo, viu alguém com tatuagem e ficou impressionado com o impacto que aquele desenho na pele causava. Juntou uma grana que ganhava realizando pequenos trabalhos e correu para o tatuador. Queria um dragão.

Levou dias para mostrar a aventura à mãe. Dona Josefa, muito religiosa, ficou horrorizada com aquele enorme símbolo do mal gravado na perna do filho. Mas não teve jeito. Depois da primeira, ele não parou mais. A mãe, que atualmente mora com o filho em Porto Alegre, já nem se importa mais. Gostar, gostar, não gosta. Mas lida bem com a pele transformada do filho.

Na pele, as iniciais dos nomes dos pais, por exemplo, ficam em destaque. Mensagens como paz e honra também estão presentes em Emerson. Alguns símbolos, no entanto, são recorrentes e ajudam a explicar a personalidade do sujeito que tem cara de durão mas, no fundo, é de uma sensibilidade tocante.

As três carpas representam a força e a longevidade. Os três tigres e as três águias são força e sabedoria. Um coração dilacerado por um punhal é um amor sofrido do passado. A data no pulso é a morte de um grande amigo. Os naipes do baralho e a inscrição “Tio Pedrão Eternamente” são as lágrimas de saudade de um tio querido, morto meses depois de vir morar com a família em Porto Alegre. Para Emerson, o processo de elaborar os lutos, dos amores às mortes, passa por uma tatuagem.

? Eu vou elaborando as coisas e, quando me sinto pronto, vou tatuar. Aquela dor física que a gente sente parece que vai rasgando as tristezas, as mágoas. Ao final, me sinto melhor.

No entanto, engana-se quem pensa que Emerson só tatua na nostalgia. Em seu corpo também há flores, símbolos orientais, peixes, baleias, alegrias.A paixão por tatuagem é tão grande que Emerson chegou a trabalhar durante um ano em um estúdio de Porto Alegre.

Voltou, ao final, a trabalhar com os irmãos no restaurante japonês da família, mas nunca deixou arrefecer a paixão pela pintura no corpo. Seu objetivo é “fechar o corpo”, que na liguagem tattoo significa tatuar tudo.Não há desvantagens, segundo ele, em ter tatuagens. Pensando bem, as “patricinhas” davam mais mole quando havia menos desenhos no corpo. Mas Emerson não se importa.

? As tatuagens já me fecharam portas de trabalho e até nos relacionamentos. Mas todas elas eram portas que deveriam ter mesmo se fechado.

Extensão da arte: “Minhas tatuagens falam um pouco de mim”

 
Apaixonada por design e moda, a bibliotecária e estudante de Design Ket Rodrigues, 34 anos, faz do corpo uma extensão da arte que admira. No antebraço, uma estilização da figura de Coco Chanel pelo olhar de uma designer americana de quem Ket gosta. Na perna, uma tesourinha corta o fio da moda que ela analisa e vive. Essas são duas das cinco tatuagens que Ket exibe. Segundo ela, são uma pequena extensão de si.

Improviso e impulso são duas palavras que Ket desconhece quando o assunto é tatuagem. Antes de concretizar a tattoo, ela passa meses estudando o desenho, analisando as possibilidades, entendendo todo o significado de uma nova imagem que estará em sua pele para sempre. Até as credenciais do tatuador são cuidadosamente verificadas antes do grande dia.

Todo esse cuidado se justifica. A primeira tatuagem, feita aos 22 anos, foi resultado de muita reflexão. Ideogramas chineses que representam a arte foram aplicados na barriga. Lindo. Alguns anos depois, um amigo desenhou um tribal e ela procurou um tatuador sem muitas referências. Resultado: tatuagem feia no pulso, que ela pretende adaptar.

? Não gosto dela. Vou transformar em um rolo de filme de cinema. Tem a ver com o que eu sou, muito mais do que esta.

O rolo de filme deve fazer companhia, no mesmo braço, a uma câmera fotográfica que já está desenhada. Só falta tatuar. Para esta sexta tatuagem o processo foi o mesmo. Meses de pesquisa para escolher o modelo, o traço e até a marca da câmera que será reproduzida, uma Leica.

Ket até tem vontade de fazer muitas tatuagens, cobrir bem mais o corpo com desenhos. Mas por enquanto não tem coragem, teme não se agradar tanto do resultado. Mas nem pensa em parar de se pintar.

? Minhas tatuagens falam um pouco de mim, da minha personalidade, do jeito que eu sou e das coisas que eu gosto. Como ainda tenho muito para dizer, não penso em parar tão cedo ? completa.

Confira um bate-papo com a modelo Fernanda Evangelista:

 

Donna: Quando começou a se interessar por tatuagens? Qual foi a primeira que fez?

