Ter 65 anos não pode mais ser o único critério para situar uma pessoa na terceira idade

Fatores como autonomia e expectativa de vida devem ser considerados

Proposta é defendida por autores de estudo publicado na revista especializada Science
Proposta é defendida por autores de estudo publicado na revista especializada Science Foto: Júlio Cordeiro

Eles fazem dança de salão, dirigem o próprio carro, estudam línguas, lotam as academias de ginástica, são militantes políticos, querem viajar pelo mundo. E têm mais de 65 anos. Por causa da idade, a Organização Mundial de Saúde (OMS) os considera idosos, mas o difícil é convencê-los ? com dias tão repletos de atividades ? de que realmente chegaram à velhice.

O parâmetro da OMS também incomoda os pesquisadores Warren Sanderson, da Stony Brook University, nos Estados Unidos, e Sergei Scherbov, do Instituto de Demografia de Viena, na Áustria. Os dois decidiram usar outras variáveis e sugerir um novo modelo para medir o envelhecimento no mundo. Para calcular quando uma pessoa pode ser considerada idosa, eles avaliaram dados como expectativa de vida, autonomia e grau de dependência e traçaram o perfil de idosos de todos os países.

A pesquisa, publicada na revista Science, mostrou que ter 65 anos não pode ser a única forma de chamar alguém de idoso.

? Os idosos de ontem não eram como os idosos de hoje, que são muito mais ativos. O aumento da expectativa de vida e a enorme quantidade de idosos saudáveis e independentes não podem ser esquecidos. São fatores importantes que vão determinar a hora de considerar a chegada da terceira idade ? explica Sanderson.

Qualidade de vida

A presidenta da Associação Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Sílvia Pereira, concorda com a proposta de Sanderson e Scherbov. Segundo ela, a idade não deve ser o único critério para classificar uma pessoa como idosa.

? O que nós estamos vendo é que a população está ficando mais velha e com mais qualidade de vida ? aponta.

A médica considera o aumento do número de idosos no Brasil uma conquista. Hoje, eles são 21,5 milhões, ou 11,4% da população.

? Estamos melhor do que há 60 anos, quando não havia tanta conscientização sobre o assunto ? analisa.

A geriatra Luciana Pricoli nota que os idosos de hoje não são incapazes e aponta dois aspectos para isso: a independência e a autonomia. A primeira, segundo a médica, diz respeito ao aspecto físico, à capacidade de ir e vir. Já a autonomia é a possibilidade de gerir a própria vida e ter independência mental.

? É importante que o idoso envelheça com saúde e com autonomia mental, ou seja, com a cabeça boa para contornar limitações ? explica.

DADOS DO IPEA

Estudo recentemente divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que a população brasileira pode estar “superenvelhecida”. Entre os anos de 1992 e 2009, a população brasileira saiu de 7,9% para 11,4% dos brasileiros. Enquanto isso, o número de jovens com menos de 15 anos diminuiu de 33,3% para 24% na mesma época. Para os técnicos do Instituto, a partir de 2030, os únicos grupos populacionais que apresentarão crescimento positivo serão os com idade maior que 45 anos.

A pesquisa também mostrou que os brasileiros com mais de 45 anos serão 56,3% da população em idade ativa. De acordo com a coordenadora de População e Cidadania do Ipea, Ana Amélia Camarano, o novo quadro deve pedir adaptações das empresas, como a adoção de medidas voltadas para a saúde ocupacional, adequação de estrutura física e capacitação dos trabalhadores em inovações tecnológicas.

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