FE: Com 14 anos, ao ver um trabalho do ilustrador americano Tony DiTerlizzi, cujos desenhos podiam ser vistos no jogo de RPG Dungeons & Dragons. A imagem que vi foi usada para exemplificar o uso da crase, num livro didático. Lembro de pensar: “Bah, eu PRECISO ter isso em mim”. A primeira foi uma bem pequena, no pulso esquerdo, a letra V, de Virgem, meu signo. O que é bastante curioso, considerando que eu não sou nem um pouco ligada nisso… Foi aos 18 anos.

Donna: Quantas tatuagens você tem? Em quais partes do corpo?

FE: Não sei, estimo que umas cinquenta e várias, beirando sessenta. Até contava, mas me perdi lá pelas quarenta e tantas. Por tudo, mesmo. Pernas, braços, costas, pés, costelas… Só não tenho no peito, barriga (acima do umbigo) e lateral do pescoço.

Donna: E a dor, como fica? Há lugares que causam mais dor no momento de fazer a tatuagem? Há quem diga que fazer tatuagem dá prazer…

FE: Não sou parâmetro em se tratando de dor: simplesmente não sinto nada enquanto me tatuo. Se a parte escolhida exigir que eu deite de barriga pra baixo, e o desenho for grande e demorado, acabo dormindo na maca do meu tatuador. Tenho uma bem grande nas costelas, e essa incomodou pela posição em que tive que ficar, a fim de esticar a lateral do corpo e deixar a cintura retinha, pra não distorcer o desenho. O pós é que me irrita, não gosto de ter que cuidar, tenho preguiça. Dependendo do lugar, então! É humanamente impossível plastificar as costas sozinho, vira bagunça.

Donna: O que as tuas tatuagens significam pra ti? O que sente quando olhas pra elas? Qual a tradução delas?

FE: Escolho os desenhos puramente pela estética (tanto que tenho até um castiçal que fotografei na Eurodisney, já pensando em tatuar mais tarde). Existem três temas recorrentes: literatura – obras do Tolkien, principalmente; música – só rock’n’roll e cartoon. Ando numa fase escrita: tenho tatuado versos de músicas ultimamente. Apesar de minhas tatuagens não terem tanto significado, elas certamente me tornam uma pessoa bastante ‘transparente’, no sentido em que, só de olhar pra mim, é possível saber exatamente o que eu escuto, leio e assisto. Carrego meus gostos e preferências sempre por perto.

Donna: Já se arrependeu de ter feito alguma tatuagem?

FE: Nunca. Já tapei alguns desenhos, mas foi bem tranquilo. Às vezes dá vontade de ‘dar uma mudada’. O maior sonho de toda pessoa muito tatuada, creio eu, seria ter mais espaço pra tatuar. Sinto inveja de gente ‘bege’, que tá começando agora… Tantas possibilidades, tanto espaço em branco!

Donna: Como as pessoas reagem a elas?

FE: Depende da pessoa. O cidadão pode até ser curioso e ficar olhando, mas tem gente que passa dos limites e quer encostar. Claro que me refiro a pessoas desconhecidas e sem nenhuma noção, nesse caso. Outra coisa absurda é quando alguém resolve expressar todo o seu desdém pela arte, te criticando do nada! Acontece, e é ridículo. Se tu não tem nada de bom pra dizer, fica quieto. Já crianças e bebês nos adoram; suponho que gente colorida seja mais divertida pra eles. Não sabem se pedem colo ou ficam olhando mais um pouco (ah, e esses podem passar a mão à vontade!).

Donna: Já enfrentou algum tipo de problema por causa das tattoos? Pessoal? Profissional?

FE: Ao entrar numa igreja, em Florença, no verão, uma beata quis me ‘escoltar’ até a porta. Não deu certo, e outros turistas não gostaram nem um pouco da maneira como ela se portou. O importante ao lidar com gente ignorante é manter a compostura e tratar a pessoa de maneira educada, sempre. Funciona. Como modelo, as tatuagens limitaram enormemente qualquer idéia que eu pudesse ter em relação a uma carreira mais ‘séria’. Sou modelo há quase quinze anos, e sequer tenho noção de quantos trabalhos já perdi por ser tatuada. Sempre soube que isso aconteceria, mas paciência. Meu foco sempre foi o estudo.

Donna: Quer fazer mais alguma tatuagem?

FE: Lógico, sempre! Só preciso arranjar espaço…

Donna: Tem algum medo de te arrepender no futuro?

FE: Nenhum. Até porque seria bastante inusitado querer voltar atrás depois de tanta tinta. Quando faço trabalhos em que o cliente pede pro fotógrafo remover minhas tatuagens no Photoshop, ver o resultado me é surreal. Basicamente, aquela não sou eu. Acho divertido, mas nunca senti vontade de ser bege de novo…

As últimas do Donna
Comente

Hot no Donna